Brasil é 48º em soberania digital; programa debate fuga de cérebros
Entrelinhas Vermelhas analisa dependência do país das Big Techs, gasto de R$ 23 bi com softwares e propostas de soberania e retenção de talentos
Publicado 06/08/2026 18:00 | Editado 07/08/2026 16:59

A nova edição do programa Entrelinhas Vermelhas, exibida nesta quinta-feira (6) pelo Portal Vermelho, pôs em pauta um dos desafios mais urgentes para o futuro do Brasil: a soberania tecnológica. A conversa abordou a nova “Guerra Fria” tecnológica, a drenagem de recursos públicos para corporações estrangeiras e os caminhos legislativos para que o país alcance autonomia na era da inteligência artificial (IA).
Conduzido pelo jornalista Inácio Carvalho, o debate contou com a participação de Ergon Cugler, pesquisador e membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável (Conselhão), e de Larissa Gold, editora de Redes Sociais do PCdoB.
Assista a íntegra da entrevista:
A nova Guerra Fria e a governança da IA
Cugler destacou que o mundo vive uma corrida tecnológica sem precedentes, com semicondutores, computação em nuvem e IA no centro da disputa entre as grandes potências. Enquanto os Estados Unidos utilizam suas Big Techs para expandir sua influência global — muitas vezes instalando data centers com fins de espionagem e extração de dados —, a China adota uma postura de “governança do ganha-ganha”.
O pesquisador citou o recente fórum global de IA e os investimentos chineses em infraestrutura na África como exemplos de um modelo colaborativo, que visa o crescimento mútuo para ampliar o próprio mercado consumidor e produtivo de forma estratégica.
O ralo das Big Techs e o Índice de Soberania
Um dos pontos mais críticos da análise foi a revelação de que o Brasil ocupa a 48ª posição entre 86 países no Índice de Soberania Digital, empatado em pontuação com nações em cenários complexos como a Ucrânia e o Cazaquistão. A China lidera o ranking, enquanto os EUA aparecem em quarto lugar, impulsionados por modelos de código aberto e infraestrutura.
Cugler apontou que, embora o governo federal tenha avançado com o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) — que prevê R$ 23 bilhões em investimentos —, o Estado brasileiro gasta anualmente o mesmo valor (R$ 23 bilhões) apenas na contratação de softwares de corporações como Microsoft, Google e Oracle.
“Precisamos quase exorcizar as Big Techs da gestão pública”, defendeu o conselheiro, alertando para o lobby intenso e a infiltração dessas empresas no Congresso Nacional, no Judiciário e em todas as esferas do Executivo.
Retenção de cérebros e defesa das terras-raras
Larissa Gold ressaltou a proposta do PCdoB de elevar os investimentos em Ciência, Tecnologia e Inovação para 2% do PIB, articulando o setor à reindustrialização, à política energética e à defesa nacional. Para transformar a teoria em prática e fomentar o desenvolvimento local, Cugler citou o projeto de lei da deputada estadual Dani Balbi (PCdoB-RJ), que prioriza a compra de softwares livres e soluções de pequenas e médias empresas nacionais nas licitações públicas, em detrimento dos pacotes prontos das gigantes do Vale do Silício.
Além da mudança nas compras públicas, o pesquisador propôs a criação de um mecanismo de “contrapartida” para recém-formados em tecnologia por universidades públicas. A ideia visa evitar que talentos financiados pelo Estado (via impostos como o ICMS) sejam imediatamente cooptados por Big Techs estrangeiras, garantindo que prestem serviço ao setor público brasileiro.
Por fim, ele alertou para a urgência de proteger as reservas nacionais de terras-raras — minerais essenciais para a fabricação de semicondutores e data centers de alta capacidade. Ele criticou tentativas de governadores alinhados ao bolsonarismo de negociar esses recursos estratégicos diretamente com o mercado externo, à revelia do planejamento de Estado e da soberania nacional.




