A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 1
Marcello Ricardo Almeida
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Noite de verão
Carnaval – humaniza o ser humano – caracterizado em
festa mítica por excelência; onde os seres élficos tornam-se
personagens usando máscaras que representam a magia
ocupando o lugar da realidade. O brilho cintilante desses
carnavais remedia a realidade; remediar situações é sempre
remediar situações; numa peça de Shakespeare, Puck tenta
fazê-las, remediando-as, e o afeto e as afeições nem sempre
coincidem.
Uso de máscara torna-se peça habitual aos povos no
mundo; máscara veio e não vai mais cair em desuso porque faz
parte da vestimenta comum. Santana e os velhos carnavais na
linguagem da representatividade teatral e o uso de máscaras
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como em “Sonhos de uma noite de verão”. Em si, a maioria das
festas é carnavalesca e, às vezes, dionisíaca.
E “Sonhos de uma noite de verão”, numa celebração
carnavalesca, Lisandro quer Hérmia, esta quer aquele,
querendo depois Demétrio, uma preferência de Helena; em
seguida, Demétrio aceita Helena, por ele correspondida, mesmo
desejada por Lisandro, amado por Hérmia. A peça do
dramaturgo inglês é uma festa, uma celebração à comédia
humana.
Santana e os velhos carnavais aos brincantes e
brincadeiras de Pierrô apaixonado por Colombina, esta prefere
Arlequim. Eterno retorno à simbologia quer do teatro
elisabetano, quer dos mitos em diferentes etnias.
Essa mitificação da festa preserva a história dos povos. E
segue o vaqueiro à roça, como está escrito em versos do poeta,
e o sol surge de repente. Nas praças surgem voos livres de
pássaros, nas cidades praças e o amanhã das árvores: pulmões
no mundo – cantam os passarinhos. A manhã de cada ave
depende das folhas, depende das árvores. Não há cidades
rizomáticas quando não há memória. A história da cidade, seus
carnavais no vir a ser o Instituto Lítero-Geográfico, Histórico e
Artístico de Santana.
Chegam os turistas à cidade com perguntas sobre a
história, os prédios antigos, as praças, as pedras de calçamento.
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Os registros instantâneos nas câmeras dos visitantes a Santana.
Nesse casarão, no Monumento, abrigo memorialístico; neste
bairro, nessa rua, testemunhos de muitos blocos, escolas de
samba. Na Camoxinga, os turistas encontram outros fatos
históricos. Em cada parte, na cidade há um local turístico.
Teatro presente nas festas carnavalescas se repete ano a
ano. Os casamentos que são celebrados entre os foliões e as
folias estão demonstrados com as diferentes ações e atos
dramatúrgicos, atos com tanta comicidade revivida a cada
época, numa verdadeira Commedia dell’Arte.
Esse espírito travesso do Carnaval simbolizado nas
personagens shakespearianas. Nessa comemoração à alegria,
que é o Carnaval, Puck, que aparece em “Sonhos de uma noite
de verão” é um brincante que faz travessuras. Essa personagem
de Shakespeare se encarrega de assegurar a permanência na
peça de fazer se apaixonar por quem estiver à sua frente,
mantendo viva a alegria em foliões e seus passos, suas danças,
no riso, nas máscaras, nos frevos, no maracatu, nas marchinhas
e variações rítmicas do samba.
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João Urso na escola
Entre os gêneros literários, o conto destaca-se desde a
origem dos tempos com temas peculiares. A peculiaridade está
presente no contista da loucura na rua dos lampiões apagados.
Mesmo longe do Formalismo com os seus estudos da linguagem
poética que precede ao Estruturalismo com as suas abordagens
em áreas distintas adaptadas na leitura trazida à estrutura da
obra literária e, finalmente, o devir que respira o Pós-
Estruturalismo com a sua análise plural do texto literário.
Apresenta Breno Accioly (1921-66) na galeria ficcional
personagem João Urso.
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Barroco e Parnasianismo estão presentes em Breno
Accioly. Se dedução resulta das certezas interpretativas do
próprio raciocínio lógico, indução colhe casos que se
assemelham e chega-se a uma certeza. Esta certeza da
presença do estilo literário de Breno unindo mundos literários
distintos/distantes encontrasse em “João Urso”.
Ele é resultado da região e suas variações diatópicas,
históricas e sociais portanto diastráticas nas quais está inserido
o sertão. Esta geografia é berço da galeria ficcional onde são
agasalhadas as personagens das quais se destaca a sua
personagem-matriz (João Urso) de mãos pequenas e olhos
espremidos por bochechas gordas no universo descomunal da
cabeça que enxerga Santana por uma das janelas, no sobrado
defronte a igreja da padroeira do município.
Na rua de lampiões apagados, o contista da loucura abriga
este João Urso com tardias correntes literárias europeias com o
formão do Barroco (1580) e as tintas do Parnasianismo (1882).
Contando a tragédia da infância num misto de barroco e
parnasianismo.
Barroco caracteriza-se com a estilística retórica
alimentada por antítese, vive a mistura de opostos. Possui
caráter de pedra irregular. Luz, sombra, tensionamento entre
teocêntrico/antropocêntrico, presença de solidão e agonia. O
mundo barroco é representado por água, relâmpagos, nuvens,
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morte. Buscasse rebuscar à sua escrita e abusa-se do paradoxo
com esta e outras figuras de pensamento, a exemplo da ironia,
hipérbole e gradação; estes são os recursos fonológicos que,
valorizando os sons, oferecem relevo fônico à criação literária.
Parnasianismo está representado principalmente em
sonetos. Caracteriza esta corrente pela busca de perfeição
formal. Uma criação literária parnasiana é detalhista e ambienta
a criação ficcional com descritivismo. Há presença da arte como
sinônimo de beleza. Usa a figura de construção (polissíndeto) e
intensifica o discurso com repetições. O espaço onde
personagens transitam apresenta-se com a força das artes
plásticas. Soneto é esta forma fixa de poesia: Silêncio/Os
livros/Dormem/Agora//Entre as................/Gôndolas/na
estante/Silêncio//Deixa/O livro/Dormir//Seu sono/De
livro/Silêncio.
O soneto em “João Urso” não está de corpo e encontra-se
de alma. Personificado em seu suplício ao ter que decorá-lo
como forma de castigo sobre um tamborete.
Autor de “João Urso” colhe no barroco visões divergentes
entre o sagrado e o profano, a loucura e a sanidade. Exagera
segundo regras estéticas barrocas. Faz a sua própria tinta com
as misturas complexas de sentimentos, de figuras, rebusca a
linguagem ao gosto da crise pós-Renascimento, nega a
simplicidade da renascença. É hiperbólico, metafórico. Em sua
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tela, há exagero nas gargalhadas de João Urso causando a
morte da equilibrista no circo mambembe que aparece em
Santana.
No segundo estilo – talvez legado inconsciente nas lições
de sua professora Zefinha? – ressurge a velha linguagem
rebuscada, detalhes no espaço de personagens. Cientificismo e
alienação social presentes nos espaços de João Urso.
Na filologia das serras. Onde pedras dormiam. Surgiram
trovões senis. Fugiram de relâmpagos. Angústias represadas.
Em terços e ave-marias. Era o próprio João Urso. Se repetindo
em sonetos. Em pé em um tamborete. Ali, olhando à palmatória.
Presa às mãos da mãe. Viajava no rito de castigo. João Urso
gargalhando. Gargalhadas terríveis. Estremecendo Santana. E
eram tantas e repetidas. Por elas caiu e morreu. Uma equilibrista
do circo.
Lê-se no gênero textual narrativo curto que apresenta
Santana ao mundo literário: aquelas gargalhadas em João Urso
vêm como explosões incontroláveis – sem a presença
simultânea do choro – como se identifica no Coringa dos gibis,
que sofre de Síndrome Pseudobulbar. Este cientificismo que
demarca o território, em João Urso, fracassa; a capacidade da
Ciência não o devolve a Santana livre daquele riso provocador
que evolui a gritos apavorantes e loucas gargalhadas.
