Conspiração contra o povo palestino não passará, diz secretário-geral do PC de Israel
Yoav Goldring entrevista Adel Amer, dirigente do Partido Comunista
Publicado 20/02/2026 11:33 | Editado 20/02/2026 17:21
Foto: Al-IttihadO 29º Congresso do Partido Comunista de Israel (PCI) reuniu-se de 12 a 14 de fevereiro, em um momento extremamente difícil, num contexto de uma guerra de extermínio contra o povo palestino, do acirramento do fascismo israelense, de perseguições políticas contra movimentos de esquerda e a população árabe, e do avanço desenfreado do imperialismo estadunidense ao redor do mundo. Na entrevista que realizamos com o secretário-geral do partido, Adel Amer, discutimos a situação política, as condições em que se travam as lutas do partido e as possibilidades que o partido vê para a promoção da paz e da igualdade. Confira a entrevista abaixo.
Yoav Goldring: O 29º Congresso se reúne enquanto a guerra de extermínio contra o povo palestino já dura 27 meses. O partido alertou sobre esses perigos antes mesmo do 7 de outubro. Como o partido avalia o momento em que nos encontramos hoje?
Adel Amer: Estamos realizando o Congresso sob a sombra de uma guerra de extermínio contra o povo palestino, que começou há 27 meses e ainda continua, apesar do que foi anunciado como um cessar-fogo na Faixa de Gaza. Ao mesmo tempo, continuam os ataques da ocupação e das gangues de colonos contra os palestinos em toda a Cisjordânia, bem como as agressões militares no Líbano e na Síria. As ameaças de retomar a guerra contra o Irã não cessam por um único instante. Tudo isso ocorre no contexto do acirramento da ofensiva fascista contra a população árabe-palestina e contra a esquerda, que inclui perseguições políticas, o solapamento da atividade política, a escalada da política de demolição de casas, a colaboração com gangues criminosas para atingir a sociedade árabe, entre outros.
O povo palestino sofreu nesta guerra mais de 75 mil mártires na Faixa de Gaza e na Cisjordânia ocupada, além de dezenas de milhares de desaparecidos enterrados sob os escombros; mais de 130 mil feridos e cerca de um milhão e oitocentos mil deslocados na Faixa de Gaza, junto a dezenas de milhares de deslocados dos campos de refugiados na Cisjordânia. Tudo isso ocorre em meio a uma tentativa de liquidar a luta palestina e removê-la da agenda global. Estamos falando de uma Nakba contínua, mas os movimentos de luta na Palestina e em Israel dizem a eles: seja qual for a magnitude do apoio imperialista e reacionário à máquina de guerra israelense; a conspiração contra o povo palestino não passará!
Há quem afirme que a luta palestina está em um beco sem saída, que a correlação de forças regional mudou e que talvez devêssemos ser “pragmáticos” em nossas posições. Como o partido vê a questão da solução política?
Reiteramos e enfatizamos nossa adesão ao direito do povo palestino à autodeterminação e à criação de seu Estado independente e soberano, com plena soberania nas fronteiras de 4 de junho de 1967, tendo Jerusalém Oriental como sua capital, com o desmantelamento de todos os assentamentos e a garantia do direito de retorno, de acordo com as resoluções da ONU. As avaliações sombrias e as análises pessimistas certamente merecem debate, mas enfatizamos que qualquer alternativa que não inclua todos esses elementos: Estado independente, retirada dos assentamentos, capital em Jerusalém e garantia do direito de retorno; constituirá a perpetuação da ocupação e da colonização, por meios diretos e indiretos, como vimos, por exemplo, com a retirada da Faixa de Gaza há vinte anos [o “Plano de Desengajamento” de Ariel Sharon foi uma iniciativa unilateral israelense para retirar todos os assentamentos da Faixa de Gaza com o objetivo, posteriormente declarado publicamente, de consolidar a ocupação israelense].
Quanto à atividade militar israelense na Síria, nosso partido enfatiza sua posição sobre a necessidade da retirada de Israel de todos os territórios sírios e libaneses ocupados desde 1967 e posteriormente, incluindo as novas ocupações de terras sírias que testemunhamos no final de 2024 e durante o ano de 2025. Esta é uma posição de princípios do nosso partido.
Sabemos que o imperialismo estadunidense é o principal combustível da guerra recente. Como que o Partido entende o papel dos Estados Unidos nesta guerra?
