Noite alta. Ela deitou-se à procura do sono. Já guerreava contra a insônia. Mesmo tendo o domínio de todas as curas, conhecimento das folhas, das raízes e das cascas, Cleobulina não sabia como sanar a sua insônia. Dominava todas as moléstias, menos a sua. Tinha consciência da sua importância à economia; a sua tradição, a sua cultura supera os boticários – um a cada esquina, nas ruas de Maceió. Não menos do que de repente, as lavadeiras em Santana todas viram quando as crianças recolheram estrelas, hoje de manhã cedo. Crianças corriam na praia recolhendo na areia estrelas-do-mar. As lavadeiras falavam, diziam às crianças barulhos de ondas. As ondas levaram as crianças aos céus. Vã tentativa em repor cada estrela caída. As lavadeiras eram mães-d’água com as suas mãos de fadas, com as suas vozes mágicas de cantar dá-dá-dá-dá Dadaísmo. Vão lavadeiras, vão, tomam o seu destino com as mãos, elas calçam as ruas com os seus pés descalços, multiplicam, lavadeiras, o que há de realismo mágico, luar sobre o rio fantasmagórico e imagético e utópico de cantar dá-dá-dá-dá Dadaísmo. E essas lavadeiras ambulantes, lavadeiras que andam por ruas em Santana, lavadeiras a domicílio, lavadeiras perguntando, lavadeiras de casa em casa querendo saber se tem roupa pra lavar de cantar dá-dá-dá-dá Dadaísmo. O capital intelectual das lavadeiras é o seu sorriso distribuído. Lavadeiras de domicílio em domicílio de cantar dá-dá-dá-dá Dadaísmo. Olhares das lavadeiras na cidade são olhares cheios de esperanças e roupas molhadas de cantar dá-dá-dá-dá Dadaísmo. As lavadeiras de Santana têm o coração pio e as orações criam asas, ganham as suas orações o espaço cósmico atingindo a torre no templo sagrado de Santana. Cantam e dançam as lavadeiras descendo as ladeiras de Santana neste seu interminável Carnaval, elas cantam dá-dá-dá-dá Dadaísmo. A boca das lavadeiras em Santana possuem palavras mágicas e sopram ruas em dias de feira de cantar dá-dá-dá-dá Dadaísmo. Ladeiras, só há em Santana ladeiras. Vão lavadeiras dedicadas ao salário de quarar em pedras, em grandes lajedos cobres, lajedos pratas. Roupas a pleno estio. Lavadeiras, lavadeiras, esperem por Cleobulina Lavadeira. Vão, lavadeiras. Lavam, quaram, cantam dá-dá-dá-dá Dadaísmo. Nas mãos, sabão em ritmo de corpos esguios de cantar dá-dá-dá-dá Dadaísmo. A casa das lavadeiras são as nuvens, onde elas conversam com o sol de cantar dá-dá-dá-dá Dadaísmo. O rio das lavadeiras está outra vez cheio, o rio está outra vez seco. Como pode alguém beber tanto perfume, Cleobulina, beber em cachoeira e deixar o corpo mole e tonto e não se embriagar, assim cantam as lavadeiras o canto dá-dá-dá-dá Dadaísmo. Sob o sol a cantar dá-dá-dá-dá Dadaísmo. Lava, Cleobulina Lavadeira. Cada silêncio na cidade surge e desaparece nas vozes das lavadeiras dá-dá-dá-dá Dadaísmo. A única boca amada é a boca das lavadeiras. Quantas nuvens escritas nas linhas do céu cantam dá-dá-dá-dá Dadaísmo. As lavadeiras descem as ladeiras de pedras, as ladeiras de chão batido, os buracos de formigas. Cantam lavadeiras dá-dá-dá-dá Dadaísmo. O Rio Panema numa dimensão de silêncio inesperado. Unem-se vozes ao dá-dá-dá-dá Dadaísmo. São quantas roupas, quantas piabas nas redes, Cleobulina Lavadeira. Surgem, dessurgem. O vento leva porque leves bailam as lavadeiras, que cantam dá-dá-dá-dá Dadaísmo. Cleobulina Lavadeira toma fôlego num último suspiro náufrago. Próximo fardo de roupa suja explode diante das lavadeiras. Tudo silencia na boca amada das lavadeiras a cantar dá-dá-dá-dá Dadaísmo. Tomba a tarde, Santana, em cores de sol findo nesta parte longínqua e ignorada nas águas. Correm as águas numa corredeira forte como se sentisse sede de correr no embalo de dá-dá-dá-dá Dadaísmo. Das altas nuvens, em ziguezagues constantes e alucinados, sem respeito às pedras e aos precipícios, as águas enferrujadas fogem da própria tarde, que morre a luz substituída; escurece sob o céu azul. Nuvens mammatus do alto acompanham as águas