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Considerando a qualidade do contista de Santana, a
Educação Básica ao ler “João Urso” consegue aproximar o aluno
dos contos “João Urso” (EPASA, 1944). Estreia do santanense
no Rio de Janeiro com as suas narrativas ambientadas no
sertão.
Como crítica literária, a literatura na escola consegue, por
exemplo, ouvir a opinião do aluno e este a dos colegas. Talvez
aprender sobre o desconstrutivismo promovendo o surgimento
de novos contistas santanenses.
E assim os conceitos de forma e estrutura apontados ao
se ler os clássicos na escola ou fora dela sejam ajustados ao
Desconstrutivismo. Este oferece plural interpretação na leitura
do texto.
Assim seja popularizado aos alunos nas escolas
santanenses o pluralismo com a leitura de “João Urso”. A
multiplicação de significados ocupa as salas de aula físicas ou
virtuais. Esse ato de ler literatura segue enriquecendo
culturalmente Santana e outros lugares.
“João Urso” no currículo escolar aproximando o aluno das
competências da Base Nacional Comum Curricular. “João Urso”
e decerto outros textos literários escritos por diferentes autores
refletindo a complexidade que se apresenta no dia a dia e
modifica-se historicamente, como se sabe.
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Na escola pragmática, o processo sistemático da
educação formal precede à leitura do texto literário. O currículo
na concepção do aluno está associado à disciplina estudada na
escola pela orientação do professor, recomendada pela escola,
regulamentada pela legislação educacional.
Apesar do senso comum, currículo escolar na concepção
da sociedade, basicamente, é formar o aluno em seu
desenvolvimento como cidadão para atuar na sociedade, no
trabalho, na família, na religião etc. Currículo como meio que o
aluno apreenda leitura, escrita e cálculo.
Formalismo, estruturalismo e pós-estruturalismo em “João
Urso” na escola da pós-modernidade permitindo ao aluno ler
literatura e ouvir dele a opinião sobre a cidade. O texto literário
é um enigma a ser desvendado pelo aluno que lê? A escola
concede ao aluno que a leitura de literatura seja lida em
diferentes prismas; assim se oferece ao aluno na escola em
Santana a liberdade das significações.
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Feliz Natal
Havia gente que, independentemente dos tratados
sociológicos e os seus conceitos, se presentificava na memória
por gerações, a exemplo do mestre Hermídio. Por que a lenda
supera a história, a Antropologia ainda não possuía respostas.
E, porque você simbolizava em Santana a festa que se repetia
todo ano, Feliz Natal mestre Hermídio Firmo, que figurava como
símbolo do Natal em Santana desde a infância de Breno Accioly.
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Diante de casa, hoje e sempre, o mistério da fé. Na festa
de Natal todo ano se repetia o mistério da fé. Nada se concluía
se caso não houvesse o mistério da fé.
Aquele contista da loucura na rua dos lampiões apagados,
nas ruas do Recife, lembrava-se do artesão preso à sua infância.
Encaramujado Rodin sertanejo, e ele era ao mesmo tempo
amplo quais afluentes que engordavam a bacia amazônica,
casmurro em seu dom no interior de sua casa, artista cercado
pelos mistérios de sua arte em madeira quais enigmáticas
pirâmides representando a morte. Isto oculto na cabeça das
crianças – à época de Breno Accioly – mestre Hermídio dando
vida a bonecos inanimados.
Na escritura memorialística de Accioly, meros bonecos de
madeira e mola, na casa do mestre Hermídio, criavam de
repente vida, pulavam da memória à narrativa ressignificando
personagens que lembravam contos de Edgar Allan Poe e H. P.
Lovecraft, um misto da poesia de Augusto dos Anjos e Ascenso
Ferreira. Santeiro Hermídio Firmo, vindo não sei de onde, firmouse
em Santana, repetindo a cada ano os mistérios da fé no
presépio quando o Natal era festa na alma de crianças;
presentificando na infância do povo e nas gerações vindouras
imagens do eterno retorno tantas vezes requentado por
Nietzsche.
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Santana. Sertão. Marcado pelo ritmo do sino da
lembrança, divisava-se um fantástico parque coberto de
inimagináveis cores. Alguém perguntava pra onde iam correndo
tantas crianças. Seriam filhos de presépios do mestre Hermídio?
Iam aos apertados abraços dos pais, os quais inimaginaram
parque de arquitetura e de engenharia curiosas. Inusitados
brinquedos, e eram muitos bonecos vivos; um deles, um besouro
cujas asas mexiam-se iluminando a cidade. Naquele lugar
mágico (a casa de Seu Hermídio), a vida no semiárido extraída
das árvores, dos frutos e dos pássaros falava: Quem eles eram?
De onde vieram? Aonde iam? Cheios de simbolismos, os galhos
retorcidos e secos das árvores levavam as crianças e os pais ao
presépio do mestre Hermídio, onde Santana era diferente ante
os olhos pasmos das crianças e dos pais presentificando o
menino Jesus, a virgem Maria, São José, a gruta, a manjedoura,
as ovelhas e o boi, o galo e o burro, a estrela de Belém e os
pastores, os reis Magos. Não foi recriada a roda-gigante
tampouco a montanha-russa, carrossel, o tiro ao alvo, as
pescarias; as crianças descobriram um mundo mágico nos
presépios de Seu Hermídio.
Accioly compôs em sua narrativa em prosa poética acerca
da alma do povo de seu tempo. Espécie de Feliz Natal mestre
Hermídio Firmo para que isto se perpetuasse por gerações.
Porque sem alma quaisquer cidades não se sustentavam; alma
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associava-se ao pensamento, a sensibilidade, ao que afetava as
relações sociais.
Mestre Hermídio capturou a alma do povo como artesão
como Hegel demonstrou na “Fenomenologia do Espírito” o que
representava a subjetividade. Os presépios do mestre Hermídio
representavam em Santana o que Geist representava na obra
de Hegel.
Tudo isso era como se Geist, após todos esses anos desde
o milênio passado, se presentificasse revivendo o já vivido: Veja
a manjedoura, é dezembro iluminado, agora há luz no estábulo;
canta a canção de Natal; há luz na manjedoura, Jesus menino
nasceu; ao nascer, Jesus recebe três visitantes ilustres, com três
presentes reais; pinheiro plantado no Natal dá presentes o ano
inteiro; no Natal, o grilo na palha louvou Jesus rei dos reis,
cantou canção de Natal; há luz na manjedoura; Jesus menino
nasceu.
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Pasárgada também pertence a mim
Às vezes nas quais a escola em Santana se aproxima da
poesia, a poesia aproxima-se da escola em Santana. Atribui-se
ao poeta português, autor de o “Livro do Desassossego”, a
opinião sobre a trova quão vaso de flores cujas casas na cidade
expõem à janela da alma.
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Em Santana arrisca-se dizer que o aluno é capaz de
escrever uma trova, este poema em redondilha maior de quatro
versos populares. Quando aluno do Grupo Escolar Padre
Francisco Correia, nas aulas da professora Marinita, aprendiase
sobre a importância da leitura de literatura.
À época de aluno do Ginásio Santana, escrevi na capa do
caderno de língua portuguesa: Pasárgada pertence a tantos. Ela
também pertence a mim? Não reivindicarei Pasárgada. Hoje a
TV reprisa Rin-Tin-Tin.
Fruição literária nas escolas em Santana cabe ao tipo de
currículo adotado. A intertextualidade sobre a Pasárgada
manuelina é apenas exemplo de trova. Para além do exemplo
da fruição literária nas escolas santanenses, vale salientar que
quase sempre se adota nas escolas a teoria tradicional do
currículo.