Uma guerra de extermínio não teria alcançado tamanha intensidade destrutiva nem durado tanto tempo se não fosse pelo total apoio e parceria estadunidense. financeira, militar e política, começando pelo governo Biden e continuando no atual governo sob a liderança de Donald Trump. O volume de gastos declarados dos EUA com a guerra de extermínio e com as guerras israelenses nos últimos dois anos atingiu mais de 22 bilhões de dólares, conforme reconhecido publicamente, um valor equivalente a cerca de 38% dos gastos militares diretos de Israel nesta guerra, além do respaldo diplomático absoluto fornecido ao governo fascista israelense.
Trump fala de um “Conselho de Paz” para o Oriente Médio. Como comunistas, ficamos preocupados cada vez que o imperialismo fala em “paz”. O que é, de fato, este conselho aos seus olhos?
O que é falsamente e enganosamente chamado de “Conselho de Paz” é um artifício que o regime imperialista estadunidense busca transformar em uma ferramenta para liquidar a questão palestina e negar ao povo palestino o direito de se representar e de gerir seus próprios assuntos. É preciso notar que isso vai além do Oriente Médio. A agressividade desenfreada dos Estados Unidos atinge muitas regiões: Venezuela e Cuba não serão o fim, mas o começo. Esse descontrole começa inclusive a afetar os aliados de Washington na OTAN, como a Dinamarca, na ambição estadunidense de anexar a Groenlândia, e na política de tarifas alfandegárias excessivas cujo objetivo é desferir golpes econômicos contra países que foram aliados históricos dos Estados Unidos. O mundo inteiro se depara novamente com a fúria do imperialismo estadunidense contra os povos do mundo, com o objetivo claro de controlar os recursos e as riquezas naturais das nações, subordinando todos os regimes a serviço dos interesses capitalistas estadunidenses.
Gostaria de falar sobre a situação interna em Israel. Muitos no Congresso descreveram o regime israelense utilizando o termo “fascismo”. Até que ponto esse termo é adequado no contexto israelense?
Há décadas, desde um estágio muito precoce, alertamos contra o fortalecimento do fascismo israelense-sionista. E agora, essa profecia sombria se concretiza: o fascismo consolidou seu domínio no poder em Israel. Este é o resultado de um acúmulo de políticas racistas e de uma ideologia colonial ao longo de quase oito décadas. Aquele que antes era isolado e banido no plenário do Knesset, quando 119 parlamentares o boicotavam enquanto subia à tribuna [Amer refere-se ao ex-parlamentar Meir Kahane, um fascista declarado que atuou no Knesset há três décadas], sua visão de mundo e seus seguidores são hoje os governantes de fato, liderados pelo próprio primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, e sua cúpula governante.
Este governo foi estabelecido nos últimos dias de 2022. Como você vê a “reforma judicial” neste contexto de classe? Como comunistas, a defesa dos tribunais faz parte do seu programa de luta?
Este é um ponto importante. O governo revelou seus planos na chamada “reforma judicial”, que é, na verdade, um ataque desenfreado contra a independência do sistema judiciário. É verdade que o sistema judiciário foi e continua sendo parte ativa e essencial do sistema racista dominante, especialmente a Suprema Corte, que legitimou toda a política de ocupação e a política de discriminação contra os cidadãos árabes. Apenas em uma pequena minoria de casos o tribunal esteve do lado correto da história contra a ocupação e o racismo. Você tem razão: como comunistas, não temos ilusões de que o sistema judiciário burguês seja um baluarte da democracia. No entanto, o sistema judiciário opera dentro das contradições existentes na democracia burguesa, contradições que soubemos aproveitar ao longo dos anos, na consolidação do direito de greve e das liberdades dos manifestantes, por exemplo. O sistema é fraco e problemático, mas deixa algumas frestas pelas quais conseguimos atuar. Sua anulação seria mais um passo na repressão das forças democráticas e populares em Israel.
E quanto à oposição? Ouvi bastantes críticas no Congresso sobre o que é chamado de “oposição” em Israel.
E com razão. O governo sente que tem as mãos livres para avançar com todos os seus planos, já que a grande maioria dos partidos de oposição no Knesset colabora totalmente com as políticas de guerra, destruição e extermínio. Mais de uma vez vimos esses partidos adotarem posições ainda mais extremistas que as do governo, colaborando com toda a legislação e as políticas racistas dirigidas contra a população árabe. Assim, por exemplo, essa suposta oposição apresenta uma resistência à “reforma judicial”, mas carece de qualquer alternativa real ao governo fascista e às suas políticas. Diante de tudo isso, dizemos com orgulho: a verdadeira oposição parlamentar, aquela que não aceita o servilismo nem a rendição a conchavos políticos, é o Partido Comunista e a nossa bancada no Knesset, a Hadash-Ta’al, cujos cinco parlamentares estiveram quase sozinhos na votação contra a guerra contra o povo palestino e, posteriormente, também contra a guerra no Irã, na Síria e no Líbano.
