Brasil dribla tarifaço de Trump e bate recorde na balança comercial
Mesmo com sobretaxa de 50% imposta pelos EUA, exportações totais crescem; superávit chega a US$ 6,1 bi em agosto
Publicado 05/09/2025 13:36 | Editado 05/09/2025 13:53
Foto: ReproduçãoA balança comercial brasileira fechou agosto com superávit de US$ 6,1 bilhões, resultado que confirma a resiliência do comércio exterior diante das turbulências internacionais.
De acordo com dados divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as exportações no mês somaram US$ 29,9 bilhões, alta de 3,9% em relação ao mesmo período de 2024.
Já as importações recuaram 2%, ficando em US$ 23,7 bilhões, o que elevou a corrente de comércio (exportação e importação) para US$ 53,6 bilhões, crescimento de 1,2% sobre agosto do ano passado.
O resultado positivo contrasta com a balança negativa em relação aos Estados Unidos, após a queda de 18,5% nas exportações no primeiro mês de vigência das tarifas de 50% impostas pelo presidente norte-americano, Donald Trump.
Diante desse quadro, o Brasil tem ampliado sua presença em outros mercados, com destaque para China, México e Argentina.
No acumulado de janeiro a agosto, as exportações chegaram a US$ 227,6 bilhões, recorde histórico para o período. As importações, por sua vez, totalizaram US$ 184,8 bilhões, alta de 6,9% frente ao ano passado.
O saldo positivo de US$ 42,8 bilhões mantém o Brasil entre os países de maior superávit comercial do mundo, enquanto a corrente de comércio (exportações e importações) atingiu US$ 412,4 bilhões, também a maior da história nos oito primeiros meses de um ano.
O desempenho robusto da balança, porém, contrasta com o tombo nas vendas para os Estados Unidos, que recuaram 18,5% em agosto, primeiro mês de vigência da sobretaxa de 50% imposta por Donald Trump a centenas de produtos brasileiros.
As exportações caíram de US$4,4 bilhões para US$4 bilhões, puxadas pelo corte total nas vendas de minério de ferro, pela redução de 88,4% no açúcar e de 84,9% em aeronaves e partes. Também tiveram fortes quedas a carne bovina fresca (−46,2%), os motores e máquinas não elétricos (−60,9%) e a celulose (−22,7%).
Ao mesmo tempo, as importações brasileiras de produtos americanos cresceram 4,6%, alcançando US$3,9 bilhões. O movimento agrava o déficit bilateral com os EUA, confirmando que as tarifas penalizam setores estratégicos da economia nacional.
Diversificação amplia vendas para China, México, Argentina e Índia
Os números também evidenciam uma reorientação do comércio exterior brasileiro para novos mercados. O grupo formado por China, Hong Kong e Macau absorveu 32,1% das exportações brasileiras em agosto, totalizando US$ 9,5 bilhões, um aumento de 29,9% frente ao ano passado. Carne bovina (+84%), petróleo (+75%), soja (+28,4%) e açúcar (+20%) foram os produtos mais demandados.
Os produtos mais vendidos para a China, Hong Kong e Macau foram:
Carne bovina: + 84%
Óleos e produtos de petróleo: + 75%
Soja: + 28,4%
Açúcar e melaço: + 20%
Minério de ferro: + 4,9%
No mesmo mês, o México ampliou suas compras em 43,8%, a Argentina em 40,4% e a Índia em 58%. Houve, em contrapartida, queda nas exportações para Bélgica (−43,8%), Espanha (−31,3%), Coreia do Sul (−30,4%) e Singapura (−17,1%). A diversificação reforça a tendência de fortalecimento das relações com países do Sul Global diante do protecionismo dos Estados Unidos e da estagnação em parte da Europa.
Disputa política e defesa da soberania nacional
As sobretaxas impostas por Trump não têm caráter comercial. Em abril, o presidente republicano justificou a medida citando processos contra Jair Bolsonaro e atacando o Supremo Tribunal Federal, em especial o ministro Alexandre de Moraes.
Sem provas nem base legal, a Casa Branca acusou o Brasil de “perseguição” e de adotar medidas contra as big techs vistas como “censura”. A retaliação, portanto, assume contornos de ingerência política e ideológica contra a soberania nacional.
O governo Lula reagiu acionando a Lei da Reciprocidade e discutindo contramedidas na Camex.
O MDIC atribuiu a queda nas exportações para os Estados Unidos, em agosto, a uma antecipação de embarques feita em julho, quando já havia a expectativa do tarifaço de 50% anunciado por Donald Trump.
De todo modo, os dados oficiais reforçam que, apesar das perdas setoriais impostas pelo tarifaço, o Brasil mantém superávit robusto e fortalece seus vínculos comerciais com parceiros estratégicos, em um cenário internacional cada vez mais marcado pela disputa entre unilateralismo e multipolaridade.