Ao se reconhecer, porém, que a humanidade se acaba
com o fim da fantasia, busca-se na fruição literária o elixir que
mantém viva a fantasia e, por conseguinte, mantém viva a
humanidade (o ser humano). Há um pêndulo entre a fruição
literária no exercício escolar e os tipos de currículo.
A prática pedagógica longe da dialética é antiprática
pedagógica. Conhecimento prévio é fundamental à prática
pedagógica; ignorar o conhecimento prévio é ignorar a própria
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prática pedagógica. Na aprendizagem não há erro, o que há é
vontade em aprender.
Educação formal existe como exercício de imaginação e
descobertas. Como refletir sobre a compartimentalização na
escola do que se ensina como conhecimento na teoria
tradicional do currículo na Educação Básica? Além da teoria
tradicional, há teoria crítica e pós-crítica.
O aluno em geral está circunscrito pela teoria tradicional
do currículo, mas reage à pós-modernidade mesmo que ele não
consiga conceituá-la. O aluno quase sempre não consegue
escapar das significações da escola na pós-modernidade.
Ausência da transdisciplinaridade ao aluno nos ensinos
Fundamental e Médio, apesar de o aluno reagir com algum malestar
à realidade na escola, ele tem dificuldade em identificar o
que lhe causa mal-estar ao ser classificado pelas provas.
As provas, os testes, os exames na escola quase sempre
são escorregadios; currículos – real e oculto – ocorrem
concomitantemente durante a aula. O que existe é o currículo
prescrito e a partir deste, ele sofre segundo a aula do professor
que manifesta os currículos (real e oculto) durante o seu trabalho
pedagógico na escola.
Cumpre seu papel curricular quando chega à hora das
avaliações escolares de larga escala? Em breve vender-se-á em
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lojas de departamento fantástico software; este com programas
cuja própria máquina, e não mais a pessoa, escreverá o
romance, o conto, a crônica e a poesia, o ensaio, o tratado, a
novela e a aula, por exemplo. Mas há uma pergunta: Quais
caminhos são percorridos pela escola para que o currículo
adotado alcance os efeitos que se desejem?
O que exatamente quer dizer a palavra currículo escolar
com todos os seus meandros? Fala-se na estrutura curricular na
escola como essencial e sem ela não há escola ou há tão só
improviso. O estruturalismo na grade curricular lembra o
estruturalismo do Modernismo quando o caixeiro-viajante
kafkiano acorda de noite intranquila e percebe-se
metamorfoseado num inseto estranho.
Muitos teóricos em leitura de literatura defendem a ideia de
que a poesia não pode existir sem a linguagem. Nas escolas de
Educação Básica, a pós-modernidade exige do aluno esforço
criativo e este se encontra na curiosidade epistêmica do querer
saber; se sabe pelo espanto na manifestação do pathos
filosófico quando o aluno demonstra o seu querer pelas
aprendências. E é por isto que, às vezes nas quais a escola em
Santana se aproxima da poesia, a poesia aproxima-se da escola
em Santana.
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Na turma
Entre estas duas tipificações pedagógicas (apriorismo e
empirismo), a garantia do direito do aluno à aprendizagem ainda
era a construção dia a dia do conhecimento no ambiente escolar,
cientificamente construído. O grande desafio na docência era
não improvisar a aula. A Base Nacional Comum Curricular
(2017) contribui para o bom planejamento das aulas. Segundo a
legislação (LDB, artigo 13, inciso III), a incumbência de zelar pela
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aprendizagem dos alunos ainda era do professor. Muitas línguas
eram faladas no processo de aprendizagem.
As línguas, as mais diversas, influenciaram, naturalmente,
os sotaques. Quaisquer lugares em quaisquer países e em
qualquer região desses países havia um sotaque peculiar. O
principal entre todos os sotaques ainda era a educação formal
sistematizada sob a orientação de uma metodologia exitosa ao
trabalho de quem se propusesse a ensinar e a quem se
propusesse a aprender. Em Santana houve a Turma do Oitavão.
O determinismo e a vida coincidem com rotinas sala de aula no
ginásio surge Turma do Oitavão na educação se ilumina Teatro
Augusto Almeida cem alunos no oitavão na Princesa do Sertão
– há entre vida e destino expectativa de liberdade pedidos
proteção divina segue vida livre-arbítrio ditando diferentes sinas.
Efeméride sobre a educação no sertão. Na voz da época:
em 1978 quando cem alunos foram matriculados na oitava série,
e estudando na mesma sala de aula, era incomum, pelo número
de alunos, a sala de aula ficou conhecida por Turma do Oitavão
(na sala que havia sido o Teatro Augusto Almeida); era o último
ano do Primeiro Grau, no Ginásio Santana. Construído em um
dos mais valorosos edifícios da memória, o prédio histórico
abriga hoje o Colégio Cenecista Santanense. As questões na
contemporaneidade eram resolvidas pela assimilação da
História.
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A aprendizagem sempre ocorreu como uma espécie de
transmutação no processo que constrói essa aprendizagem. Era
inegável a importância do planejamento de ensino, o
planejamento de aula.
O êxito no ensino e na aprendizagem devia ser regra e não
exceção. No trabalho pedagógico, entre paradigmas aprioristas
(porque se achava que o processo de aprendizagem ocorresse
anterior à experiência) e empiristas (porque se achava que o
processo de aprendizagem ocorresse pela experiência), a
metodologia ainda era a parte fundamental em salas de aula
para que houvesse êxito no ensino e na aprendizagem.
Na construção do conhecimento, ainda era de
responsabilidade da pedagogia fazer escolhas. Como
normatizava a legislação sobre a incumbência do professor de
zelar pela aprendizagem dos alunos. Ao final do percurso era
possível concluir que não havia educação formal sistematizada
sem que não houvesse superação do apriorismo pedagógico e
do empirismo no planejamento de ensino.
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Sertão fértil
A aula, ao se falar pela voz da crônica na
contemporaneidade, não é monólogo, mas participação; é
cumplicidade nas relações pedagógicas entre quem se propõe a
ensinar e quem se propõe a aprender no processo comum à
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educação. Aula é a distribuição ou a partilha de algum
conhecimento (saber).
E o sertão é mais; não apenas o que se apreende na
escola. Sertão não se caracteriza apenas na maior extensão
geográfica entre as quatro sub-regiões nas quais se encontram
os Estados nordestinos. Sertão é uma mesa alta repleta do brilho
de livros de literatura.
Sertão fértil em escrita criativa. Nessa mesa alta chamada
sertão fértil em escrita criativa, sustenta a mesa “Os Sertões”
(1902), de Euclides da Cunha (1866-1909); “O Quinze” (1930),
de Rachel de Queiroz (1910-2003); “Vidas Secas” (1938), de
Graciliano Ramos (1892-1953); “Grande Sertão: Veredas”
(1956), de João Guimarães Rosa (1908-67). Estes que
sustentam essa mesa alta chamada sertão são alimentados pela
estética literária que os precede.
Educação e poética são exercícios de imaginação e
descobertas. A escola em Santana é convidada a refletir sobre a
compartimentalização do que se ensina como conhecimento na
teoria tradicional do currículo que está presente na Educação
Básica.
O aluno santanense reage à pós-modernidade mesmo que
ele não consiga conceituá-la. Ele não consegue escapar de suas
significações.
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Memorização de conteúdos em detrimento a habilidades e
competências ao se apropriar o aluno do saber? Ausência de
transdisciplinaridade na Educação Básica no enredo da
violência simbólica – alusão a Bourdieu (1930- 2002) – que,
apesar de reações recorrentes ao mal-estar à realidade na
escola, faz o aluno ter dificuldades em identificar o que lhe causa
mal-estar ao ser mais um no sistema classificatório das provas.