loucas que correm desesperadas. Adiante, as margens serenas só por alguns instantes; logo as águas tomam impulso desenvolvendo velocidade feito vida, esta mal começa e, subitamente, termina o canto das lavadeiras dá-dá-dá-dá Dadaísmo. Promete a água devolver vida à vida ávida, porque da água a vida surge plenamente no cantar dá-dá-dá-dá Dadaísmo. Importante é ser feliz, cantam as lavadeiras dá-dá-dá-dá Dadaísmo, cantam enquanto lavam roupa de ganho, no Panema, pois nada existe senão felicidade; hoje, Cleobulina, tudo se justifica, felicidade, justificam-se os dias e a vida. Felicidade no alimento e nas mãos sobre o sabão. Corria a embolada. Correm as espumas na capa da água. A felicidade, no batuque dos tambores dá-dá-dá-dá Dadaísmo, solfeja, outra vez solfeja, as lavadeiras na festa da felicidade no trabalho de lavar. Era o Rei do Congado. Hoje, nas ruas, felicidade, felicidade no sol nas nuvens, felicidade nas folhas tísicas das árvores, felicidade neste canto dá-dá-dá-dá Dadaísmo, após este silêncio de escuro e dúvidas. Silêncio, silêncio, pedem as lavadeiras silêncio nas águas do Panema. As águas corriam na velocidade do maracatu. Os livros dormentes dormiam entre as gôndolas, na velha biblioteca. Silêncio. Deixa o bichinho dormir o seu sono de gente. Silêncio. E explodem as lavadeiras dá-dá-dá-dá Dadaísmo. A vida por ser tão fundamental, ser tão necessária, ser tão acolhedora, ser tão imprevisível, ser tão ensolarada, feito vida no sertão cantam as lavadeiras dá-dá-dá-dá Dadaísmo ser tão agradecido o canto dá-dá-dá-dá Dadaísmo. Sobem, sobem, sobem as ladeiras em Santana com fardos de roupa suspensos, equilibrados na cabeça. Quando amanhece, descem, descem, descem as lavadeiras com os seus fardos de roupa suja equilibrados na cabeça. Ainda assim, cantam as lavadeiras a caminho das águas dá-dá-dá-dá Dadaísmo. E ainda é cedo, o canto do galo sequer acendeu o canto da manhã, e a manhã amanhece. Levanta-se, Cleobulina! a voz insiste. É hora de lavar a roupa suja, é hora de ir à Feira do Passarinho. Maceió é bem ali. Santana é bem pertinho. Veja, Cleobulina, ali é o oceano que trouxe o povo africano ao porto. Lembra-se, Cleobulina, que hoje é domingo? Ouça o sino. Ouça. Pacatão não para de dobrar o sino. Ontem, Cleobulina, foi sábado de feira. Lembra às vezes nas quais se cura, às vezes em que também se adoece? Deve haver algo nas ruas escuras, algo que acorde Santana; e amanheceu feito a linha que salva o herói de Creta. Vai, Cleobulina! Deixa de ser preguiçosa, menina mal-ouvida. As lavadeiras já desceram, nessa hora, as ladeiras ao Panema. Lá na frente, veja, é a sua amiga Ariadne, que morreu afogada. Adriadne sacrificou-se pelo amor, Cleobulina. Já se sacrificou Medeia e também Julieta sacrificou o seu sorriso, e a sua amiga Esmeralda deseja sacrificá-lo por Quasímodo, como Dulcineia. Desde cedo em Santana as lavadeiras descem as ladeiras, Cleobulina. Ó, ó Cleo, se hoje fosse enumerar todos sem sorte, às vezes em que de amor se adoece todas as noites, no mundo não caberiam as noites do universo. Esta vida, Cleobulina, era uma mosca de cozinha num canto de parede. Junte-se às carpideiras, Cleobulina. A mosca estava morta. Talvez, Cleobulina, houvesse outra vida após estas serras que cercam Santana cheia de olhares brancos de pedras altas. Esta vida que existiu na mosca, Cleobulina, já não importa. Não foi uma estrela cadente que caiu, Cleobulina. Foi o suicídio de um cometa. Não cometa o verbo o que o cometa comete com o substantivo. Não vá perder a prova da língua, a professora marcou a prova. Era a toada. E o aboio do vaqueiro cobre Santana de augúrios. Dobra o sino blam!blem!blim!blom!blum! Esta hora, o grupo escolar, com unhas de fazer inveja ao Conde Passapano, espera com uma prova do tamanho de um fardo de roupa suja, Cleobulina. O Panema tem água. Aproveita, Cleobulina, aproveita a água, mulher. Lava, lava, lava. Abre essas pernas grossas, deixa a água correr por sobre as