Reflexo do racismo, atraso escolar entre negros é maior na educação básica
Censo Escolar mostra que distorção idade-série caiu, mas ainda é maior entre pretos e pardos. Para dirigente da Unegro-SP, fatores estruturais e históricos explicam disparidade
Publicado 04/03/2026 20:08 | Editado 05/03/2026 16:58

Desde a educação básica até a universidade, o racismo histórico e estrutural brasileiro relega aos estudantes negros desempenho aquém do que poderiam ter se houvesse igualdade de fato no país. Dado recente a mostrar que essa realidade persiste, apesar dos avanços já conquistados, consta do Censo Escolar 2025, recém-divulgado pelo Ministério da Educação.
Conforme os dados colhidos junto às mais de 46 milhões de matrículas nas 178,8 mil escolas de educação básica, houve uma importante queda na taxa de distorção idade-série na rede pública de ensino, o que significa que os alunos estão repetindo menos de ano e estudando mais na série correspondente à sua idade.
Segundo o Censo, o atraso escolar caiu 4,3 ponto percentual no ensino fundamental — de 15,6% para 11,3% — e 10,3 p.p. no médio — de 27,9% para 17,6% na comparação com 2021. Já no terceiro ano do ensino médio, a redução dessa defasagem foi de 27,2%, em 2021, para 14%, em 2025.
No entanto, quando feito o recorte racial desses dados, o MEC aponta que os estudantes negros (pretos e pardos) foram os que mais registraram esse tipo de distorção idade-série, com diferenças bastante significativas em relação aos brancos.
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Nos anos iniciais, a taxa foi de distorção idade-série foi de 4,2% para os brancos contra quase o dobro no caso de pretos e pardos, cujo índice foi de 8%. Praticamente a mesma relação se repete nas demais fases do ensino: 9,2% contra 17,7% nos anos finais e 10,9% a 19,3% no caso do ensino médio.

“Os fatores estruturais e históricos certamente explicam essa maior distorção entre os estudantes negros. São desigualdades acumuladas ao longo de séculos, começando pelo legado da escravidão. Mesmo depois de abolida, o Estado brasileiro de então não promoveu nenhuma política pública para a inclusão dos negros na educação formal e isso atravessou gerações, causando um atraso histórico na escolarização”, explicou, ao portal Vermelho, o professor de ensino médio Davidson Ribeiro, presidente estadual da Unegro em São Paulo e diretor pedagógico do Centro de Estudos 1º de Maio.
Outro elemento importante, também decorrente desse quadro histórico, diz respeito às condições das famílias desses estudantes. “Enquanto as famílias formadas majoritariamente de pretos e pardos obtiverem menor renda familiar, maior exposição à informalidade e maior vulnerabilidade social, os jovens negros acabarão tendo de trabalhar mais cedo, na informalidade, se atrasando no ano escolar e, nos piores casos, deixando os estudos”, pondera.
Nesse sentido, iniciativas como o Pé-de-Meia — que tem o objetivo de reduzir a evasão escolar de jovens socialmente vulneráveis, na faixa dos 14 aos aos 24 anos matriculados no ensino médio regular das redes públicas — é um importante instrumento. Por meio de auxílio financeiro, o programa, iniciado em 2024, busca fazer com que esses jovens possam ajudar suas famílias sem deixar a escola.
Os dados mais recentes do governo federal apontam para cerca de 5,6 milhões de beneficiários do programa, dos quais mais de 70% são pretos e pardos. Na virada daquele ano para 2025, mais de 90% deles passaram de ano.
Falta de apoio e de estrutura
O professor ainda pondera que quando se trata de ensino fundamental, “a distorção ocorre principalmente devido à combinação de falta de apoio pedagógico adequado e escolas com infraestrutura precária, que são mais comuns em regiões de maior vulnerabilidade social, onde há maior concentração de estudantes negros. Esses fatores fazem com que o atraso escolar se acumule, criando um ciclo difícil de romper”.
Mas, para além dessas questões, ele lembra que o racismo estrutural também aparece no ambiente escolar de outras formas: por meio de discriminação, baixa expectativa acadêmica e falta de representatividade, o que desmotiva estudantes negros e aumenta a evasão.
Segundo pesquisa de 2023 do Observatório Fundação Itaú, 54% dos professores da educação básica já presenciaram casos de racismo envolvendo seus estudantes em salas de aula. Nos anos iniciais do ensino fundamental, a taxa foi de 48%; nos anos finais, chegou a 67% e no ensino médio, o índice foi de 47%.
Impactos
O professor Davidson Ribeiro também chamou atenção para os impactos socioeconômicos que as dificuldades educacionais enfrentados pelos jovens negros acarretam.
“Essa defasagem reduz a qualificação da força de trabalho, diminuindo produtividade, inovação e competitividade. Também contribui para empregos informais e de baixa renda, reduzindo a arrecadação e aumentando a dependência de políticas assistenciais. Além disso, amplia a desigualdade social e racial, dificultando a mobilidade social e o desenvolvimento sustentável do país”, argumenta.
Um dado que mostra o quanto a população negra é discriminada no mercado de trabalho está no valor da hora trabalhada: a dos brancos equivale a 67,7% mais que a de pretos e pardos. Enquanto negros recebem R$ 13,70 em média, os brancos ganham R$ 23, segundo dados de 2024 do IBGE.
Para superar as defasagens que desaguam nesse e em outros entraves, Ribeiro defende o combate ao racismo estrutural especialmente na área educacional, “por meio de uma política antirracista para a comunidade escolar de todo o País, além da aplicação efetiva da Lei 10.639 — que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana em escolas públicas e privadas de ensino fundamental e médio no Brasil”.
Também diz que é preciso ampliar os investimentos, por parte especialmente dos governos estaduais e municipais — responsáveis pela maior parte da educação pública — para a melhoria das escolas em regiões vulneráveis, onde está boa parte da população negra, além da formação e valorização de professores. Ele também aponta para a importância de programas de transferência de renda e auxílio escolar, além de serviços de apoio psicológico aos jovens que sofrem com a discriminação.
“Creio que o investimento contínuo por parte do poder público nesses pontos é o caminho a galgar para reverter esse cenário de distorção idade-série, bem como ajudar na superação do racismo”, conclui.