Transdisciplinaridade na escola da pós-modernidade, pois
o aprender coletivo implica em ritmos heterogêneos e
tolerâncias às limitações e ansiedades presentes no processo
de aprendências. Quem vai à aula sabe de seu conhecimento
para distribuí-lo; não cabe arrogância de quem sabe, tampouco
desdém de quem não sabe.
Considerando refletir sobre a transdisciplinaridade e
violência simbólica na escola da pós-modernidade, o olhar voltase
à pergunta: Quem faz as regras na escola? Quando algumas
pessoas na escola se dizem mais iluminadas se comparadas às
outras, o palco da escola deixa de ser o palco de todos.
O currículo escolar perde a dinâmica necessária quando
lhe é arrancado toda e qualquer possibilidade de emancipação.
Como se emancipar pelo currículo amordaçado?
Os que estão distantes da escola podem ver a sua luz.
Essa luz a iluminar a escola está na escrita criativa de seus
alunos. Se a curiosidade é a química do filósofo, a imaginação é
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a forja do poeta. A curiosidade e a imaginação são os esteios de
uma mesma ciência (saber).
É a escrita criativa quem salva o aluno na escola da pósmodernidade.
E o sertão no qual se encontra Santana é fértil em
escrita criativa.
“Os Sertões” brilham na prosa euclidiana. E brilha o sertão
com Rachel ao escrever “O Quinze”, e “Vidas Secas” iluminam,
e ilumina a escola “Grande Sertão: Veredas”.
O dia em que a escola descobre que o lugar da lâmpada é
sobre a mesa e não sob a mesa, a escola ilumina cada aluno
próximo à mesa. Ilumina também a escola a todos os que estão
longe da escola e veem de longe a luz da escola.
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Sete palavras e um destino
No convívio da escola, o sertão reinventa-se. Se os textos
literários são caminhos humanizadores, o papel do aluno que lê
e escreve vai mais longe. Aprende-se que o poder da fabulação
é o poder cultural entre os seres humanos, considerando que os
afetos da fábula estão presentes nas relações humanas.
O bom na escola resiste ao emitir juízo de valor sobre a
literatura. O mau hábito é não desenvolver no aluno a
capacidade de apreender, tendo como meios básicos, como se
encontra na legislação, o pleno domínio da leitura, da escrita e
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do cálculo. O feio ocorre ao não zelar pela aprendizagem do
aluno.
Função poética da linguagem nas escolas qualifica o
processo pedagógico. A escola ao motivar a leitura de texto
literário, motiva-o por reconhecer que afeta, humanizando as
relações humanas, a boa convivência escolar.
Importante a leitura de textos literários nas escolas em
Santana; figurando-as por exemplos ao zelo às atividades de
leituras de literatura, extensivos exemplos a quaisquer escolas
em qualquer lugar, quanto à importância de leituras de literatura
na escola. Nos Anos Finais (do 6º ao 9º), no Ensino
Fundamental, há sete palavras e um destino nas escolas em
Santana à leitura de literatura:
1) Literariedade que se traduz no termo da crítica
formalista literaturnost, ao analisar a estrutura textual,
cujo significado é o de criar estranhamento ao texto
literário;
2) Conotação presente nas figuras que permitem
elasticidade estética ao texto na literatura;
3) Caráter atemporal que coincide ao estilo fabulatório
narrativo cuja evidência afeta as pessoas
humanizando as relações humanas;
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4) Ficcionalidade encontrada nas transfigurações
presentes nas tramas textuais de ficção apartadas de
vida real e por ela aceitas;
5) Verossimilhança (ambiguidade do que é verídico) esta
é rótula indispensável ao texto ficcional, porque não há
de se falar em literatura sem o sentido de verossímil na
ficção;
6) Subjetividade é outro caráter do texto ficcionalizado na
literatura;
7) Intertextualidade é o papel que cede à tinta para que
diferentes textos ficcionais se comuniquem entre si em
sintonia literária.
Em Santana, a exemplo de outros lugares, a motivação à
leitura de literatura cabe aos tipos curriculares encontrados na
escola. Para além da teoria do currículo, o tipo de currículo
adotado é responsável por impulsionar o aluno à leitura de
literatura.
O tipo formal de currículo está em consonância com uma
base comum curricular; o tipo informal de currículo está em
concordância com algum clube de leitura na escola ou a hora do
poema. O tipo nulo coincide com advertências encaminhadas
aos pais/responsável pelo aluno, referentes ao seu
comportamento inadequado em aula. Se o tipo real de currículo
está em conformidade com os planos diários do professor
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visando atividades de aprendizagem e não de ensino; o tipo
oculto de currículo está de acordo, no início do ano letivo, de o
professor realizar prognóstico alegando que 50% dos alunos na
disciplina reprovam, e enfatiza assim o aluno fraco e o forte.
Tipos curriculares são fatores de influência ao aluno que
não lê e ao aluno que lê. Estão implícitos nessa motivação à
leitura de literatura os fenômenos escolares, além dos biológicos
e mesmo dos emocionais. É como se diz, o papel do aluno que
lê vai mais longe.
A escola que motiva o aluno a ler é a escola que recria a
pedagogia poética sertaneja; e nela assegura a história literária
do município santanense com imagens de seus artistas e seus
textos literários. Assim, cada uma das escolas em Santana
sabendo, avizinha-se à aula tributo à poética e inaugura talvez
idêntica sala em sua escola; e as escolas em Santana renovam
os seus paradigmas com sete palavras e um destino: função
poética nas escolas em Santana.
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Marcello Ricardo Almeida
À volta ao Spaghetti
Há meio século, na única sala de cinema em Santana,
estreia “À volta pela estrada da violência” (1971), de Andrade. O
conteúdo sob demanda no Cine Alvorada, que não existe mais,
é revistado no smartphone; o filme é revisto por streaming
(conteúdo on demand). É a migração do cinema analógico ao
digital. Cidade é um lugar de lembranças; Cine Alvorada, em
Santana, representa o lugar da sétima arte à memória da cidade
sertaneja; nas paredes da sala do cinema os desenhos traçados
com simbolismos culturais: a história viva, uma exposição
artística permanente.
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Movie bluetooth now: o Cine Alvorada agora cabe na
palma da mão; cinema transfigurado; e tudo agora é smart:
movie bluetooth now; informações múltiplas no mover das
pálpebras; amanhã: filme na retina.
Linguística é uma das ciências que estuda a verbalidade
entre os povos. O cinema, ao internalizar a semiótica, e por meio
de signos fílmicos, diverte as massas com o que, – para
Saussure é a langue (língua: sistema linguístico comum) e a
parole (a fala de cada pessoa) nos fenômenos psicossociais, –
a fala e a língua capazes de mostrarem ao povo algo que outra
arte não alcança.
Cinema faz-se por imagens e sons: arte imagética criada
por quadros e planos nos quais objetos e personagens se
mostram. Cinéfilos em Santana, vendo o cinema de Hawks,
Peckinpah, Leone, por exemplo, conhecem o cinema com a
estreia no Cine Alvorada do longa-metragem “À volta pela
estrada da violência”.
No mais distante torrão, as corujas soltam ruídos; um pano
sendo rasgado; a noite chega ao Sertão; param casas de
farinha, as moendas não moem; logo descem das serras tropéis:
cavalos velozes; no silêncio da noite: canto dos carros de bois;
e nessa hora o cinema constrói o voo das aves, os mundos
possíveis.
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Alguns planos na obra cinematográfica reconstroem o voo
das aves. No plano geral aéreo, “À volta pela estrada da
violência” (prêmio Coruja de Ouro, 1971) há um grupo a cavalo
de winchester em punho que circunda uma praça defronte à
igreja no centro da cidade, desce a R. Barão do Rio Branco em
direção ao Panema e atravessa a ponte nova dialogando com
“Rio Bravo” (1959), de Hawks, no plano em que ele mostra
quando chega à cidade o bando do fazendeiro Burdette.
