Tecnologia para valorizar minérios é questão de soberania
Terras raras, lítio, nióbio, gálio e cobalto: o Brasil é potência mineral, mas ainda engatinha na tecnologia de transformação
Publicado 07/08/2025 12:18 | Editado 08/08/2025 16:09
O desafio básico é separar as terras rarasO Brasil está sentado sobre uma riqueza mineral estratégica, com potencial para transformar sua economia e projetar soberania tecnológica. O país detém a segunda maior reserva de terras raras do planeta, responde por mais de 90% da produção mundial de nióbio e possui percentuais significativos de grafite, lítio, níquel e cobalto — minerais considerados críticos para a indústria do futuro.
Esses minerais são insumos fundamentais para a produção de turbinas eólicas, carros elétricos, baterias de alta performance, lasers, computadores, semicondutores e equipamentos aeroespaciais e militares. “Eles estão presentes em telas de alta resolução, super ímãs miniaturizados e ligas metálicas resistentes ao calor, utilizadas em aviões e foguetes”, explica ao Vermelho o geólogo João Adauto de Souza Neto, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
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A presença desses minerais no cotidiano é tão intensa quanto invisível: telefones celulares, lâmpadas compactas, robôs cirúrgicos, painéis solares, turbinas eólicas, instrumentos médicos e sistemas de defesa. “Esses minerais são considerados críticos e estratégicos porque estão na base da indústria tecnológica moderna”, afirma o professor.
Entre a abundância e a dependência
Apesar das reservas expressivas, o Brasil ainda depende da tecnologia externa para o processamento e separação de terras raras. “A China é a única que domina a tecnologia de separação dos 14 elementos das terras raras, que possuem propriedades químicas muito similares”, destaca Souza Neto. O domínio chinês sobre cerca de 90% do mercado mundial de processamento preocupa as grandes potências — e reabre a disputa global por autonomia mineral e tecnológica.
Indústria de ponta e soberania nacional
A importância dos minerais críticos transcende o mercado: eles são fundamentais para a soberania e segurança nacional. Projetos como o satélite brasileiro e o submarino com propulsão nuclear, por exemplo, só avançam com domínio sobre elementos como neodímio e disprósio.
Além disso, há aplicações fundamentais na indústria do petróleo, como os catalisadores que usam cério e lantânio. “Com investimentos contínuos, o Brasil pode dominar essa tecnologia em cerca de cinco anos”, avalia Souza Neto.
Pesquisas promissoras e desafios tecnológicos
Há sinais de reação. A Universidade Federal do Ceará desenvolve técnicas de separação por eletroforese, enquanto a UFPE investe em engenharia de materiais para criar novas ligas metálicas. Mas os gargalos são grandes: extração cara, processos químicos complexos, consumo elevado de água e energia e ausência de plantas industriais integradas.
O projeto nacional MAG-BRAS, que reúne instituições como IPT, CTEI e Fiemg, busca romper essa dependência. Uma planta piloto em Belo Horizonte pretende demonstrar a viabilidade da produção de ímãs de terras raras em escala industrial até 2027. “Fomentar a passagem das pesquisas das universidades públicas para empresas privadas é essencial para romper a dependência e internalizar a tecnologia”, defende Souza Neto.
Potencial geológico e investimento recorde
A corrida global por minerais estratégicos fez o setor minerário brasileiro projetar um salto: segundo o Ibram, entre 2025 e 2029, o Brasil deverá receber mais de R$ 100 bilhões em investimentos apenas no segmento de minerais críticos, dentro de um pacote total de R$ 370 bilhões no setor mineral. Entre janeiro e junho de 2025, o saldo da balança mineral foi de US$ 16 bilhões — 53% do superávit comercial brasileiro.
Defesa de minérios estratégicos é tema do 16º Congresso do PCdoB
A relevância geopolítica dos minerais também impõe uma escolha política: o Brasil será mero exportador de matéria-prima ou irá construir sua própria cadeia de valor? Com solo fértil em minerais e capacidade científica instalada, o país está diante de uma encruzilhada: permanecer como fornecedor global de insumos brutos ou se tornar protagonista de uma nova geopolítica mineral, baseada em conhecimento, autonomia e valor agregado. Nesse ponto, o debate avança para os campos ideológico e estratégico. O 16º Congresso do PCdoB, por exemplo, debaterá a política do domínio das etapas da produção mineral – da extração responsável ao produto final – como um dos eixos da soberania nacional.
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