NA RUA DOS QUEBRAQUEIXOS
CONTOSMarcello Ricardo Almeida 11/05/2026 - 00h 22min
Eo conto de hoje, conta ou não conta? Bagatela riu, e disse:
Conheci Constrangimento no casarão dos tios. A esposa era Constrangida, e os acompanhavam os filhos Constranjo, Constrangemos, Constrangeis, Constranger, Constranges e o caçula Contrariado. E riam à beça os que nunca perdiam o rebolado, como dizia a Vovó Velha, disse Dona Bagatela à Joça, que riu a perder a conta sem saber do porquê. A mesa grande e gorda, Joça, minha filha, Jocinha, repleta de enormes pães de fermentação natural, recheada de musse banana e de facas de ponta arredondada e das bocas cheias, das línguas ativas e moscas à boca. Eu, Jocinha, era criança, Joça, amiga minha amiga, e corria e brincava e caía e se levantava nas poças de lama na Rua dos Quebraqueixos. Eu, amiga minha amiga, eu fugia da Tia Simplicidade, quando titio Zémambembe não estava no casarão, porque andava com a cabeça na poesia de cordel.
E Bagatela corria no corredor da escola. Passou na sala dos professores e viu de relance a regente Abantesma.
Na sala de aula, a professora Abantesma:
O que é o conto?
Conto? gaguejou a aluna Bagatela.
Conte! insistiu a professora Abantesma acompanhada pela característica interjeição plac! plec! plic! ploc! pluc! A senhorita não vai contar, que o conto é um gênero de literatura com um único conflito, que ocorre em um tempo curto, com poucas personagens.
Poucos personagens, professora?
A turma riu. Os ares professorais de Abantesma, jovem e serelepe, disse o que veio dizer a sua didática:
Silêncio, turma! ameaçou-a com a palmatória: plac! plec! plic! batendo-a na palma da mão. Eu irei avaliar uma por uma, hoje, e sem consulta ao caderno, ou livro, a enciclopédia, ou dicionário, a verbetes, ao diabo a quatro!
A turma temia aqueles braços cuja circunferência deixava a melancia no chinelo. Os braços longos, pesados e fortes levavam aquelas mãos abertas, e elas batiam na mesa branca com o peso que se aproximava dos apressados passos do poderoso gigante Polifemo na areia grossa da ilha.
Leia! disse a professora Abantesma; entregou o papel à aluna Bagatela.
Ler?
Sim, senhora.
Mas...
Nem mais nem menos. Não se avexe não. Minha amiga de vida é a tua tia Simplicidade. Queres que eu recorra à Simplicidade?
A aluna Bagatela respondeu com a cabeça.
Foi o que eu inferi em sua inferência na presente conferência da matéria sobre o conteúdo da disciplina, sua indisciplinada sem-vergonha. E vou acabar de vez com essa igrejinha. Vocês me ouviram. Vocês me ouviram? E eu estou deveras farta da indecência que se faz com a docência. E qualquer dia, gente, a gente decreta greve por tempo indeterminado, e faremos o que fizeram os primeiros grevistas egípcios.
O silêncio reinava àquela hora na Escola Glossolalia. A custo veio a voz da menina Bagatela, e a professora Abantesma observou a locução adverbial “a custo” sem desviar o olhar do texto, que Bagatela leu:
“Lá fora, a noite impenetrável dominava. Já passava da meia-noite. Na casa, apenas uma criança de dez anos estava acordada.
“Olhou através da janela e viu uma luz distante. Não era uma lanterna comum. Eram olhos. A luz, velozmente, aproximou-se da janela. No escuro, os olhos brilhavam como se fossem fogo, fixos nela. Quem era?
“A criança não recuou sequer um milímetro. Pelo contrário, encostou a testa quente no vidro e ele estava tão gelado quanto o congelador da geladeira.
“Viu o seu hálito embaçar a transparência da noite.
“O ser do lado de fora parou a milímetros do vidro.