Atribui-se ao crítico Bazin a caracterização do gênero
western estadunidense como gênero cinematográfico por
excelência. O texto cinematográfico preenche as lacunas de
fatos com lendas. Mitologia, em seu caráter sociológico, trata-se
de narrativas ritualísticas nas quais se perpetuam reverência aos
deuses, semideuses e aos heróis.
Cinema Novo (1950) é uma resposta brasileira ao cinema,
é a sua dialética à sétima arte; complemento ao que o
antropofágico representa à Semana de Arte Moderna (1922).
Este gênero mítico, western-spaghetti em Santana com “À volta
pela estrada da violência”, começa em 1903 com o princípio do
western em “The great train robbery”. Com a disseminação do
celular que se multiplica em “Cineastas à vontade”, cabe às
escolas a criação de clubes nos quais se propaguem diálogos
sobre espaço e tempo presentes na sétima arte e amplie-se o
currículo escolar tão classificatório e excludente.
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E quase todos possuem uma câmera na mão; um sonho
sonhado por Glauber Rocha torna-se cinerrealidade; é o fim do
velho cinema no letreiro fine, the end no cinema em Santana;
cada qual sua câmera (conversa, filma, publica, compartilha à
vontade); tempo dessemelhança, e o Cine Alvorada agora existe
só na lembrança.
O tempo em movimento chama-se cinema. Numa sala, em
setembro de 1971 “À volta pela estrada da violência” rodado em
Santana, Maravilha, Atalaia, Pilar e Maceió; set de filmagem e
externas entre o Agreste e a Zona da Mata. E, nesta região,
personagens fictícios armados correm em uma parede de arcos,
familiarizam-se ao filme de Peckinpah, “The Wild Bunch” (1969),
quando personagens armados surgem na parede de arcos, no
reduto de Mapache.
Um destaque, durante as locações, é a sombra dum
cavaleiro girando refletido numa poça d’água. No filme, Geracina
é personagem que conduz argumento e roteiro; a protagonista
lembra a mãe no início de “The Godfather Part II” (1974), dirigido
por Coppola. Geracina personifica a figura ontológica no teatro
épico brechtiano e no cinema ópera de Coppola; uma mãe que
interage com a ambiciosa e trágica Lady Macbeth, de
Shakespeare.
Intertextualidade do filme em cartaz no Cine Alvorada
aproxima-se daqueles dirigidos nos estúdios Cinecittà. Filmes
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produzidos naqueles estúdios permitem a Leone e a outros
realizadores recriaram o gênero que se notabiliza como westernspaghetti
faz Santana ver o seu filme que representa o Far
Santana West; e nas ruas o seu povo, a sua gente no telão: no
fórum, diante dos degraus da igreja pessoas em torno do
semovente que traz nos caçuás os filhos de Geracina; e os
santanenses ouvem Geracina à maneira do teatro épico
brechtiano, à maneira do cinema ópera.
Palavra não faz poesia; poema é objeto de arte, objeto
linguístico feito cada efeito Eliot. Quem é tia Salete? Não é tia
Salete, é T. S. Eliot... Que faz da palavra cinema mudo, que faz
Leone fazer western-spaghetti e faz Santana ver nas ruas de
pedras, nas ruas de poeira o seu filme “À volta pela estrada da
violência.”
Em Santana cheia de casas, cidade cenográfica de luz,
cinematográficos candeeiros também fazem cinema ao luar. A
época da realização de “À volta pela estrada da violência”
dialoga com a época do western-spaghetti nos estúdios da
Cinecittà. Leone e outros renovam o gênero western nos
estúdios da Cinecittà; é equivocado o prefixo de subgênero
usado ao se referir ao mítico gênero western que atravessa o
Atlântico e renasce na Itália com Leone e outros realizadores.
Mimésis não reaparece em Aristóteles, na “Poética”?
Cineastas reinterpretam a própria arte. Leone comunica-se com
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Kurosawa, há entre Eastwood e Leone comunicação, a
comunicação se reconhece entre Tarantino e Corbucci. O Cine
Alvorada, em Santana, exibe “Città Violenta” (1970), com direção
de Sollima; “Il Grande Silenzio” (1968), dirigido por Corbucci;
“Per un pugno di dollari” (1964), na direção de Leone. Sob as
cores da retina: A arquitetura na cidade nem sempre é abismo;
e o senso do inacabado é parte da modernidade; nem sempre
retinas veem os significados simbólicos; o princípio unificador na
palavra é a poesia; e tudo é elipse e se fragmenta; Santana
prisioneira existe na paisagem.
Há parte no filme que parece haver menção a “Deus e o
diabo na terra do sol” (1964), de Rocha, que trabalha com
figurantes onde se constroem as filmagens. Outro cineasta que
trabalha com figurantes nas locações, a exemplo de “Medea”
(1969), é Pasolini – e Geracina, em diferentes aspectos, faz
lembrar “Medea”, de Pasolini.
Música-tema do gênero western-spaghetti, sob a batuta de
Morricone, é outra crônica à parte. Música-tema e título do filme
referenciam westernspaghetti dos Sergios Leone, Sollima e
Corbucci, também referências de Castellari, Damiani, Baldi,
Tessari, Rossetti, Valerii, Petroni, Santi.
É a memória quem preserva a história. Gerações que
sucedem gerações, no espaço e no tempo do ex-Cine Alvorada
testemunham o filme “À volta pela estrada da violência”; outra
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geração usa o celular e vai mais longe por meio de registros
audiovisuais, nas redes. O fenômeno do bangue-bangue à
italiana que influencia Presley, que inclui no elenco o ator ítalobrasileiro
Steffen, chega a Santana; e assim se fotografa uma
época de cinema analógico possível revê-la numa plataforma
digital: “À volta pela estrada da violência”: western-spaghetti
realizado em Santana.
Pedagogia com podcasts
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E a cada semana a crônica de novos escritores a convite
da escola. E, assim, em Santana, a escola exercita pedagogia
com podcasts, escritores, gramáticas, literatura e Suas
Excelências Leitores.
A transmigração dos sonhos representados na educação
escolar vai mais longe com a leitura de Suas Excelências
Leitores. Há gramáticas, ao se estudar Travaglia, porque se
encontra além da gramática teórica, que se associa aos estudos
linguísticos na busca de como a língua funciona, a gramática de
uso que se aproxima do discurso cotidiano, e também a velha
gramática normativa cujos estudos são voltados à norma culta
da língua, ao padrão da língua sem se ater às variações
linguísticas.
No silêncio do universo, onde os astros navegam,
misteriosas existências vivendo diferentes vidas feito vida
diferente vive nesse mundo conhecido; e em Santana essa hora.
Há bilhões doutras vidas vivendo vários mundos, diferentes
mundos vivos como há minúscula vida nesse mundo conhecido;
tantas vidas há por hora celebradas e esquecidas. “Importante é
ser feliz” cantam as lavadeiras, enquanto roupas lavam num
Panema imaginário onde só inexiste água, cantam as
lavadeiras: “Tudo se justifica, “felicidade, “os dias e a vida,
“felicidade, “no alimento e no sono, “felicidade, “na música e nas
festas, “felicidade, “no trabalho e nas ruas, “felicidade, “no sol
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sobre as nuvens, “felicidade, “nas folhas das árvores,
“felicidade.”
Esperança por dias melhores. Encontra-se na profissão de
educador a esperança por dias melhores. Apesar das
estatísticas, no campo da escolha das profissões, demonstrarem
haver pouca procura para exercer à docência; a sociedade
reconhece que é o professor quem faz a diferença na vida social.