Como o partido vê a luta em campo? Como os militantes do partido conseguem atuar sob essas condições?
Sem dúvida, estamos enfrentando perseguição política e sofrendo prisões, interrogatórios provocativos e o cerco às nossas atividades políticas. Nossos militantes persistem em manifestações semanais em Tel Aviv, Umm al-Fahm e outras cidades, muitas vezes em frente ao Ministério da Defesa. Muitos de nossos camaradas pagaram preços altos, prisões e agressões físicas. Ao mesmo tempo, vimos um movimento ativo de objeção de consciência e recusa ao serviço militar por parte de muitos jovens em Israel, e nos orgulhamos de que muitos deles viram na Juventude Comunista e na Frente Democrática o seu endereço político. Além dos ataques pessoais aos nossos ativistas, as coisas chegaram ao ponto de proibir nossas atividades organizacionais, como ocorreu com o impedimento da reunião do conselho nacional da nossa Frente por duas vezes, bem como os repetidos ataques às nossas sedes partidárias, especialmente em Nazaré e Haifa. Mas este preço é pequeno diante da magnitude dos desastres que atingiram o povo palestino. E, em meio a tudo isso, nosso partido e a Frente Democrática, com todas as nossas estruturas e aliados, continuam em atividade popular, posicionando-se em campo e na arena política contra a máquina de guerra e a negligência racista.
Falou-se muito no Congresso sobre a “Parceria pela Paz” (Shutafut haShalom). O que é essa organização, como nasceu e como é recebida pela opinião pública israelense?
Já nos primeiros dias da guerra, conseguimos estabelecer a “Parceria pela Paz”, uma coalizão de organizações e personalidades criada para ampliar a resistência à guerra e à ocupação. A Parceria pela Paz conseguiu organizar, ao longo da guerra, eventos de protesto muito grandes e muitas atividades de solidariedade com os moradores da Faixa de Gaza. De um punhado de manifestantes contra a guerra nos seus primeiros dias, conseguimos fazer crescer um movimento grande e influente em todo o país, e isso não seria possível sem a construção de alianças políticas com organizações e movimentos ao nosso redor.
Que parcerias vocês mantêm na sociedade árabe?
Naturalmente, essa linha de parceria na luta também se aplica à nossa atividade na sociedade árabe, com forças políticas patrióticas árabes e com o Comitê de Acompanhamento Superior da População Árabe. Todos lutam contra a política do governo e pagam preços altos: perseguições, prisões, julgamentos e sentenças injustas, demissões de locais de trabalho e suspensões de universidades e faculdades acadêmicas. Vemos nesta parceria um fundamento central baseado na nossa concepção: a unidade dos oprimidos. Aspiramos a parcerias políticas, inclusive parlamentares, desde que fundamentadas em bases políticas corretas, a exemplo da Lista Conjunta de 2015 [coligação eleitoral do Partido Comunista com todas as forças políticas atuantes na sociedade árabe, que obteve um apoio sem precedentes], cujos princípios continuam válidos hoje e são ainda mais necessários diante dos desafios crescentes.
O tema do crime organizado nas localidades árabes foi um ponto central no Congresso. Como o partido vê o vínculo entre o crime organizado e a luta política mais ampla?
Os governos, especialmente desde os anos 2000, viram nas gangues criminosas um porrete para golpear a sociedade árabe, a fim de mantê-la ocupada consigo mesma e privá-la de segurança pessoal. Esse fenômeno se agravou sob o atual governo. O governo atual restaurou, na prática, os abomináveis regimes de administração militar [nas primeiras décadas do Estado de Israel, as localidades árabes dentro do Estado foram submetidas a um regime militar], adicionando componentes perigosos da corrente extremista kahanista, que domina o governo e dita os seus rumos. Diante dessa questão, enfatizamos a necessidade de uma ampla união de luta para enfrentar o crime e, ao mesmo tempo, o dever de manter a persistência na luta contra as políticas fascistas, contra a ocupação e a guerra, e pelos direitos à terra, à habitação, ao trabalho digno e à educação. Essas lutas são particularmente urgentes no que diz respeito às localidades árabes no Negev, onde ocorre uma política governamental sistemática de expropriação da população e de seu expulsamento de suas terras.
Como comunistas, sempre analisamos a “Primavera Árabe” com cautela, enquanto muitos se deixaram levar pelo entusiasmo popular em diferentes países. Como o partido vê esses eventos em uma perspectiva histórica?