“O brilho dos olhos refletia em suas pupilas. E o silêncio foi quebrado por um estalo metálico. E a criança, com um sorriso calmo, destrancou a trava da janela e a empurrou.
“– Você demorou...! sussurrou a criança para a escuridão.
“A luz de fogo começou a baixar, revelando-se não como olhos de um conto de mistério, mas como o reflexo de uma pequena luz que a própria criança apertava com toda a sua força. Só então, ao olhar para o lado oposto, percebeu-se: a janela não era uma janela, mas um espelho antigo posicionado nos fundos do corredor.
“A criança não estava olhando para fora. Estava olhando para trás. E o que brilhava como fogo no espelho não era a sua luz, mas os olhos do cão que acabara de sair debaixo da cama, e veio lamber a sua mão.”
Àquela hora do dia, em romaria a São Gabriel, o povo chegava à vila. O que atraía o povo era a Rua dos Quebraqueixos repleta de casarões.
DONA BAGATELA: Você já sabe aquela história no Carnaval de 55, quando eu e o falecido quebramos o bar. Recordemos, Joça querida, porque a recordação também é a minha adorável amiga. Estávamos passando os festejos de Momo no Rio, na capital brasileira, em casa de primos, quando eu e o meu falecido, à noite, saímos em dado momento, entramos naquele bar de Copacabana. No bar do Vinícius, que o conheci em Paris. Estávamos lá, no Bar Calipso, falecido e eu, quando chegou o Juca.
JOÇA: Que Juca?
DONA BAGATELA: Chaves.
JOÇA: E eu não sei, não, Dona Bagatela...!
DONA BAGATELA: Se não sabes, ora, por que perguntas? Ai! Essa me matou. E você precisava ter dado tapa nas minhas costas, sua maluca? Quase fiquei sem fa-fala... ai! Não gosto dessas intimidades com. E ainda repete. Venha!
JOÇA: Desculpa, dona. Epa! Acabei de me lembrar de uma coisa importante. Dona Afável, sua filha, saiu. Não lhe disse? Disse que ia procurar o que a alma deseja. Aqueles gatuno da semana passada que a senhora, Dona Bagatela, quase matou com aquela cadeira de ferro, beberam toda as garrafa de Seu Vitorioso. Quer saber por quê? Nessa sala, ficou um cheiro insuportável de bebida por quase três dia. Os dois ladrão saiu algemado nos jornal e na TV, a cara dos bicho toda inchada de pancada, e reclamando que essa casa é assombrada. Saiu até nos jornal a casa da Dona Bagatela. Um luxo. Os jornal adora pôr em cartaz bandido. “Ouvi dizer que é nos lugar frio que fantasma gosta, e essa casa é fria!” disse um dos ladrão.
DONA BAGATELA: O povo do mundo vive num carnaval: marcando o passo.
JOÇA: A senhora agarrou os ladrão sozinha. Foi um carnaval àquela noite.
DONA BAGATELA: Isso já tem uma semana e Joça não para de comentar.
JOÇA: Ah, Dona Bagatela! E hoje é o grande dia, né?
DONA BAGATELA: Que dia, hein? Tenha vergonha! “Grande dia” nada, porque o Réveillon passou faz tempo. Entrada de ano passou. Hoje é Dia de Reis? Não é que havia me esquecido! Vou ter que ir ao banco buscar o dindim da aposentadoria.
JOÇA: Dia de Santos Reis que nada, Dona Bagatela.
DONA BAGATELA: Já sei. Esqueci. Vou receber visita de Dona Babélica.
JOÇA: Dona Babélica vai sair da casa de Maria Bala com esse frio? E depois, o tempo mudou, Dona Bagatela. Esse é ano El Niño...
DONA BAGATELA: Que El Niño, niña!
JOÇA: El Niño, Dona Bagatela. As notícia não para de falar nisso. Ouça!
RÁDIO: O fenômeno climático conhecido por El Niño virá com tudo esse ano. E a Vila de São Gabriel e Olho D’Água dos Lírios serão os lugares mais atingidos do Brasil. O aquecimento anormal das águas de cisterna irá superar o Oceano Pacífico Equatorial. Vocês aguardem.