Considerando a desmotivação salarial aos trabalhadores na
educação, a longa jornada de trabalho e as atividades
intelectuais que lhes exigem compromissos com a educação
formal sistematizada exitosa, a esperança por dias melhores
conduz os professores a seguirem ensinando. E uma sociedade
se faz com esperança por dias melhores. Cabe ao professor
zelar pela aprendizagem do aluno e, assim, transformar a
sociedade. Não pela exclusão ou evasão escolar; torná-la mais
esperançosa. Ensinando haver esperança por dias melhores.
Cada escola na cidade transmigra os sonhos; faz nas
árvores folhas permitindo novos voos; todas as aves ganham;
na cidade, cada escola evita desistências. Idas vão preencher
mundos: livros. Escola cria asas; o livro sai de bibliotecas; vai,
Livro, a essas casas. E tão somente a escola faz a vida ser mais
lida.
Velhos e novos escritores a convite da escola. Na crônica
podcast, esse mês em Santana, o escritor-matriz convidado a
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comentar acerca da literatura em seu conto “Um homem
célebre”, usando, por exemplo, a teoria da recepção.
Recepciona o podcast, na escola, a literatura pela análise dos
receptores:
Podcast: Relendo esse conto do mestre da intertextualidade
nascido no Livramento e levado ao Cosme Velho. Machado, ao
se considerar em seu conto que o compositor não é parte de
uma das classes insuladas, Pestana é um trabalhador braçal ou
um artista do povo?
Machado: Esse é o tipo schopenhaueriano que sofre de
infelicidade moral sem conserto nem concerto.
Podcast: Frye, ao publicar “Anatomia da Crítica”, lembra que,
na segunda parte ao escrever “Poética”, Aristóteles refere-se ao
diferente nas diferenças de ficções literárias, e o diferente tem
causa em personagens que, comparativamente, são melhores,
piores ou iguais a gente.
Machado: Isso? Ora soa a memórias póstumas, ora a fumus
boni iuris porque onde há monturo há fogo.
Podcast: Machado, suas “Memórias póstumas” querem
ressignificar à volta à obsessão pela infidelidade ou – digamos
assim: prototranscriação – pra desconstruir “Otelo” de
Shakespeare?
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Machado: Talvez a explicação à prototranscriação que você se
refere se encontra na pena da galhofa.
Podcast: É verdade, Machado, que Capitu é filha da tinta da
melancolia?
Machado: Essa pergunta oblíqua iguala-se aos olhos de
ressaca.
Podcast: Machado, no superchat de Pastiche, que acompanha
o podcast da semana, ele pergunta se o novo livro consegue ter
os leitores de Stendhal. Os algoritmos sempre estão atentos. E
Bricolagem manda like e comenta que o teatro é arte das artes
graças à literatura. Paródia manda like, e quer saber por que
usar mangações em quase todos os capítulos. Eufemismo, num
superchat, pergunta se ler ou não ler? Melhor desconfiar de
eufemismos. Bauman e suas razões, porque a modernidade
líquida autoriza deletar à vontade.
Em literatura, fundamental é o que gira em torno da vida
na escola em Santana. Questões circunstanciais em inúmeras
possibilidades da memória afetiva, conforme demonstram os
alunos no município. Literatura como resultado de hipóteses às
arbitrariedades do amanhã.
Em breve, poemas leves, Santana histórica e solar em
poemas memóricos. Santana quadro a quadro como se acha no
retrato, e se encontra na crônica Santana imagética de sol,
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páginas de tantos poetas; e ainda se ouve o cantar; é o carro de
bois falando; ainda se escutam aboios nas serras em Santana;
veja o Panema com água. Desde quando? Ouça o rio desde
ontem; o rio passa em breve poemas leves.
E os escritores não são os que escrevem, os escritores são
os que leem. Na matéria-prima das metáforas, dos textos
polissêmicos, as intertextualidades, a interdiscursividade, os
gêneros, o conteúdo, a forma, a estrutura frasal, a
morfossintaxe, a coesão, a coerência. Se a distância de
Descartes é proporcional à aproximação à Idade da Pedra,
alunos se reinventam nas diferentes ciências e nos livros se
fortalecem.
Hoje convidam às escolas santanenses os seus escritores. E,
assim, em Santana, a escola exercita pedagogia com podcasts,
escritores, gramáticas, literatura e Suas Excelências Leitores.
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Vossas Excelências
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Marcello Ricardo Almeida
Ao longo do tempo, a presença do professor
transmigrando a realidade nos espaços sociais. O ensino de
quem se propõe a ensinar e a aprendizagem de quem se propõe
a aprender representando ruas de lampiões acesos; acendedor
de lampiões, de Jorge de Lima, é infatigável; rua a rua, parodia
o sol e ainda se associa ao luar no sertão: um espetáculo digno
de todos os adjetivos.
Cabe à crônica voltar-se às Vossas Excelências Geografia
e História nas aulas no Ginásio Santana. Os professores de
geografia e história, no ginásio de todas as distintas épocas,
demonstrando quais são as fronteiras da compreensão e as
delimitações na análise do que se escuta na voz do senso
comum em diferentes espaços nas duas áreas de
conhecimento.
O velho Ginásio Santana na praça do Monumento; tantas
ruas consertadas. Quantas casas... Quantas vidas. Um prédio:
salas de aula; os professores e alunos. Conteúdos
programados: e os sonhos alçam voos ganhando o mundo asas.
Nas situações cotidianas, em Santana, Vossas
Excelências Geografia e História nas aulas no Ginásio Santana.
Geografia e História desde os povos antigos (Ritter e Humboldt,
na Alemanha do século XIX, tornam a geografia ciência; na
magna Grécia, Heródoto, pai da História). Acaso o rei de
Micenas teria chegado à Troia sem geografia e sem história?
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Marcello Ricardo Almeida
perguntam os professores em perguntas que se transfiguram
aos alunos durante as aulas, no Ginásio.
As transformações estudadas nas aulas de geografia e de
história. As coisas e os saberes movidos por história e geografia.
As temporalidades e os lugares aos quais se acessam nessas
duas áreas de conhecimento.
Na rua transformada nessa calçada alta ligando as
cidades. Há nessas casas antigas as mesmas coisas; na mesa
da sala de estar as mesmas pessoas, as velhas paisagens. Logo
riacho Camoxinga encontra-se com o rio, segue o Panema
abaixo. Ficam as casas altas feito um quadro na paleta de
Velázquez. Nas luzes da manhã iluminam-se as casas nas cores
de Van Gogh. E o dia segue trôpego. Voa um mosquito grogue.
E amanhecer não falha; vem aurora sorridente. Passa a chave
na porta, Santana lugar de sol. É outro dia de trabalho, e já é
outro dia de aula.
E, neste breve texto, a memória de Vossas Excelências
Geografia e História nas aulas no Ginásio Santana. Acaso
Miguel de Cervantes Saavedra gestaria esta narrativa “El
Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha” ignorando
geografia e história? perguntam os professores aos alunos
durante as aulas, no Ginásio. Como vocês querem desvendar o
que acontece hoje ao mundo?
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Marcello Ricardo Almeida
Santana fragmentada. Cada imagem uma casa; nessas
casas não portas: casas de lembranças misturadas nas
calçadas, nas janelas de cada casa. Não demora o dia passa;
outros dias também se vão. Alguns dias tão na pressa, e outro
dia violão somente; uma, duas garrafas à noite numa lua n’água
lida agora. Na garrafa viaja a poesia; em cada porto que passa
há sempre uma nova vida.
E o foco narrativo em Vossas Excelências Geografia e
História nas aulas no Ginásio Santana. Acaso Sun Tzu teria
escrito sem geografia e sem história? perguntam ainda os
professores aos alunos durante as aulas, no Ginásio.
Igrejinha de nossa Senhora está diante da escola (aquela
igrejinha antiga). Santana e a alteridade amontoando assuntos,
conversas de amizades... ...de tantas promessas vãs ...de
muitos perdões falidos ...de juras amorosas dúbias ...de petições
contratos impedidos. Diante do alheio se sabe e quem realmente
se é. E está diante do Ginásio igrejinha a nossa Senhora, na
praça o símbolo de fé.
