Falta de ônibus atinge 10% do eleitorado; Lula venceu em 24 das 27 cidades afetadas
Lula venceu em 24 das 27 cidades com denúncias de supressão de transporte; padrão levanta suspeitas sobre ação coordenada para dificultar voto
Publicado 25/10/2026 18:09 | Editado 25/10/2026 18:35

A falta de ônibus registrada neste domingo (25) em diferentes regiões do país atingiu um contingente equivalente a quase 10% do eleitorado brasileiro e pôs novamente em evidência o impacto das barreiras à mobilidade sobre o direito de votar. Por esse motivo, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, decretou a prorrogação da votação em todo o território nacional até 19h.
Levantamento do ICL Notícias mostra que as 27 cidades com denúncias de redução ou supressão do transporte público reúnem mais de 15,5 milhões de eleitores — 9,8% do eleitorado nacional. No primeiro turno, Lula venceu em 24 desses municípios, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) ganhou em apenas três: Guarulhos (SP), Petrópolis (RJ) e São Gonçalo (RJ).
Somados, os resultados deram a Lula uma vantagem de aproximadamente 1,1 milhão de votos. A título de exemplo, a capital baiana é administrada por Bruno Reis, aliado de ACM Neto, que declarou apoio a Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno. Na primeira etapa da eleição, Lula venceu em todas as 19 zonas eleitorais de Salvador, com 65,26% dos votos, contra 27,03% do adversário.
A concentração dos casos em municípios nos quais o atual presidente teve vantagem torna o episódio politicamente relevante, caso se comprove uma articulação nacional para favorecer o candidato do PL. A eventual existência de coordenação entre agentes públicos, empresas de transporte ou grupos políticos poderá ser demonstrada por evidências de investigação.
De 2022 aos ônibus de 2026
O episódio remete ao segundo turno de 2022, quando operações da Polícia Rodoviária Federal em estradas dificultaram o deslocamento de eleitores, sobretudo no Nordeste, onde Lula tinha ampla vantagem eleitoral. Naquele ano, a PRF estava sob comando de Jair Bolsonaro.
A situação atual é diferente. Em vez de fiscalizações rodoviárias, as denúncias envolvem a operação do transporte coletivo urbano: ônibus que deixaram de circular na quantidade determinada ou permaneceram nas garagens. A maioria das prefeituras envolvidas estão sob o comando de aliados de Flávio Bolsonaro ou do próprio PL.
A comparação, portanto, não está no mecanismo, mas na importância da mobilidade para o exercício do voto. Em 2022, o uso da estrutura da PRF foi alvo de investigação e posteriormente levou à condenação do então diretor-geral da corporação, Silvinei Vasques, pelo Tribunal Superior Eleitoral.
Em 2026, cabe esclarecer se as ocorrências deste domingo foram resultado de falhas administrativas independentes ou se existiu algum padrão de atuação deliberada.
Salvador: Justiça determina frota integral
Em Salvador, o Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA) determinou o restabelecimento imediato de 100% da frota prevista para os dias úteis, com frequência equivalente à operação normal e gratuidade para os passageiros.
A decisão estabeleceu multa de R$ 1 milhão por hora de descumprimento para a prefeitura e para cada empresa responsável pelo transporte coletivo.
A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, havia denunciado uma redução superior a 50% na circulação. Durante fiscalização, o Procon-BA encontrou 55 veículos parados na garagem da empresa OT Trans, embora estivessem aptos a circular.
A Justiça Eleitoral chegou a determinar a prisão do secretário de Mobilidade de Salvador, Pablo Souza, após pedido da coligação relacionado ao descumprimento das medidas determinadas para garantir a circulação dos ônibus. Ele se encontra em Paris.
São Paulo: frota ampliada, mas relatos de longas esperas
Na capital paulista, a campanha de Lula denunciou que apenas cerca de 60% da frota estaria circulando, apesar de determinação judicial para a operação integral dos veículos previstos para os dias úteis.
A decisão, tomada na sexta-feira (23), estabeleceu multa individual de R$ 100 mil ao prefeito Ricardo Nunes (MDB) e ao presidente da SPTrans em caso de descumprimento injustificado.
O planejamento previa 6,9 mil ônibus em circulação, número 40% superior ao de um domingo convencional. Mesmo assim, eleitores relataram longas esperas em regiões como Itaim Paulista, centro, avenida Paulista e zona norte.
A SPTrans alegou dificuldades para mobilizar trabalhadores em prazo reduzido.
O que precisa ser esclarecido
A investigação deve identificar os responsáveis pelas reduções, verificar eventuais descumprimentos judiciais e apurar se houve articulação entre os diferentes episódios.
A comparação com 2022 é um alerta para o risco de coordenação política. Mas, diante de denúncias que atingem cidades com 15,5 milhões de eleitores, o caso exige respostas.
Em uma eleição apertada, dificultar o acesso ao transporte público pode comprometer o exercício do voto. Se houve ação deliberada para restringir a participação eleitoral, os responsáveis devem ser identificados e responsabilizados.