DONA BAGATELA: Eu não acredito no aquecimento global.
JOÇA: Dona Bagatela!
DONA BAGATELA: Desde criança eu fui assim.
JOÇA: Pra ciência, Dona Bagatela, isso é um pecado mortal.
DONA BAGATELA: Não estou nem aqui, nem acolá para a ciência. Afinal, o que é isto que vocês chamam de ciência?
JOÇA: Ouça a notícia, veia tonta!
RÁDIO: El Niño vai em breve alterar a circulação atmosférica global...
DONA BAGATELA: Mentira.
JOÇA: Cala a boca!
RÁDIO: Haverá chuvas intensas, enchentes, alagamentos, enxurradas, inun...
DONA BAGATELA: Quanta mentira! Olhe o céu como está limpo.
RÁDIO: Haverá secas em muitas partes dessa bola no espaço chamado Terra.
DONA BAGATELA: Quanta lorota!
JOÇA: Lorota nada!
DONA BAGATELA: Importante é que receberei visita de Dona Babélica. E hoje tem festa na casa da Dona Abantesma.
JOÇA: Só se for no sumitério.
DONA BAGATELA: Que história é essa de cemitério?
JOÇA: Dona Abantesma morreu semana passada.
DONA BAGATELA: Morreu? Não me avisaram nada disso aí.
JOÇA: A senhora esqueceu, senhora?
DONA BAGATELA: Acho que esqueci. A morte é mesmo um coice da coisa...
JOÇA: Hoje é dia de rainha perder mordomias.
DONA BAGATELA: Não sei do que estás falando, menina, porque a Revolução Francesa...
JOÇA: Quer dizer que não sabe. Esqueceu. Hoje é o dia em que vão te levar.
DONA BAGATELA: Levar?
JOÇA: A-s-i-l-o.
DONA BAGATELA: Asilo? Ficou louca, nojenta! Que asilo?
JOÇA: Prisso saíram seu genro e sua filha. Disseram que é a nova cidadania.
DONA BAGATELA: Cidadania é o bicho-sujo obrando na pia. Vou fazer o maior carnaval na vida de vocês. Sou aposentada e dona do meu nariz. O Rio devia fazer lei para gente da minha qualidade; e isso não acontece. Não sou formada e reformada, como o golpista do meu genro e a esperta da minha filha. Foram estudar no estrangeiro para quê? Para aprenderem a gatunar? Mestrado, doutorado e pós não sei o quê, num projeto para descobrir a cor do bigode das formigas. Eles querem me levar aonde, Joça? São Gabriel que me socorra, já que é meu único socorro. Asilo? Isso porque possuo casa própria. Sou mulher de asilo! Vou pô-los no olho do beco. Como é a história, Joça? Repete, repete, repete. Quem foi que disse, hein, Bocadomundo? Vai, vai cuidar da tua vidinha suada e cheia de pó; sai, sai, sai daqui; xô!
AFÁVEL: Joça, você ainda está aqui? A cozinha está lhe chamando. As coisas todas para serem feitas e vocês, aqui, de trelas. Não pago caro à empregada para vê-la de conversinhas. Joça, mal-ouvida, apanhe essas coisas na cadeira e vá lá pra dentro. Que é que tá esperando, Joça, com esses olhos de quem comeu e não gostou?
DONA BAGATELA: Toma, abelhuda. Fica mosqueando na sala.
AFÁVEL: Faça logo o que mandei.
DONA BAGATELA: Vai logo, orelhuda!
JOÇA: Dona Afável veio da rua tão nervosa.
DONA BAGATELA: E o que você tem a ver com isso, enxerida?
AFÁVEL: Também, mamãe Bagatela, a senhora fica oferecendo os ouvidos a essa menina. Joça é uma menina. Inocente. Não sabe, no mundo, de nada. Só sabe cantar, assoviar e chupar cana.
