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A resenha de Francisco Affonso Pereira Torres para o Portal Bonifácio sobre o livro A Rebelião das Massas de Ortega y Gasset.

Em tempos de pós-verdades, resgatar as ideias e o pensamento de Ortega y Gasset impõe-se como imperativo. Nos dias de hoje, como nos dias que antecederam o surgimento do fascismo e do totalitarismo na Europa, os fatos objetivos parecem ter menos influência que os apelos às emoções e às crenças pessoais. O fascismo e o totalitarismo europeu utilizaram-se amplamente dos novos meios de comunicação em massa de sua época (sobretudo o rádio) para difundir as suas ideias e pós-verdades. Hitler e Mussolini provavelmente não teriam chegado ao poder não fosse a potência e o alcance inédito que o rádio e as transmissões por radiodifusão haviam atingido, durante aquela época. Nos dias de hoje, são as novas mídias da internet (WhatsAppFacebook, Instagram, YouTube, etc.) os principais canais difusores de ideologias e pós-verdades. Compreender o impacto dessa nova e inexorável realidade em nossas vidas, em nossa democracia e nas sociedades em que vivemos constitui tarefa primordial dos tempos atuais. Em 1929, o filósofo espanhol Ortega y Gasset descreveu em seu livro “Rebelião das Massas”, com exatidão ímpar, o impacto que os novos meios de comunicação viriam a ter em nossas sociedades. Alertou-nos para seus efeitos deletérios. Ortega y Gasset previu o cataclismo que se abalaria sobre a Europa e sobre o mundo. Suas palavras e, sobretudo, seu alerta são mais atuais hoje do que nunca.

O filósofo espanhol Ortega y Gasset antecipou o risco da manipulação das massas.

Em 1936, dezenas de milhares de cartazes apareceram, em praticamente todas as cidades alemãs. Em seu texto, publicado sobre uma foto de um gigantesco aparelho de rádio no meio de uma multidão, lia-se: “Ganz Deutschland hört den Führer” (“Toda a Alemanha escuta o Líder”). O cartaz anunciava uma invenção que iria transformar a Europa, o WhatsApp de outrora. O chamado “Rádio do Povo”, ou “Volksempfänger”, era um aparelho de rádio, desenvolvido pelo engenheiro Otto Griessing, a pedido de Joseph Goebbels, o ministro de Propaganda do regime nazista. Apresentado ao público alemão pela primeira vez em 1933, durante a 10º Grande Feira Internacional do Rádio de Berlin (“10º Große Deutsche Funkausstellung”), o novo equipamento permitia, a um custo extremamente acessível, de 35 marcos (o equivalente a um quarto do salário mínimo da época), pagos em suaves prestações, a recepção de estações de rádio selecionadas, todas alemãs. O objetivo estratégico da produção e distribuição em massa do “Rádio do Povo” era evidente: permitir ao regime nazista controlar, com punhos de ferro, a máquina mais poderosa, e mortal, de comunicação em massas já criada até então.

Estima-se que, ao final da Segunda Guerra Mundial, 80 milhões de pessoas escutassem diariamente transmissões de rádios nazistas, por meio de equipamentos do tipo “Rádio do Povo”.

Para efeitos de comparação, a população total da Alemanha atualmente é de 83 milhões de pessoas.

As “lives” do nazismo, realizadas em tom dramático pelo ”Führer”, chegavam às salas de praticamente todos os cidadãos, além de serem escutadas, ao vivo, em alto-falantes instalados, de modo estratégico, em ruas, estações de trem e de metro, rodoviárias, terminais portuários, escolas, hospitais, ginásios, e demais prédios públicos. Joseph Goebbels considerava, não sem razão, o sucesso do programa industrial de fabricação e distribuição de aparelhos de rádio essencial para seu infame programa de “propaganda”.

Durante o julgamento dos crimes nazistas, nos famosos Processos de Guerra de Nuremberg, Albert Speer, o então ministro de Armas e arquiteto do Reich, declarou, com sinceridade espantadora: “a ditadura de Hitler diferia em um aspecto fundamental de todas as suas precursoras na história. Foi a primeira ditadura durante o período moderno de desenvolvimento tecnológico, uma ditadura que se utilizou plenamente de todos os meios de dominação em seu país. Por intermédio de aparelhos tecnológicos, como o rádio e os alto-falantes, 80 milhões de pessoas foram privadas de qualquer pensamento independente. Era, assim, possível subjugá-las aos desígnios de um só homem (Hitler).”

Hitler construiu o nazismo manipulando as frustrações do povo alemão.

Como todo visionário e grande intelectual, Ortega y Gasset havia previsto o que poderia ocorrer e acabou ocorrendo. Para ele, não existem verdades eternas nem absolutas. O que há, sempre, são perspectivas, visões sobre a realidade. Segundo Ortega y Gasset, a vida humana e suas circunstâncias inexoráveis são a fonte do conhecimento e da verdade. ”Yo soy yo y mi circunstancia y si no la salvo a ella no me salvo yo”, afirmava. O perspectivismo do pensador espanhol nos leva à conclusão de que a verdade é produto de uma soma de perspectivas. Produto, portanto, de uma subjetividade. Há a verdade científica, a verdade acadêmica, a verdade da mídia, a verdade do sertanejo, a verdade de João, a verdade de Maria, a verdade do libertador, a verdade do revolucionário. E há a verdade do fascista, a verdade do opressor, a verdade do tirano, a verdade do déspota. Ou seja: as ideologias, sejam elas libertárias ou opressoras, criam suas próprias verdades. É o que chamamos de guerras de narrativas.