Há reencontros, em Santana, nesta crônica às Vossas
Excelências Geografia e História nas aulas no Ginásio Santana,
renovando o reencontro entre o narrador personagem e o
narrador onisciente? O ensino que se faz pensar historicamente,
conforme as mudanças promovidas pela Base Nacional Comum
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Marcello Ricardo Almeida
Curricular, e os métodos com os quais se estuda os aspectos
geográficos.
Ensino fundamental assegurando aos alunos de todas as
épocas os porquês da natureza e os porquês da sociedade.
Nesse bate-papo entre o passado e o presente com professores
de geografia e história de todos os tempos.
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Fabulistas
Novas cartas de Graciliano Ramos é uma demonstração
literária ao valor da memória. E a cidade que preserva seus
aspectos históricos vai mais longe.
O tempo é uma agulha pela qual a linha passa: a uva, a
maçã, a manga há na feira em Santana e convive-se na crônica,
nessa divindade grega, desde Cronos derivada; uma criação dos
povos faz congelado o tempo.
Independe da época e dos meios de comunicação, as
cartas cronificam as eternidades. Como resta demonstrado no
patrimônio cultural as cartas de Graciliano Ramos – autor das
narrativas sobre Madalena e Honório, em “São Bernardo”.
Conheci em Arapiraca a segunda esposa do Velho Graça
num banco escolar e, no acaso das conversas, os escritores por
horas conversam sobre a cachorra Baleia. Encontro por engano
e um longo bate-papo no breve silêncio da brisa, e naquele
festival de teatro homenagearam d. Eloísa mulher de Graciliano
Ramos.
Aprende-se, desde os anos iniciais, que a educação
bancária é ação sem didática e antipedagógica. Toda e qualquer
educação bancária difere de práticas educativas que possam ser
digeridas por quem se propõe a aprender. Metacrônica e a
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vocação nas escolas unem-se às vozes dos estudantes em
salas de aula.
Estudantes, estudantes, estudantes nas escolas Santana
de algarobeiras, unam-se já estudantes; sejam cronistas de
hoje, cronistas de seu tempo; não cronistas caducos. Seja a
história memória antes desse crepúsculo: o anoitecer dessa
vida.
Aprender na escola em Santana ilumina o seguir
aprendendo. Aprende-se, na Taxonomia de Bloom, que o
processo de aprendizagem se relaciona intrinsecamente a
aspectos da lembrança, compreensão, aplicação, análise,
avaliação e, no topo da pirâmide, a criação. A atividade escolar
cujo tema – escolhido na matriz (Base Nacional Comum
Curricular, nas áreas de conhecimento: linguagens, e no
componente curricular: língua portuguesa) – a crônica: meio pelo
qual traz à lembrança a carta (origem do romance epistolar, das
comunicações virtuais na contemporaneidade).
E nas toldas de feira, no sertão, é aqui onde o povo se
expressa ao retratar figuras em cerâmica. O povo sabe: toda
feira é festa, toda festa se diz ser a grã feira. Freire, quando
adjetivo de plano, escreve-se freireano ou freiriano? E
nietzscheano, quando Nietzsche, nietzschiano é melhor se
escrever? Talvez só outro processo kafkiano.
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Marcello Ricardo Almeida
Cada processo de aprendizagem, nas áreas de
conhecimento (linguagens) e no componente curricular (língua
portuguesa), relaciona-se com lembrar, compreender, aplicar,
analisar, avaliar e criar. Freire ensina que curiosidade move a
criatividade. Como o planejamento de ensino pode exercitar a
curiosidade intelectual ao aluno? Tudo o que acontece na escola
é currículo escolar com diferentes tipologias. De que maneira o
planejamento alerta ao aluno meio de reflexão, análise crítica,
imaginação e criatividade? Toda aprendizagem surge do
espanto, da curiosidade.
Semântica diz só no sentido; sintaxe diz-se em sua
estrutura; pragmática sol na comunicação; morfologia a forma
das palavras; fonologia que diz o som da língua; fonética surge
nos sons da fala. Equilibram-se na medida uns versos ignorando
no século XVIII as rimas; já outros que se mantêm irregulares e,
por natureza, ignoram a métrica: ditos livres. Estes? Só na
aparência, porque jamais deixam suas estrofes.
Se semântica cabe à escola, sintaxe preenche cadernos,
pragmática o entendimento; morfossintaxe a fala mostra;
fonologia é os sons na feira; fonética deixe-a aos poetas.
Feito o fabulista de “Caetés”, expressão à literatura.
Santana, Terra de Escritores, é vocacionada à crônica; as
escolas santanenses sabem: unimo-nos em defesa dos
cronistas na escola como pedagogia pela qual o aluno
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comunicasse com a cidade narrando situações cotidianas, como
ocorrem nas cartas, obedecendo a seu tempo cronológico, como
ocorrem nas cartas, escrevendo textos breves, como ocorrem
nas cartas, numa linguagem compreensível, como ocorrem nas
cartas, numa comunicação facilmente compreendida como a
noite de luar no sertão.
Lua delgada no céu, risca o lápis de cor e desenha no
papel: Amar amasse amando. Lua um fio de linha; noite dizendo
à lua: Logo vai voltar o dia. E como na feira se canta o cantador
de embolada vai fazendo do improviso seu ganha-pão e morada;
e nesses versos ligeiros em soneto improvisado: Por que o
planejamento aos exercícios docentes? Quando tudo é
permitido; qualquer pão já alimenta; Ninguém ri dum Polifemo.
Se usa tão folgadamente nas aulas pra se ensinar uns assuntos
do repente.
Ensino de língua portuguesa quer formar alunos leitores e
produtores de textos em diferentes contextos. Apresenta-se com
a função de privilegiar os gêneros textuais, bem como
contemplar os novos letramentos na realidade digital. Destacase,
entre os diferentes artigos, o artigo 13, inciso III, na Lei de
Diretrizes e Bases da Educação Nacional, sobre o papel da
docência e sua responsabilidade legal em zelar pela
aprendizagem do aluno.
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 51
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Crônica de seu tempo as cartas de Graciliano Ramos.
Objeto de conhecimento requer os objetivos de aprendizagem:
geral/específicos e se alcançar resultados de acordo com o
planejamento de ensino e ações que possibilitem a
aprendizagem. Sem se descuidar dos critérios a serem
observados pelo professor ao planejar, tendo a responsabilidade
ética e legal de estar incumbido de zelar pela aprendizagem do
aluno em seu plano de aula. Com vivas à crônica, escola
encontra na língua meio de disciplinar a habilidade; e a
aprendizagem encontra no aprender meios de seguir
aprendendo.
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Cidade literária
Santana apresenta-se como linguagem poética que
ilumina o sertão desde os primeiros de seus cronistas, desde os
primeiros de seus poetas. Como se encontra na memória de
tantos munícipes: linguística na textualidade faz-se por
contextos de um texto fazendo parte de outro texto; um gênero
na composição doutro gênero textual; qual uma praça dentro de
uma rua.
Quais ruas que carecem de praças, na metáfora orgânica,
a crônica parece representar pulmões entre os gêneros
literários. Os devotos de Santana, todos os filhos de Maria,
louvam a santa semana, e roga o povo aleluia, peticiona pela
paz: amar a vida se faz com fé, perdão e gratidão. Os devotos
de Santana, todos os filhos de Maria, louvam a santa semana. A
vida é breve e pequena, e passa quão passa o triz: hoje missa
na matriz, em Santana. Louvando essa semana os devotos de
Santana, todos os filhos de Maria, louvam a santa semana. E
cada rua requer, em sua petição implícita, a sua praça. Cadê a
praça daqui?