pedras. A mosca de banheiro morreu. Estar mora no infinitivo pessoal junto à palmatória. Está ouvindo? Mais. Régua nas costas, no corpinho tênue beliscão, puxavante de cabelo. A prova, Cleobulina, a prova de língua. Quieta está a morte morta, mostre. Ela deve estar no mundo da rua. Deve estar. Está ouvindo? Esta menina não tem mais jeito. Ela não quer estudar. Não sabe tabuada, ignora greamática. Nunca abriu um caderno, nunca quis. Irei falar com a minha comadre Xântipe. Esta filha dela não tem conserto; vai lavar roupa no Panema o resto da vida. Veja, Cleobulina, em torno da morte velavam insetos, formigas muitas e bem curiosas. Foi decidido, hoje, Cleobulina, a morte da mosca. O que daria a morte à morte? Veja, Cleobulina, o merecido e respeitável conforto. As formigas estavam fartas da fome, e fizeram da morte o seu almoço. Morte e vida dos insetos pareciam independentes da crença que havia vida, nas promessas do padre Velho, além das serras que cobrem Santana de sombras. Cleobulina, toda morte merece penitência. Desde as cavernas, Cleobulina, sua herege, sua pecadora, sua desgraçada, sua infame, sua mentirosa, sua, sua, as religiões sempre estiveram aqui, sua... O Panema tem água, Cleobulina. Leve já a roupa suja. Lave já, Cleobulina! Ouça as lavadeiras, elas já começaram a cantar o canto dá-dá-dá-dá Dadaísmo. Nas ladeiras, Cleobulina, trôpega, fina, equilibra-se com o peso do fardo de roupa na cabeça. Anda, menina! a voz da mãe Xântipe. Corre, corra, Cleobulina. Bênção, padre Velho. Louvado seja o Senhor, cantam as lavadeiras em Santana, louvado seja o Senhor, que faz o céu e a lua. Demonstrou ao Senhor o seu amor pelas pessoas nas águas. Louvado, cantavam as lavadeiras, seja a Senhora. Nada melhor nessa vida que honrar pai e mãe. A todos estendemos as mãos. A vida é mesmo querida. Andamos na multidão de lavadeiras, ladeiras abaixo, ladeiras acima em meio a essa floresta de pedras e vidro quebrado. Que houve, Cleobulina? O vidro cortou o pé dela agora, agorinha mesmo. Amarre este pano no pé. Todos dias, agradecemos ao pão e por esta vida vibramos. Louvado seja o Senhor, que faz o céu e a água demonstrando o seu amor pelas pessoas que ganham a vida lavando roupas nas pedras do Panema. Limpe este sangue, Cleobulina. Cleobulina, pare de chorar. Limpe, limpe já esta cara suja; não é mais criança. Estou, bem aqui, eternamente ao seu lado. O amor é uma luminosidade plena nesta luz de hoje, e ele dispara o coração em alegria. Só o amor, Cleobulina, pode colorir o mundo. Apague este choro desta cara, menina. O amor colore as manhãs de chuva, colore tardes ensolaradas, colore as folhas nas árvores. Adeus ao amor, adeus. E por hora me despeço. Amor não é somente palavras. E cantam, outra vez, as lavadeiras enquanto lavam roupas, prenhas no canto dá-dá-dá-dá Dadaísmo. Nas ruas não existe carniça, apenas caniços na fonética do canto de cantar dá-dá-dá-dá Dadaísmo. Agitadas ao vento, as águas correm ao Rio São Francisco. Dona Filó, bom dia. Já vai trabaiá, mia fia? Já. Dona Filó, hoje é um dia de água e de sol. Com a linguagem cotidiana, como se festejava Zabumba, Filó tocava bumbo nas ruas de Santana. Reisado celebrava o nascimento de seu Menino. Bumba Meu Boi era o que, Filó? Viva a Festa de Reis! Pelo deserto, no trajeto dos sábios, a Cavalhada de Magno e os 12 Pares de França. Dona Filó, hoje é um dia de chuva. Não, mia fia! Caboclinho era brincadeira de brincantes com arco e flechas, Cleobulina. Guerreiro era o olhar rasgado, folguedo alagoano brincava dançando. Pastoril animando o sertão no presépio natalino. Cleobulina, vai menina, vai dançar, vai cantar dá-dá-dá-dá Dadaísmo. Veja, Quilombo com a sua dança feliz. É o Coco alagoano, este aí, Cleobulina. Não conhecia? Vai, menina sapatear; cante o canto de umbigadas. É hora da Chegança. Vá. Dance. Menina, dance a dança das conquistas. Os sotaques e os sabores, nos becos das feiras. Sob o sol do cotidiano, nas ladeiras de Santana. A cidade