DONA BAGATELA: Ouvidos, eu? Eu, não.
JOÇA: Ouvidos, sim.
DONA BAGATELA: Não me desafie, atrevida!
JOÇA: Ela tava repetindo a história do Carnaval de 55.
DONA BAGATELA: Que Carnaval! Em 55, Joça, eu era uma criança. Aliás, não era nem uma mocinha, Joça, quando acompanhei a Novembrada.
AFÁVEL: Chega, Joça! Chega, mamãe! Chega de conversa vocês duas! E não quero ouvir falar mais nada, suas duas caras pintadas. Por que não vai pensar no tema do próximo Carnaval, mamãe? Eu e o Vitorioso vamos fazer o bloco dos Caras-Pintadas.
JOÇA: Oxi, Dona Afável!
AFÁVEL: Doutora, Joça, doutora.
JOÇA: Doutora, Dona Afável.
DONA BAGATELA: Dê duro nela, Afável! É uma empregadinha desaforada.
JOÇA: “Desaforada?” Nós somos amigas, Dona Bagatela.
DONA BAGATELA: Atrevida essa Joça. Afaste-se de mim...!
JOÇA: Tô indo, tô indo.
DONA BAGATELA: Não, não, não. Antes quero saber de uma história que esta Bocadomundo me falou.
JOÇA: Que história? Olha lá, que história vai sair da sua boca.
DONA BAGATELA: De sua boca, é?
JOÇA: E eu que sou a boca do mundo, dona...?
AFÁVEL: Vai andando, Joça. Que história, mãe?
DONA BAGATELA: Será que nesta casa sou a única galhuda a última a saber?
AFÁVEL: Está esperando o quê, Joça? Cai fora!
DONA BAGATELA: Vou quebrar esse cabo de vassoura nessa Joça.
AFÁVEL: Joça é uma criança.
DONA BAGATELA: Mas ao namoro ela serve.
AFÁVEL: Isso são coisas que se diga, mamãe? Tenha juízo. Não, não, não tem juízo. Nem sabe o que fala.
DONA BAGATELA: Não acredito, Afável, que você, sendo a minha única filha, tem a coragem de me jogar numa clínica para idosos. Quer me ver apodrecer lá? Não sou pacote. Sou? Triste. Indesejável. Sem visitas. E sem nada para fazer. Só pensar se a morte vem hoje ou amanhã. Quer que eu tenha morte rápida como...? Como fizeram com o seu tio-avô Zémambembe, um herói de guerra, que ficou esquecido até a morte numa dessas clínicas imundas cercada por paredes de pedras tão altas, que não se conseguia ver o sol. Olho D’Água dos Lírios confinou o tio Zémambembe. E não adiantava ele fugir, Simplicidade sempre dava um jeitinho de levá-lo de volta. Eu vi, minha filha. A última vez, ele saiu daqui amarrado de cordas na mesa de um carro de boi.
AFÁVEL: Não levante a voz comigo.
DONA BAGATELA: Dispenso. Não quero mais vocês na minha casa. Esse foi o casarão que o titio Zémambembe deixou para mim. Deixe para lá. Afável, esse é o presente de Natal e Ano-Novo que você e o querido Vitorioso vão me dar? Agradeço. Agradeço de coração. Quem vai embora daqui são vocês dois. Não quero mais vê-los em minha casa. Mas eu, felizmente, minha filha, sou devota de São Gabriel. Você está perdoada, minha filha. Afável, você é mesmo a filha mais desnaturada que alguém já pariu. Nunca imaginei!
AFÁVEL: Calma, mamãe. A senhora está se sentindo bem?
DONA BAGATELA: Calma? Calma o quê! Que calma que nada, minha menina.
AFÁVEL: Não é bem assim, mamãe. A senhora costuma ser muito trágica.
DONA BAGATELA: Isso é cômico. Eu, uma mulher aposentada, viúva, doente, é jogada fora como se fosse uma camisinha usada.
