Com suspensão de Glauber, Heloísa Helena volta à Câmara e reacende trajetória de rupturas na esquerda
Depois de 18 anos, ex-senadora reassume cadeira com histórico de rupturas no espectro à esquerda

Em uma sessão marcada por intensos debates e resoluções estratégicas, o Plenário da Câmara dos Deputados decidiu nesta quarta-feira (10) suspender por seis meses o mandato do deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ), em vez de cassá-lo. A decisão foi aprovada por maioria ampla — 318 votos a favor, 141 contrários e três abstenções — aprovando uma punição alternativa à cassação que estava em pauta.
Com a medida, a cadeira de Braga será ocupada temporariamente pela ex-senadora Heloísa Helena (Rede-RJ), primeira suplente da federação que reúne a Rede Sustentabilidade e o PSOL. Helena retorna ao Congresso Nacional após 18 anos afastada da atividade parlamentar federal.
A saída de Glauber Braga
O processo de punição contra Braga teve origem em um episódio de quebra de decoro parlamentar envolvendo o deputado e um integrante do Movimento Brasil Livre (MBL) no interior do Congresso em abril de 2024. Caso o mandato fosse cassado, Braga enfrentaria também um período de inelegibilidade de oito meses, além da perda imediata do cargo.
Em seu posicionamento público após a votação, o parlamentar classificou o desfecho como “vitória coletiva”, ressaltando que, embora a suspensão não fosse o objetivo inicial, ela representou uma alternativa menos gravosa do que a cassação total do mandato.
O líder do governo na Câmara, deputado José Guimarães (PT-CE), foi apontado como peça central nas negociações que construíram essa saída política, argumentando que a suspensão preservava a responsabilidade institucional sem fragilizar a autoridade do Parlamento.
Trajetória de Heloísa Helena
Heloísa Helena, 63 anos, é uma política de longa trajetória no cenário nacional e com um histórico marcado por rupturas, disputas internas e protagonismo em movimentos de esquerda. Enfermeira e professora de formação, sua carreira política oficial começou no movimento estudantil e nos movimentos sociais.
Nascida e criada em Alagoas, Helena estreou em cargos eletivos como deputada estadual por Alagoas (1995–1999) e vice-prefeita de Maceió (1993–1995), posições que consolidaram sua atuação no cenário político local antes de buscar projeção nacional.
Em 1998 foi eleita senadora pelo estado de Alagoas, cargo que ocupou entre 1999 e 2007. Neste período, começou a ganhar destaque nacional, especialmente por sua atuação crítica dentro do próprio Partido dos Trabalhadores (PT).
A ruptura com o PT e a fundação de novos partidos
O ponto determinante de sua carreira foi a ruptura com o PT nos anos 2000, motivada por divergências com a condução do primeiro governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A principal divergência se deu em relação à reforma da Previdência, que Helena criticou fortemente e qualificou como expressão de uma agenda “neoliberal” dentro do governo petista.
Após deixar o PT em 2003, ela foi uma das principais fundadoras do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) em 2004, tornando-se a primeira presidente da agremiação. O PSOL nasceu como alternativa à esquerda petista, reunindo militantes históricos e dissidentes insatisfeitos com rumos do governo.
Em 2006, disputou a Presidência da República pelo PSOL, terminando em terceiro lugar com cerca de 6,85% dos votos, um desempenho relevante para um partido recém-criado.
A migração para a Rede Sustentabilidade
Após quase uma década de atuação no PSOL, Helena migrou em 2013 para a Rede Sustentabilidade, partido que já vinha articulando há alguns anos ao lado de outras lideranças, incluindo Marina Silva. No entanto, sua atuação na Rede também foi protagonista de disputas internas. Em uma dessas disputas pelo comando do partido, Helena saiu vitoriosa contra a então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva.
Ainda na fase da Rede, ela concorreu novamente a cargos eletivos: em 2022 disputou vaga para deputada federal pelo Rio de Janeiro, obtendo mais de 38 mil votos e ficando como suplente na coligação PSOL/Rede, e em 2024 foi candidata a vereadora no Rio de Janeiro, ficando mais uma vez na suplência.
Compreensão da trajetória
A carreira política de Heloísa Helena se caracteriza por uma postura crítica em relação às estruturas tradicionais de poder, com ênfase em rupturas programáticas e busca por alternativas de esquerda fora das legendas majoritárias. Sua volta ao Congresso, mesmo que temporária, marca um retorno simbólico e prático ao centro dos debates legislativos após quase duas décadas fora da atividade parlamentar.