falava com palavras moribundas. Morta está a mosca, Cleobulina. A mosca dorme o sono da morte. A cidade demonstra ser normal a sua norma dá-dá-dá-dá Dadaísmo. Com estrofes que anularam o andar da lavadeira. A sua elegância nas ladeiras ignoradas. Cleobulina era uma pintura. Vê-la lavando, Cleobulina, roupas de ganho, Cleobulina, era uma pintura. Vê-la no Panema era uma aquarela. Vendo-a chegar em sala de aula, no grupo escolar, no dia da prova de língua, com a trouxa de roupa na cabeça de sol. Os seus pés, Cleobulina, nus nos caminhos de espinhos. Dizia, Cleobulina, a sua professora, que o Barroco era abarrocado. E possuía alambiques a mancheias. Como se o Barroco não fosse verbal. Qual fim do carnaval de um trôpego! Cada ébrio imprimia o estilo prolixo. Na garrafa de cachaça pomposa, o bêbado bebia expressões, vomitava tédio. As imagens ridículas e confusas. Cleobulina, o bêbado, com pretensão, dizia compreendido. Se rebuscasse afetação à exaustão? E se se sentisse segura na imagem do dia. Nos paradoxos e nos jogos mentais, o dia cobria Santana de luz amarela e canto de lavadeira. Barroco súbito entrava rápido em parafuso. Veja-o. O bêbado com piruetas abundantes e abissais. Nas paredes do grupo escolar, vejam Cleobulina e Pragmática, nasceram, hoje cedo, Os Girassóis de Van Gogh, As Senhoritas d’Avignon. Os folguedos alagoanos, hoje, se soltaram dos muros das casas. O universo, Cleobulina, é um orquidário.
Cleobulina começou a se mexer.
Acordou.
Era meia-noite passada.
Perdeu o sono.
Olhou os caibros, no quarto.
Ouviu o silêncio em casa.
Um galo cantou, e cantou outro galo na escuridão de Maceió. Cleobulina parou. Como se procurasse o que não perdeu. Ela olhou a escuridão de maneira demorada. Falou no orquidário, como se estivesse noutro ciclo de sono. E ouviu os folguedos, e viu o orquidário, e via a Feira do Passarinho, o Teatro Deodoro, o povo na feira, a voz do povo aumentava na cabeça de Cleobulina igual a fogo sob a panela de feijão. Cleobulina, a efemeridade da flor, um estrangeiro de olho rasgado disse, no palco do teatro, um ator falou haicai ao unir versos Bashô. O circo na cidade: Santana em festa. Era a atração de ontem, vista trasanteontem, disse Cleobulina a caminho de casa. Não vai à escola? Esta gente que não vai à escola se transforma em ornitorrinco. Cleobulina pergunta o que é ornitorrinco. Como um substantivo tem tamanha ousadia em inventar a palavra ornitorrinco? O substantivo é mesmo um sem-vergonha! ornitorrinco? Valei-me! Cleobulina, corra menina, levante-se; é hora da prova. Esta criatura não respeita a régua. Ela perdeu a fé na palmatória. Vai levantar-se ou não vai, Cleobulina? A menina, em Santana, viu a sua inseparável amiga Pragmática. Agora, sob a lona cheia de furos pelos quais vazavam a lua e as estrelas, no circo escuro e fedorento. Voltava Cleobulina da Feira do Passarinho, vencia as ruas deterioradas, as ruas cobertas de lixo, entulhos de casas, os becos com miados, latidos, as cercas de arame farpado com mugidos. Boa tarde! era o senhor de vasto bigode e cabelo repartido; amarrava, numa calçada alta, os cadarços dos sapatos. Cleobulina, intrigada, retribuiu-lhe boa tarde. O senhor, disse em seguida, era o professor Saussure? Sim, sou! ela sorriu; ele correspondeu. Cleobulina viu nele surgirem os dentes sob a quantidade de cabelo embaixo do nariz. Seguiu em direção à sua casa, e dizia a si que o senhor Saussure tinha dentes, além de cabelo. Conversou pouco sobre isto, porque à frente, lembranças, atrás, lembranças, ao lado direito, lembranças, ao lado esquerdo, lembranças. Cleobulina ganhou a velhice com penitências severas. Temia o fogo eterno. O suplício teve início no dia em que levou à sua casa aquele chamado Cético. Ele era o próprio demônio em figura de gente. Cleobulina ficava em brasa cada vez que ele se aproximava dela. A primeira experiência de Cleobulina com a cidade grande, recém-chegada do sertão, foi ter encontrado o recém-nascido no