AFÁVEL: Por favor, mãe. A senhora, Bagatela... Tome o seu remedinho, o seu remédio embaixo da língua. Abra a boca, abra.
DONA BAGATELA: É verdade, minha filha Afável?
AFÁVEL: Que a senhora, mamãe, vai para o asilo? É. Daqui a pouco, Vitorioso vem lhe buscar.
DONA BAGATELA: Você está viçando, afável. Cometer mais um assassínio? Por favor, minha filha; ó, Afável! Vice com o Vitorioso.
AFÁVEL: Levante-se, mãe. Para que ficar de joelhos?
DONA BAGATELA: Deixe ficar nesta casa. Prometo não lhe dar mais trabalho, nenhum aborrecimento vou provocar de hoje em diante. Traga meu remédio pra pôr debaixo da língua, traga; traga o meu remédio pra eu cuspir fora. Foi aqui onde eu me criei, Afável. Será que o meu destino é ser humilhada nesta casa, é ser escorraçada?
AFÁVEL: Vamos enfrentar a vida, mãe Bagatela.
DONA BAGATELA: Foi aqui onde eu criei você, filha.
AFÁVEL: Mãe.
DONA BAGATELA: Aqui, você criará seus filhos.
AFÁVEL: Mãe.
DONA BAGATELA: Quero ver meus netos, todos eles correndo nos corredores do casarão. Vê-los brincando nos jardins, subindo às árvores. Vou acompanhar eles pulando o muro, eles correndo nas escadas de baixo a cima. Quero vê-los acima de vocês, seus medíocres! Quero assisti-los disparados escada a baixo. E não quero, minha filha, morrer antes de realizar esse sonho. Você não vai me impedir isso, sua desgraçada!
AFÁVEL: Para com esse drama, Dona Dramática do inferno!
DONA BAGATELA: Só Deus e São Gabriel sabem o quanto sonho com isso, ó minha filha. Sonho com os meus netinhos. Foi aqui onde a tia-avó Simplicidade faleceu. É aqui onde eu quero morrer. Não vou morrer onde morreu seu tio-avô Zémambembe. Não queira sujar suas mãos com sangue dos justos, minha filha Afável. Não cometa esse assassínio.
AFÁVEL: Não haverá assassínio nenhum. Mamãe, mamãe. Não haverá Vila de São Gabriel nenhuma. Não verás Olho D’Água dos Lírios nenhum. Vamos levá-la a Maceió. Talvez uma temporada em Paris. Uma clínica excelente em Praga. Não dramatize. Vamos a Londres. A senhora, mamãe, pode escolher. Lá, não é o que os seus pesadelos imaginam. Lá, é uma clínica de repouso do mais alto gabarito. Onde a nata da terceira idade frequenta.
DONA BAGATELA: A nata?
AFÁVEL: A nata. Tem até três piscinas.
DONA BAGATELA: Tem piscina? Que coisa fantástica!
Plac! plec! plic! ploc! pluc!
A professora Abantesma saiu atrás da cortina e olhou nos olhos de Dona Bagatela, que se acoelhou e se levantou da cadeira de palhinha. Mas não era mais Dona Bagatela e, sim, a menina Bagatela.
Na sala de televisão, as luzes foram acesas, as janelas foram abertas, o barulho silenciou. As carteiras escolares foram preenchidas pelas coleguinhas da menina Bagatela.
Plac! plec! plic! ploc! pluc! ouviu-se a ameaça da palmatória, que se fazia presente aos ouvidos da aluna Bagatela.
Qual foi a reviravolta, Bagatela?
A reviravolta, professora?
Plac! plec! plic! ploc! pluc!
Fale de uma vez!
Que reviravolta, professora Abantesma?
Do conto... do conto de mistério. E do que mais seria, ó sua... sua... sua avoada duma figueira cheia de lascadinhas! Quem é a personagem principal?
Aaaah...!
Aaaah...? A personagem principal, Bagatela.
Uma criança de dez anos.
E o que acontece com uma criança de dez anos, Bagatela?
Ela desafia o previsível medo, mantendo-se calma e curiosa.