Para Ortega y Gasset a tarefa primordial é compor uma narrativa que corresponda aos anseios moralmente mais nobres da humanidade, uma narrativa que nos liberte ao invés de uma narrativa que nos destrua. O filósofo espanhol havia presenciado os horrores da primeira guerra mundial, a barbárie que se abatera sobre a Europa. E presenciaria também, estupefato, o surgimento do fascismo, que levaria a Europa novamente à destruição completa.

Sendo a verdade um produto humano, derivado da inexorabilidade de nossas circunstâncias, como teria sido possível que as massas da Europa, milhões e milhões de “cidadãos de bem”, tivessem permitido e viabilizado a ascensão do fascismo e toda a destruição que representava, questionava Ortega y Gasset. Se a humanidade tem a prerrogativa de escolher entre a vida e a morte, entre a liberdade e a destruição, entre o amor e o ódio, como teria sido possível que a morte, a destruição e o ódio tivessem prevalecido?

O nazismo fez do rádio o grande instrumento de manipulação e propaganda de sua era.

A resposta visionária de Ortega y Gasset: foi o “Rádio do Povo”, foi o WhatsApp da época, foram os novos meios de comunicação em massa. Os fascistas souberam utilizar esses novos meios para criar sua narrativa, para difundir suas pós-verdades. Os humanistas, os libertários, por outro lado, não souberam se utilizar de todo o seu potencial, com o mesmo sucesso. Permaneceram presos ao passado, escrevendo livros e panfletos que ninguém mais lia, em tempos do rádio e das comunicações em massa, muito mais atraentes e dinâmicas. Desse modo, a narrativa fascista tornou-se preponderante em alguns importantes países como a Alemanha, a Itália, e a Espanha. Conquistou, nesses países, os corações e as mentes de grande parte dos cidadãos, o “homem-massa”, aquela multidão de idiotas-úteis que levaram o fascismo ao poder, por omissão ou por conveniência.

A lição de Ortega y Gasset parece clara: não basta que alguém considere suas ideias superiores. É necessário convencer as pessoas sobre tal superioridade. É imperativo vencer a guerra de narrativas, conquistar as mentes e os corações do “homem-massa”. Somente dessa maneira uma ideia pode triunfar. Somente desse modo os ideais de liberdade, justiça social, soberania, tolerância e democracia podem prevalecer. Caso contrário, prevalecerão os ideais de submissão, privilégios, exclusão social, intolerância e ditadura. Como, de fato, prevaleceram, na Europa que Ortega y Gasset viu desmoronar, pela segunda vez.

No Brasil, as eleições presidenciais de 2018 devem servir como lição e como alerta. As “fake news”, os disparos em massa de mensagens em grupos de WhatsApp e páginas de facebook (pagos por quem?), as narrativas de ódio, os discursos negacionistas, as teorias conspiratórias, o fanatismo religioso, as doutrinas autoritárias acabaram tendo alcance muito maior que outros discursos, de teor humanista, moderado, secular, democrático, libertário. Em 2018, o ódio venceu a esperança. O ódio logrou propagar-se, com muito mais vigor, pelas searas ainda pouco compreendidas dos novos meios de comunicação em massa do século XXI.

Para que a esperança possa triunfar novamente sobre o ódio, será necessário aprender a lição de Ortega y Gasset. Não basta ter uma verdade moralmente superior. Faz-se imperativo ganhar a guerra de narrativas e convencer o “homem-massa” da superioridade moral da visão humanista e democrática. Pois os novos meios de comunicação em massa de hoje vieram para ficar, como o rádio, na década de 1930. Hoje, como outrora, os fatos objetivos parecem ter menos influência que os apelos às emoções e às crenças pessoais.

O fascismo acabou sendo derrotado. Em parte pelo enorme sucesso de um outro meio de comunicação em massa que viria a se revelar ainda mais poderoso que o rádio: o cinema. Assim como o nazismo havia criado a “Rádio do Povo”, Hollywood foi além: criou o cinema para as massas, as megaproduções cinematográficas, glamorosas e atraentes, que combatiam o nazismo e o totalitarismo fascista.

Distribuindo fake news pelo WhatsApp, os manipuladores contemporâneos constroem suas pós-verdades.

Ortega y Gasset nos ensinou que a verdade é, sempre, produto de perspectivas, de visões sobre a realidade, das nossas circunstâncias. Nos ensinou, ademais, que o “homem-massa”, em sua soberba simplória e totalitária, é suscetível a qualquer discurso, inclusive o discurso de ódio, o discurso fascista. Cabe aos humanistas, aos democratas e aos patriotas de hoje aprender a lição eterna do grande mestre espanhol: a guerra pela democracia, a guerra pela justiça social, a guerra pela tolerância e pela soberania nacional somente será ganha se ganharmos também a guerra das narrativas, utilizando, para tal finalidade, todo o potencial dos novos meios de comunicação em massa. Hoje, mais do que nunca, o alerta de Ortega y Gasset é essencial: “El pasado no nos dirá lo que debemos hacer, pero sí lo que deberíamos evitar”.