lixo. Esta imagem permaneceria com ela por toda a vida. Quis amenizar as cores fortes no bebê, porém o choro agudo e persistente jamais lhe deixou a cabeça. Ainda sentia o cheiro, depois de todos estes anos. Ela recebeu da Ordem das Carmelitas Descalças um cordão bento. Sempre que era atormentada pelas lembranças da criança num embrulho de panos sujos e molhados num líquido vermelho escurecido, autoflagelava-se. Todos dias que lhe vinha esta imagem do sangue no embrulho sujo, batia com o cordão nas costas por sentir-se culpada pelos pecados do mundo. Fechava os olhos e via se mexer em trapos fedorentos aquela criatura sem pecado. Via-se deixando o beco. Não se esqueceu de ter procurado em vão uma alma samaritana, como se diz em sua terra maternal. Foi no Orfanato São Domingos que entregou aquele pacote, sem suportar o peso da angústia. O porteiro, no orfanato, repetia horror, horror... Ela ouvia na cama, no quarto sem luz, a voz do porteiro dizer horror, horror, como repetiu Conrad. As palavras dele nunca mais a deixara sossegada; o desassossego sempre a perseguia com as palavras que ouviu depois de ter enfrentando todos os degraus, no Orfanato São Domingos. Deixou o choro da criança nos braços do porteiro, e nunca mais o viu nem ouviu o apelo daquele recém-nascido; mesmo quando trabalhou lavando a roupa do Orfanato São Domingos. Mas, quando ficava sozinha à noite, e quase sempre, metia-se no balaio das lembranças e por pouco não morria. Cada noite, ultimamente, estava sendo difícil atravessá-la. Ela criou Cético como um filho. E onde Cético estava esta hora? Só Deus! Dizem que estava em Paris, onde fazia cinema e teatro. Aquele demônio sedutor! Com a aproximação de Cético, Cleobulina era tomada por um fogo eterno. O fogo iniciava-se no dedão do pé e percorria todos os poros. Os olhos verdes faiscavam em Cleobulina. Nada podia fazer senão experimentar aquela sensação raramente experienciada, tão inesquecível. Vinha do terço o poder de afastar Cleobulina do fogo eterno. O terço e os joelhos, que ficavam em carne viva. Resistia, e ela resistiu. Sabia o balanço que balançava na corda bamba, balançou no arame retrasado no alto da lona furada dos circos que passavam em Santana. E, quando desgrudava os joelhos plantados em terra, pegava o cordão bento, recebido das mãos pias de uma das irmãzinhas da Ordem das Carmelitas, e benzia as próprias costas, e só encerrava a sessão ao senti-la latanhar, e ver escarlate o cordão branco tingido a ponto de escrever a letra como escreveu Hawthorne. Cleobulina era de ler tudo o que lhe caía sob os olhos desde a primeira vez em que lhe caiu o soletrar das primeiras letras. Primeiro, as vogais; depois, as consoantes. Juntasse o bê com -a, agora. Letras deitadas, letras em pé. Letrinhas, letrões. Escreva em letra cursiva, menina! Não sei, professora. Assim. Assim? Preste atenção. Assim? mordia a língua, esta fora da boca. Assim, professora? Sim. Letrinha, letrão. Assim? Assim. Eu não sabia ler, professora. Não sabia sequer escrever o meu nome. Mas sabia falar português? Sabia. Como pode isso, professora? Era a sua Gramática que falava por você. Eu tinha uma Gramática, professora. Tinha. Não sabia! Porque ela era internalizada. Era o hábito da leitura, sob os verdes olhos de Cleobulina, que girava, girava. Vá, vai vender, lá na feira, Cleobulina. Esta hora, menina, a tua mãe tá sozinha, na feira. Costumava aparecer gente na feira, sem dinheiro, que trocava livros velhos por tempero verde, chás e outras vendas, na banca, na Feira do Passarinho. Ela via pingar sangue do cordão santo recebido das irmãzinhas. Ele lembrava a letra, recém-lida, escrita por Hawthorne. Era a simulação, a legítima amiga de Cleobulina, com ela se deitava, logo se levantava. Eu tirei esse menino das ruas, senão ele virava cachaceiro! repetia como se fosse refrão e, assim, ficava convencida de que não foi a lascívia que o trouxe a viver sob o seu teto, e evitava o caminho da perdição.