E quem é o antagonista aparente do conto de mistério, bagatela?
O “ser...” O “ser...”
O ser e o nada? Responda logo! Que ser, Bagatela? Simplicidade havia me garantido que você tinha tudo na ponta da língua. A senhorita não quer que eu grite e invoque aqui, agora e já a presença da sua tia Simplicidade, quer?
Não, não, não. Por amor a São Gabriel, professora Abantesma.
Vou perguntar mais uma vez. Antagonista aparente, Bagatela.
O “ser” de olhos de fogo que gera a tensão inicial.
E o foco narrativo?
Ter-ter-te-ceira pes-pessoa, pro-professora. O narrador é “limitado,” pois descreve apenas o que a criança vê, omitindo a perspectiva real para enganar o leitor.
Muito bem, Bagatela. O foco e personagens estão completos. Vamos ao tempo e ao espaço, menina.
Plac! plec! plic! ploc! pluc!
Por que o espaço é enganoso, Bagatela?
Porque a narrativa faz o leitor acreditar que o cenário é uma janela, que é o limite entre o dentro e o fora, professora Abantesma, quando na verdade é o espelho, professora, o espelho é o espaço interno.
Sigamos nesta toada. E o tempo?
O tempo, professora?
O tempo, Bagatela.
O tempo, professora, é meia-noite. O horário previsível do gênero para aumentar o clima de isolamento e perigo, professora, como uma escola.
Como o quê, menina?
Nada não, professora. Não vai me perguntar mais nada?
Fale sobre a estrutura e tensão. O enigma, por exemplo.
O enigma? Está bem. O enigma, professora, são os olhos de fogo.
E as pistas falsas?
Pistas falsas, professora, quando..., por exemplo, professora, o narrador usa palavras como “janela,” “noite impenetrável” e “lá fora” para construir uma imagem mental de invasão externa.
E o clímax, Bagatela, e o clímax?
O clímax, professora, é o momento em que a criança destranca a trava e sussurra, sugerindo cumplicidade com algo sombrio.
Bem. E o desfecho?
A revelação, professora?
Sim, a revelação.
O desfecho, professora, sabe o que é, é a quebra da ilusão óptica. O perigo é substituído pelo cãozinho, que vem lamber a mão da criança de dez anos, e o espelho...
Houve recursos específicos, Bagatela?
Recursos específicos, professora?
Foi isso o que eu falei. Houve ou não houve?
Eis a questão.
Que questão, menina! Houve ambiguidade?
O “estalo metálico” e a “trava” sugerem, professora Abantesma, uma fechadura de janela, mas podem ser interpretados como o trincar do espelho ou o som do cão se movendo no corredor escuro.
E a atmosfera?
É o contraste entre a “testa quente” e o “vidro gelado.”
DONA BAGATELA: Ladrão!
AFÁVEL: Venha aqui na janela.
DONA BAGATELA: Que tem na janela? Alguém me ajude a levantar-se.
AFÁVEL: Piscinas gigantes, olímpicas. Móveis rococós. Arquitetura clássica.
DONA BAGATELA: Isso é igual a uma injeção.
AFÁVEL: Por quê?
DONA BAGATELA: Olho pra agulha e ouço: “Isso não vai doer, não vai doer.”
AFÁVEL: Comparação tola. Aquilo lá, mamãe, é melhor do que um hospital.
DONA BAGATELA: Hospital é para doentes. Não estou doente. Estou?
AFÁVEL: Pode ir tranquila, mamãe. O Dr. Dante a espera de braços abertos.
DONA BAGATELA: Quem?
AFÁVEL: Dante.
DONA BAGATELA: Eu fui obrigada a lê-lo.
AFÁVEL: Não, mamãe.
DONA BAGATELA: Fui ameaçada pela palmatória da professora Abantesma.
AFÁVEL: Mamãe...
DONA BAGATELA: Parei no “Inferno.”
