Feliz ano novo! Feliz vida nova?
Será que a felicidade está mesmo no próximo gadget, na próxima viagem, no próximo “like”? Ou será que estamos apenas correndo em uma esteira, exaustos, sem nunca chegar a lugar algum?
Publicado 20/12/2025 10:50
Créditos: depositphotos.com / rdonarEntra ano e sai ano, e o ritual se repete: “Ano novo, vida nova”. Uma frase que, embora carregada de esperança, muitas vezes nos aprisiona em um ciclo de recomeços. É como se nossas vidas fossem um software que reiniciamos a cada 365 dias, apertando o “reset” na esperança de que, desta vez, os bugs desapareçam. Vivemos em um eterno looping, uma sucessão de anos estanques, desconectados uns dos outros. Essa mentalidade nos condena ao imediatismo, a uma busca incessante por gratificação instantânea, negando a própria essência da jornada humana, que se constrói no acúmulo de experiências e na semeadura paciente do futuro.
Não somos máquinas que podem ser desligadas e reiniciadas para uma nova tarefa, esquecendo o que foi feito antes. Somos seres humanos, com sonhos, desejos e uma capacidade incrível de aprender e evoluir. É na jornada, na tentativa e erro, que acumulamos os valores e as experiências que nos moldam. E a beleza disso é que, mesmo quando erramos, sempre temos a chance de mudar, de recalcular a rota, de nos tornarmos versões melhores de nós mesmos.
A cada final de ano, as promessas se renovam: “no próximo ano vou ganhar mais dinheiro”, “esse ano compro meu carro”, “vou finalmente fazer aquela viagem”. A lista de desejos materiais é infinita, alimentada por uma cultura que nos bombardeia com imagens de sucesso e felicidade atreladas ao consumo. As redes sociais, com seus feeds perfeitamente curados, intensificam essa pressão, nos fazendo sentir que estamos sempre um passo atrás, que nossa vida não é tão interessante ou bem-sucedida quanto a dos outros.
É preciso questionar essa lógica. Será que a felicidade está mesmo no próximo gadget, na próxima viagem, no próximo “like”? Ou será que estamos apenas correndo em uma esteira, exaustos, sem nunca chegar a lugar algum? A busca incessante por “ter” nos afasta do “ser”. Esquecemos de cultivar o que realmente importa: a solidariedade, o amor, a amizade, a nossa conexão com os outros e com o mundo.
É aqui que a metáfora de plantar para colher ganha uma força transformadora. Tanto na vida pessoal quanto na política, os frutos mais valiosos não surgem do dia para a noite. Eles exigem paciência, cuidado e, acima de tudo, uma visão estratégica de longo prazo. Em vez de resoluções de ano novo que se perdem em fevereiro, precisamos de um projeto de vida e de sociedade que nos guie.
Na política, a ausência dessa visão estratégica nos condena a um ciclo vicioso de crises, onde apagamos incêndios sem nunca construir as bases de um futuro mais justo. A verdadeira transformação social não acontece em um único mandato ou em uma única eleição. Ela é o resultado de um trabalho contínuo de formação política, organização popular e elevação da consciência social. É preciso plantar as sementes da mudança hoje, sabendo que a colheita pode levar anos, ou até mesmo gerações.
Isso significa investir na educação, fortalecer os movimentos sociais, construir alternativas econômicas solidárias e ocupar os espaços de poder com um projeto claro de país. Significa entender que cada pequena vitória, cada avanço, é um passo em uma longa caminhada. É a paciência histórica de quem sabe que está construindo algo duradouro.
Então, neste novo ciclo que se inicia, que tal um convite à reflexão? Em vez de apenas listar metas de consumo, que tal elaborar um projeto de vida que seja também um projeto de mundo? Um projeto que vá além do material, que dê um sentido maior à sua existência. Pense em como você pode contribuir para um mundo melhor, para uma sociedade mais justa e solidária. A nossa felicidade só é plena quando compartilhada, quando as pessoas ao nosso redor também estão felizes.
Analise sua trajetória. Olhe para os últimos anos e veja o que você aprendeu, como evoluiu. O que te trouxe alegria? O que te fez sentir vivo? O que você gostaria de mudar? A vida não é uma linha reta, é um processo de construção contínuo. Estamos sempre aprendendo, nos transformando.
A cultura do consumismo e do egoísmo nos adoece. Ela nos vende a ilusão de que a felicidade pode ser comprada, embalada e entregue na nossa porta. Mas a verdade é que a satisfação que vem do consumo é efêmera. Logo após a conquista, o vazio retorna, e a busca recomeça. É hora de romper com essa lógica. De resgatar valores que nos humanizam, que nos conectam uns aos outros.
Quando temos um projeto de vida, um propósito que nos guia, as “coisas” perdem o seu poder sobre nós. Elas se tornam ferramentas, e não o objetivo final. Podemos até não alcançar todas as nossas metas de imediato, mas estaremos sempre em movimento, acumulando forças e aprendendo no caminho. E se esse projeto for coletivo, se estivermos caminhando ao lado de outras pessoas que compartilham dos mesmos valores, a jornada se torna mais leve e significativa.
Por isso, ao final deste ano, não aperte o “reset”. Não tente “zerar a vida”. A vida não pode ser zerada. Continue de onde você parou. Honre a sua história, as suas cicatrizes, as suas conquistas. Dê um sentido para a sua vida e lute por ele, individual e coletivamente.
Feliz ano novo. Ou melhor: FELIZ VISÃO DE VIDA NOVA!