Cleobulina girou. Mexeu.
Não conseguia reencontrar o sono.
Deus tome conta! praguejou. Privilégios? Deus tome conta!
Por instantes breves, Cleobulina deve ter-se pegado ao sono, pois, após uma porta iluminada, ouviu:
Era inexplicavelmente inefável. Vai, professor de História, vai historiar as emoções do mundo; vai aos prédios históricos onde a História se encontra sob os escombros. Vai, professor de História, às bibliotecas onde dormem os livros de História. Vai, professor de História, por estes caminhos onde a história é escrita entre as ruas antigas, que acessam às novas. Vai, professor de História, mostrar como a História é escrita.
É falso tudo o que o sonho revela.
Era a amiga de infância, Pragmática, com a sua voz que falava pelo nariz. Ela falava como se nada falasse. Era a maneira séria de dizer nada.
Pragmática andava ao contrário. Esta menina nasceu ao embate, disse D. Xântipe diante do seu prato de cuscuz com leite, esta sertaneja nasceu ao conflito. Pragmática, desde menina, aludia. Nunca substantivou nada. A prova, Cleobulina, a prova! avisava a amiga Pragmática. Esqueceu, foi? Esqueceu. Deixasse a substantivação à gramática. Pragmática era incompleta por natureza sertaneja.
Os sonhos eram caminhos para cidades invisíveis! disse Pragmática numa explosão de gargalhada de Cleobulina. Havia um abismo e uma escuridão como uma boca aberta à espera de alimento.
Era mês de milho. D. Xântipe ralava as espigas verdes, falava em cuscuz; o marceneiro de muletas, marido dela, em pamonha. Numa tarde mormacenta, as amigas Cleobulina e Pragmática deixavam o grupo escolar:
Salvo, disse Cleobulina, é um advérbio.
Advérbio?! riu Pragmática da classificação gramatical de Cleobulina.
Sim, insistiu Cleobulina, de exclusão.
Salvo, corrigiu Pragmática, é preposição.
Salvo, voltou Cleobulina, é particípio irregular de um verbo: salvar.
Salvo, atalhou Pragmática, é um adjetivo.
Desceram as amigas de infância uma das ladeiras de Santana discutindo as funções gramaticais onde salvo encontrasse a sua cama definitiva. Por que a Gramática tortura tanto? Fosse estudar Linguística. Melhor, estudasse Literatura e a sua polissemia. No grupo escolar, a D. Gramática mandava e desmandava, reprovava qualquer um; era só olhar de cara feia, estava condenado a repetir de ano.
Dona Gramática saiu, navegou da Magna Grécia até Santana. Ela veio de lá, ali, pelo séc. V a. C., e já existia há séculos. Caiu na cabeça do grupo escolar, chegou à mão da professora. Saía a professora que carregava uma gramática a tiracolo, entrava o professor, com a palmatória e a tabulada. Oito vezes cinco? a sala em silêncio. Oito vezes cinco? os olhos dos alunos nas janelas. Oito vezes cinco? os dedos mexiam nos cadernos. Oito vezes cinco? os pés balançavam sobre a xoboi. Oito vezes cinco, magote de corno! eram túmulos em um cemitério de corpos abandonados. Oito vezes cinco? Saberá o resultado, aos 40.