AFÁVEL: Quando a senhora chegar à clínica, mamãe, encontrará gente da sua idade, gente que conheceu no Rio do maravilhoso ano de 55. Vocês trocarão ideias. O passado estará presente. Em cada quarto uma TV desse tamanho.
DONA BAGATELA: Casa para gente assim igual a mim não é diferente de casa de fantasmas. E uma casa de fantasmas não é diferente do inferno. Sensação horrorosa! Não vou encontrar lugar, vou encontrar espaço sem história. Lugar tem história. É isso que a Vila de São Gabriel reserva para mim, como reservou ao tio Zémambembe? Eu quero ser testemunha ocular da história do mundo dentro de casa, na frente da minha televisão nova. Quero acompanhar novelas, quero rir até perder os dentes com os programas de humor, ver um pai chegar suado ao supermercado acompanhado pelo filho, maior do que o pai, que exibe na sala os seus patronímicos em um quadro dourado, e o feladaputa entrar na correria, e o cachorro do filho parar na porta com uma Chihuahua amarrada a uma corrente de ouro e um laço vermelho no pescoço.
AFÁVEL: Quê!
DONA BAGATELA: Espaços sem história, sim, sua ignorante. Não quero viver em espaço sem história. Eu sou a Dona Bagatela. Não sou uma personagem qualquer. Minha filha, o lobisomem é quem vive preso em um quarto, rezando com medo. Quero ser livre. Qual foi o crime que pratiquei? Puxe o código. Faça a acusação diante da lei. Não fará. Não existe crime. Não existe lei que me queime.
AFÁVEL: Até parece que vai morrer.
DONA BAGATELA: Morrerei, sim, de tristeza, como morreram todos os poetas românticos. Na primeira semana, eu morrerei. Farei versos apaixonados e com eles cortarei os meus pulsos. A solidão vai me matar e eu vou sentir uma dor que nunca senti. Quando a dor passar, estarei morta, fria, tesa, branca, uma vela defunta. Ai! Já sinto a tristeza aqui.
AFÁVEL: Quer água?
DONA BAGATELA: Prefiro a boa morte no casarão onde conheço cada tijolo. Naquela casa de fantasmas, eles vão me obrigar a ter hora para tudo. Sofrerei agressões, serei torturada. Nenhuma lei vai atalhar os maus-tratos que sofrerei. Serei torturada mais do que vocês me torturam aqui. Por que o silêncio? Esse silêncio é ridículo, constrangedor, ele me ameaça, o seu silêncio retórico é feio. Só esse silêncio já me faz sofrer por antecipação. Não saia, Afável. Volte. Quero terminar essa conversa. Vamos continuar o nosso bom diálogo.
AFÁVEL: Essa é a conversa, é a engrenagem social, mãe Bagatela.
DONA BAGATELA: Ódio, ódio, ódio! Só vejo ódio. Ódio em torno de mim. Ódio em toda a parte.
AFÁVEL: Você é uma mulher cruel!
DONA BAGATELA: Cruel?
AFÁVEL: A crueldade é o que azeita a sua engrenagem social, mamãe.
DONA BAGATELA: Nunca ouvi falar nessa engrenagem do diabo.
AFÁVEL: Que pecado! São Gabriel castiga uma boca tão suja quanto a sua.
Ela tinha pressa, muita pressa. São Gabriel estava em brasa. A tia corria atrás do prejuízo, reclamava do tempo. Simplicidade organizou outra formação de professores; a quinquagésima reunião do ano, que mal havia começado.
Bagatela, você sempre foi uma menina cheia de curiosidades.
E fui!
Foi.
E sou! Sempre curiosa, além de sapeca, disse tia Simplicidade. E ela me falou que se continuasse sapeca acabava careca. Correndo nos corredores da escola, ouvi conversas no salão. Fui espiar.
Todos na távola redonda, respiravam o pó de giz, e idolatrava o quadro. Os comentários dos participantes ocuparam a sala do tamanho de uma unha:
É verdade, minha comadre! disse Abantesma. É verdade.
É a vida, minha vizinha! disse o professor. Dela não podemos fugir.