Alertamos, desde o início do que foi falsamente chamado de “Primavera Árabe”, contra os esforços do imperialismo, liderado pelos Estados Unidos, mas também pelas potências do velho colonialismo europeu, especialmente a França, para saquear os povos árabes e aprofundar o controle estrangeiro sobre suas terras. Enfatizamos ao longo de todo o caminho o direito dos povos árabes à justiça social, à distribuição justa das riquezas nacionais, à democracia e a uma vida digna. Em retrospectiva, é fácil ver que a chamada Primavera Árabe foi uma reprise da estratégia habitual: a infiltração de forças imperialistas e seus braços reacionários, e posteriormente do próprio regime israelense governante, para roubar a vontade dos povos e transformar as revoltas populares, que em sua origem eram justas, em um caos prolongado por anos; tudo isso para viabilizar o saque desses países. O exemplo mais recente disso é a Síria. Dissemos desde o início que o verdadeiro alvo dos ataques não era o regime de Assad, mas o próprio Estado sírio, seus recursos e seu povo. Todos podem ver e julgar qual regime governa hoje e quais gangues terroristas o apoiam: um regime que é um produto imperialista, reacionário, estadunidense e israelense.
Como o Partido Comunista em Israel atua no contexto internacional?
Acreditamos que este é o momento do movimento comunista mundial e das forças de progresso no mundo aprofundarem a coordenação entre si, com o objetivo de unir os povos contra os planos imperialistas. Nosso Partido Comunista, com seu legado de muitos anos, está pronto hoje, como sempre esteve, para qualquer cooperação e coordenação com os partidos irmãos no mundo e na região, e estende a mão para o aprofundamento dos laços com todos os partidos comunistas. Estamos satisfeitos com as boas relações que mantemos com a maioria dos partidos comunistas no mundo árabe e com as forças progressistas nele, destacando especialmente nossa relação especial com nossos camaradas do partido irmão, o Partido do Povo Palestino, e com todas as forças nacionais e progressistas palestinas.
Para encerrar, gostaria de perguntar sobre o próprio partido. Após o colapso da União Soviética e após crises internas, o que confere resiliência ao Partido Comunista de Israel?
Nosso partido conheceu as crises mais difíceis, encabeçadas pela Nakba do povo palestino. Desde o primeiro momento, as instituições do poder sempre direcionaram seus ataques contra o nosso partido, como parte da ofensiva contra a atividade política na sociedade árabe e contra as forças progressistas na sociedade judaica. No passado, houve crises que afetaram nosso partido; no entanto, graças aos seus princípios marxista-leninistas, conseguimos atravessar muitas etapas difíceis.
É preciso entender que o nosso partido foi quem defendeu, lançou as bases e liderou a luta dos palestinos nativos que escaparam da expulsão, no início da Nakba, depois em 1967 e até hoje nos ataques de limpeza étnica. O partido escreveu o capítulo heroico da permanência palestina em sua terra e da resistência firme na pátria. É a casa natural onde se encontram lutadores pela justiça, árabes e judeus, sem que ninguém olhe para a origem do outro, pois o que nos une é o pertencimento à mesma concepção teórica, à mesma casa político-ideológica comum. Do partido surgiram as gerações jovens revolucionárias e rebeldes, cujo espírito revolucionário eclodiu no Primeiro de Maio de 1958 em Nazaré e Umm al-Fahm, e no Dia da Terra em 1976 [eventos históricos de levante contra a opressão da população árabe em Israel], e antes deles, entre eles e depois deles. Nosso partido também se orgulha da Frente Democrática pela Paz e Igualdade (al-Jabha / Hadash), que trabalhamos para estabelecer em 1977, precedida por alianças e frentes locais ao longo de anos. Essa história também é parte do combustível que nos dá força para seguir adiante contra todos os obstáculos.
Última pergunta. Qual a importância que você vê neste último Congresso realizado?
Esperamos que o nosso Congresso seja lembrado como um evento que impulsionou a renovação e o fortalecimento organizacional, pois uma organização forte significa uma maior capacidade de mobilizar as massas para uma luta mais determinada contra todas as atuais políticas de guerra, racistas e fascistas, e em prol da justiça social; além de uma maior capacidade de construir parcerias amplas e verdadeiras. O partido foi quem lançou os alicerces da luta contra o establishment governante desde 1948, e foi a rocha firme que todos os governos de Israel, suas instituições e emissários não conseguiram quebrar, porque foi construído sobre fundamentos corretos. Agora, como após cada evento difícil, devemos sacudir de cima de nós a atmosfera de desespero espalhada pela guerra de extermínio. Nossa luta diante da dura realidade precisa de uma bússola e de uma determinação profunda. E sempre repetimos: quão difícil é ser comunista… e quão belo é ser comunista, lutadores pela justiça social e pelo direito dos povos a uma vida digna.