Preposição!
Advérbio! disse Pragmática.
Adjetivo!
Cleobulina e Pragmática subiam ladeiras. Passavam na frente do templo de Santana.
Salvo é uma oração infinitiva! disse Pragmática.
Não, não, não! discordou Cleobulina. Salvo é um sintagma nominal.
Não, senhora! protestou. Salvo é um sintagma preposicional.
Salvo é um sujeito.
Salvo é um predicativo do sujeito.
Não envolva a sintaxe, amiga, com as classes gramaticais.
Uma vida sem tradição caminha nas trevas, frisava o padre Velho em suas homilias. Cleobulina, obrigada pelos pais a ir ao templo de Santana, não perdia uma noite de novena.
Na cidade epistolar, os filhos, mesmo longe dos pais, mantêm o respeito, e seguem a cultura, e obedecem à tradição. Aqui, disse o padre Velho, os filhos têm pai e mãe, tem avô e avó. Só a tradição ilumina o caminho. Até hoje, eu não vi um filho ter sorte ao ser criado sozinho! Vão em paz...! dobrava o sino ao meio-dia ...E o Senhor nos acompanhe.
A noite parecia eterna. Escuridão completa. Cleobulina cruzava os braços, descruzou. Era uma realidade paralela às noites, quando conseguia abraçar com toda a força, e não soltar, o sono, esta divindade pré-histórica. Cleobulina visitava raros lugares nunca antes visitados, e revisita os lugares comuns que os conhecia desde a infância.
No tempo das lagartas de fogo no sertão alagoano tudo era uma vez em incerta manhã quando, finalmente, veio um redemoinho e o povo na cidade viu que a poeira de vento era provocada pelas dezenas de caminhões do circo. O pé-de-vento varria as lagartas de fogo.
No tempo empoeirado e coberto por teias de aranha, no qual o aluno era disciplinado, nos primeiros anos de educação formal, por beliscões, reguadas, maus-tratos ajoelhando-o em grãos de milho e cheirando a porta na sala de aula, cocorotes, puxões de orelhas e a língua lavada com sabão, se o circo tomasse veloz a rodagem que o levava de Palmeira a Santana, logo os saltimbancos embrenharam-se por sertões alagoanos. Alunos de primário matriculados no grupo tomavam fôlego. Outra vez respirava o aluno aliviado. Chegava o circo em Santana ahêêêêê! as crianças gritavam. Eles, alunos deixavam de ser, voltavam à vida de criança; e, outra vez, as crianças eram pré-alunos.
Cada bairro em Santana coalhada de bodegas e pequenos comércios, as pequenas casas da fé, os pequenos sapateiros, os pequenos alfaiates, algumas professoras vendiam aulas particulares. No centro, próximo à praça, próximo ao templo de Santana, em cartaz, no cinema, “Dio, come ti amo!” Gigliola era a atriz que fazia o papel da atleta, que não apenas competia em piscinas olímpicas, também competia com a melhor amiga quando se apaixonou por seu noivo.
Corriam Cleobulina e Pragmática. Outras crianças corriam deixando o grupo escolar.
O circo em Santana trazia pequenas peças dramatúrgicas. Um drama era apresentado a cada noite.
As crianças felizes porque sabiam que os pais felizes não perdiam dramas apresentados nos circos, como não perdiam os dramas na telona do cinema.
E o circo que chegou à cidade anunciou que havia girado o mundo várias vezes. Estava em Santana numa brevíssima temporada.
A criança intuía que os pais queriam ver dramas e palhaçadas, no circo. Eles a levariam, eles comprariam pipoca, algodão-doce.
Famílias nas arquibancadas feitas com tábuas sob a lona e o calor, outras em cadeiras no gargarejo. No picadeiro, as apresentações e, no poleiro, crianças e os pais riam dos atrapalhos do trabalho dos palhaços. Os pais sofriam com os dramas, as crianças não os entendiam.
Desfilava o comboio, nas ruas de Santana. Camas elásticas e trapezistas com cambalhotas. As jovens mulheres, vestidas de encantamento, equilibravam-se em arame. Palhaços à frente agitavam. Artistas de maiô faziam acrobacias. Arrastavam-se as jaulas com animais trazidos de toda a parte do mundo.