Se achegue, amiga.
Que vida difícil, comadre.
É verdade, é verdade...!
Não se acha mais uma folha de solidariedade quando se está com febre.
Como será a nossa reunião?
Vamos esperar a palavra inicial da diretora Simplicidade.
O tema corrupção é sempre adequado.
Que assunto doce!
Ele volta em cada reunião.
Por que não fala do “Paraíso” de Dante?
Isso é uma comédia!
Estou ansiosa... disse uma professora. Nossa! Nem reparem.
Estou ansioso! suspirou um professor. Estou nervoso, e até trêmulo.
Quanta expectativa! disse Abantesma. Foi procurar uma cadeira. Girou. Voltou. Sentou-se. A pobre cadeira gemeu quando ela descruzou a perna. Meu coração parece que vai fugir. Abriu um caderno. Fechou-o. E olhou através das janelas. Coçou a cabeça. Sacudiu o cabelo. Olhou-se no espelhinho, que tirou de dentro da bolsa. Deixou a mão na mesa. Cruzou os braços. Olhou as telhas. Fez um gesto com um jeito estranho. Riu. Ficou séria.
“Diversões em Nós-Tratamos-Mas-Não-Cumprimos são a vida devassa, as paixões sexuais irresponsáveis e criminosas, os fuxicos.” Abantesma fechou a revistinha com a idêntica pressa que a tinha aberto entre as mãos trêmulas. “Mas no passado era bem pior: morte por uma galinha, homicídio por uma casa ou um jogo de bozó. Vi uns chorarem ao perder uma partida de batalha naval.”
E esse ano está tão diferente! comentou a Diretora Simplicidade. Gostou da minha locução adverbial? Ó gente do céu! disse e cutucou com o cotovelo a colega ao lado. Estou com orgulho, sabia, de mim mesma, merma, memo.
Acredita que recebi um convite do sindicato?
Para quê, amiga?
Filiar-me.
Não gostei do uso do seu pronome.
Não! pasmou. Por quê?
Porque os meus haveres são diferentes dos seus haveres.
Para com arcadismo! disse uma jovem professora que defendia a greve por tempo indeterminado e os falsos cognatos na língua.
Rruufuburfhrfhruubr!
Vamos combater a corrupção, diretora.
Que horror!
Não faço nem ideia.
Diretora, Diretora Simplicidade, gritava um professor, que tal se levasse um parque de diversões para dentro da sala de aula em lugar dessa nossa pedagogia tradicional?
Eu preferia um campo de futebol.
Não na minha sala. Lá, gente, só funcionaria um ringue.
Na minha, uma escarradeira.
Eu procurava um eletrochoque de realismo. Perdi o meu na última formação. Alguém o achou? Juro que não esqueci no banheiro, nem enquanto assinava a presença.
O professor de História comentou com o professor de Geografia:
A vida de senador, na Roma antiga, foi o único paraíso na terra.
Os ventos alteraram o ciclo de plantação! disse o geógrafo com pós-doc na Califórnia.
Eram deuses Marco Aurélio, Brutus, Júlio César.
Nossas previsões atmosféricas estão confusas.
Uma professora comentou com a colega:
Um casal invadiu a minha aula aos berros: "Não quero filha minha na escola! disse ele. Ela rebateu: Cala a tua boca, Jasmim! protestou a mulher. Eu não sou Jasmim. Eu sou Jardim! irritou-se o homem. Nem filha tua ela é!"
Nossa formação é um estouro.
Adoro essas formações ministradas pela professora Simplicidade.
Os presentes viram a porta entreaberta; e não perceberam Bagatela. A diretora logo encheu os olhos até vazá-los. Ato contínuo, escreveu o professor ao secretariar a reunião, e registrou em ata que Simplicidade descongestionou o nariz com frequentes trombonadas.
E qual será o conto na formação de hoje? perguntou, e uma colega distante olhou e fez caras e bocas enquanto passava as mãos nas pernas curtas.