E, quando chegasse àquela noite de estreia, durante as fases do sono, os velhos seriam atropelados pelo encantamento feminino, pela sedução circense. E as crianças apavoradas pelas feras que fugiam das jaulas e atacavam o sono das crianças. Adultos embalados pela arte de maiô que surgiam extravagantes em sonhos extravagantes nos quais os adultos queriam permanecer sonhando.
Um dia – a cada dia mais próximo – crianças rogavam aos pais que esse dia não chegasse. O circo estava indo, despedia-se de Santana. Voltava o circo à rodagem rumo ao miolo do semiárido, entre os cajueiros, os umbuzeiros, os xiquexiques e os mandacarus.
A cidade ouvia a música dos tambores, os pífanos agitados. O comboio tomava outro destino. As jaulas, os mágicos, os artistas de maiô, os trapezistas, os palhaços, as jaulas com as feras capturadas em florestas africanas, regiões congeladas asiáticas, lentos e cantantes, batucavam rumo à outra praça.
Se a escola fosse alegre como o circo, mas a escola não possuía a gaia ciência; antes, a escola possuía a triste ciência. O aluno era educado com os métodos coercitivos da pedagogia do medo e a didática do castigo. Medo de não aprender, tomado pelo pânico de que a sua não-aprendizagem fosse revelada pelas classes gramaticais trocadas, pela discriminação de frases, de períodos e de orações, pelo preconceito linguístico. Terror ao ser denunciada pelas provas, avaliações persecutórias.
Na fantasia do circo foram abolidos os beliscões, as reguadas, os maus-tratos aos alunos. Pelas leis do circo decretou-se o fim dos castigar ao aluno ajoelhando-o em grãos de milho e cheirando a porta da sala, cocorotes, puxões de orelhas e a língua lavada com sabão.
Aulas que oprimiam muitos e exultavam e exaltavam poucos. Muitos sem privilégios, matriculados na escola por capricho do acaso. Gemia a nota de um pífano distante, a nota gemia, ela acelerava, ia ao dó sustenido. Poucos, com as bênçãos do privilégio, eram perdoados pelos olhos que se fechavam às suas brincadeiras durante a aula; e estes mesmos olhos tão atentos aqueles alunos fora dos privilégios. Na fantasia do circo, todos os alunos libertados dos beliscões no braço mirradinho por onde corria a fita de sangue na caneta do braço; todos, na fantasia do circo, libertados das reguadas, libertados dos bolos trazidos pela palmatória, libertados dos cocorotes, dos puxões de orelhas e a língua não era nunca mais lavada com sabão bruto.
O circo anunciava, nas ruas de Santana, ter passado a sua primeira temporada no sul do continente africano. Saiu da Cidade do Cabo e rumou direto a Botsuana, e de Botsuana à Zâmbia, de Zâmbia à Tanzânia, de Tanzânia ao Sudão do Sul e do Sudão do Sul seguiu o circo com artistas de maiô, mágicos, palhaços, trapezistas, dançarinas, malabaristas, animais amestrados pela África central. Atravessou o Sudão e chegou ao Egito.
O trompetista marcava o compasso.
Depois de passar por todos os países, o circo seguiu viagem ao Oriente Médio, atravessou os desertos do Iraque, e do Iraque ao Cazaquistão, no centro da Ásia, e do Cazaquistão à Mongólia e da Mongólia chegou o circo em Magadão no extremo do continente asiático. Viajou o circo levando a fantasia na estrada mais longa do mundo.
Alto-falantes lideravam o comboio que percorria as ruas de Santana.
O maior espetáculo da Terra circulou o mundo, atravessou Santana, e foi ouvido de casa em casa. Ele atravessou pontes, desertos, rios imensos, mares, oceanos, regiões geladas, por 22.387 km, e os artistas mostravam a sua arte em meia dúzia de fusos horários diferentes.
Ele atravessou as quatro estações. Percorreu 17 países. Era o caminho das ruas de Santana. Crianças acompanham com ahêêêêêêê!
Aproveitassem, santanenses, a fantasia. Tudo era breve nesta vida.
Aconteceu naquela época, quando o circo desarmou a lona e carregou os carros com os animais, arquibancadas. As moças, sob o olhar de Cleobulina, na despedida do circo, perceberam que surgia um volume nas suas costas; e este tomou forma nova e, quando o circo se foi, algumas moças levantaram os seus braços acenando aos artistas. Elas descobriram que também tinham asas como asas leves de borboletas; e podiam voar, e voaram como leves borboletas.