Sem pressa nas praças, pula de galho o sagui callithrix, ri
à vontade o bem-te-vi. Santana enluarante, cadê a praça daqui?
Aves vivem de esmola; em toda rua se acham gaiolas e mais
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gaiolas. Praças são de pássaros e céus discos voadores. O
presente do indicativo segue chofer aplicativo; praça não há
engraxate. Cigarra faz cada escolha e formiga carrega folhas.
A educação é representada, metaforicamente, por uma
praça que oxigena uma rua. Na educação formal sistematizada,
as relações pedagógicas que atendem a quaisquer estudos em
língua portuguesa, por exemplo, nos anos finais do Ensino
Fundamental, ao se trabalhar interdisciplinaridade,
transdisciplinaridade e multidisciplinaridade, há mudanças
exponenciais em salas de aula a quem se propõe a ensinar e a
quem se propõe a aprender.
Estudo em língua portuguesa representa atravessar
transdisciplinarmente outros componentes que a escola dispõe
ao aluno. Como se acompanha em Santana, cidade literária, a
sua vocação à poesia e à crônica. O mundo escolar é um mundo
que existe porque existe nele a integralidade, não as partes, não
a escola fragmentada. Quão a praça ilumina uma rua à voz do
poeta e do cronista santanenses.
Que praça é essa praça, ainda praça em Santana, mesma
praça aliterante. Quando praça, e é pouca, a sua tônica e a sua
átona, sendo praça ainda uma. Praça solta, fotográfica,
fotografada essa praça, praça em pouca roupa. Sendo que a
intensidade na praça menor é átona, é cedilha praça tão boa.
Cantam os passarinhos. Nas praças surgem voos livres de
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pássaros; nas cidades praças; e o amanhã das árvores: pulmões
ao mundo, cantam os passarinhos.
A manhã de cada ave depende das folhas, depende das
árvores; não há raízes cidades senão nessas praças habitadas
por saguis. Aonde vão suas praças, Santana enluarada?
Cantam os passarinhos.
Inicia-se a poesia e a crônica com dicendi de que não é
difícil identificar que o texto é apenas a extensão de seu
intertexto; inexiste um gênero textual sem algum tipo de
intertextualidade. Nas escolas, em Santana, a vocação do aluno,
no Ensino Fundamental, é poesia e crônica.
Fácil ao professor acompanhar o aluno mediando a sua
aprendizagem. Desde a origem, a forma fixa na poesia ou nãofixa,
transfigura-se, e a crônica jornalística publica os fatos atuais
de interesse social; a crônica filosófica reflexiona sobre algum
tema específico; e a crônica humorística ao usar a comicidade
recorrendo à ironia; a crônica descritiva descreve os elementos
narrados; a crônica histórica voltada aos fatos passados; quer a
crônica dissertativa quer narrativa seguindo a tinta de cronista
que escreve na primeira ou terceira pessoa do singular; ou ainda
a crônica narrativo-descritiva híbrida entre narrar e descrever; na
crônica lírica, o ponto alto encontra-se na subjetividade e nas
sugestões expressas no gênero; na crônica poética há versos
ou simples elementos deste gênero (poesia).
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É bom lembrar que a crônica sozinha não é crônica; ela
depende da urgência do interesse, como a rua depende das
casas e os moradores das árvores, e estas dos pássaros. Aqui
havia uma praça?
Já houve uma cidade distante onde as praças tinham
árvores, onde as árvores tinham pássaros, onde os pássaros
tinham vida, onde as vidas tinham sonhos; praças tornaram-se
pássaros medonhos, com vidas sem sonhos; as folhas secaram,
e as praças substituídas por lembranças. História não é pudica,
cada história a sintaxe, e cada sintaxe publica Teatro-Feijão-
Com-Arroz nascido e criado em Santana de festas, já foi à
Argentina, e “A Fila do INPS” em NY. Teatro voou e atravessou
a Cordilheira dos Andes, indo a Santiago do Chile. Faz parte das
memórias esse teatro santanense, e desde Albertina Agra nos
grupos, nas escolas é o Teatro em Santana ao santanense
História.
Moldada nas pedras o látego ao trabalhar; surge gibão de
couro, e Santana se constrói; no sentido da sintaxe aboia o carro
de bois; e na gaiola canta a ave; passos moldam a cidade.
Nos aspectos principais dos estudos em língua
portuguesa, se alguém tropeça na didática, há quem caia na
reprovação. O papel da prova em quaisquer áreas na educação
formal sistematizada, em qualquer componente curricular, é
saber se o que se ensina se aprende; não é o papel da prova
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Marcello Ricardo Almeida
reprovar o aluno. Talvez os estudos em língua português, nos
anos finais do Ensino Fundamental, observando os valores da
Análise da Conversa (uma das linhas em Linguística Aplicada),
os papéis dos sujeitos em salas de aula galguem o
protagonismo, tornem-se centrais e não periféricos, e não
figurativos neste contexto de quem se propõe a ensinar e de
quem se propõe a aprender.
Análise da Conversa é um recurso pedagógico que
promove resultados positivos em salas de aula a quem se
propõe a ensinar e a quem se propõe a aprender. Esse indo mais
longe com as metodologias adotadas de quem se propõe a
ensinar. Como a memória que oxigena uma cidade numa
interação social expressiva.
Santana só memória nessa velha fotografia; a cidade nas
paisagens; cores do sol distribuídas. O salário do vaqueiro;
segue o vaqueiro à roca, e o sol surge de repente; é feita oração
no rosário; na vegetação pasta o gado, e, nessa hora da manhã,
formigas seguem o aceiro; na cozinha, os aromas acordam os
trabalhos. Os sonhos do vaqueiro cabem em seu chapéu, e o dia
é o seu salário.
Sabe-se também que o sujeito é sentença ou expressão
que se refere ao verbo. Feito o Panema e as suas águas que
passam em viagem dirigindo-se a outros sítios, águas
enferrujadas, águas que se juntam às outras, águas descendo
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 57
Marcello Ricardo Almeida
em caixões, panelas d’águas revoltas, velozes águas com a sua
energia de água que tudo arrasta e que tudo leva, e que tudo
lava. Feito o Panema cheio atravessando cidades em sua
viagem. O período escolar passa na velocidade das águas,
passa a escola multipluritransdisiciplinarmente – seja a quem se
propõe a ensinar, seja a quem se propõe a aprender.
Quais águas em riachos, rios, a
multipluritransdisiciplinaridade que se trabalha na escola é a
pedagogia pela qual os conteúdos interligam-se, a exemplo de
gêneros textuais diferentes. Na sintaxe do sujeito, nem sempre
o sujeito realiza a ação ou mesmo aquele sobre o qual se fala;
há outras formas que definem o sujeito; nos termos essenciais
da oração, o verbo acompanha-o feito o Panema que
acompanha o ritmo de suas águas.
Lentas águas de rio, o rio São Francisco aguarda o
Ipanema; mas o rio não vai, perde o rio uma letra, Panema
tropeça, cai; entre pedras e areia vai panema-rio, vai; desce
Panema lento; perde letra por letra. Ao Velho Chico o rio, ei-lo
panema-rio chega em sua cor de pedras, em sua cor de águas,
em sua cor de sono. Dormem as águas, rio, dormindo, dormindo
essas águas de fome.
Objeto de aprendizagem que se apresenta nas escolas em
Santana (cidade vocacionada à poesia e à crônica) é mergulhar
na leitura que se faça identificando o que se encontra no gênero
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Marcello Ricardo Almeida
textual, em sua intertextualidade. E ainda há no objetivo de
aprendizagem reconhecer elementos distintos nas produções
textuais.
A intertextualidade, como elemento que se apresenta por
entre as suas linhas d’água, viaja pela calha do rio Ipanema, em
Santana. E o objetivo de aprendizagem na imagem de rio, na
imagem por palavras, é identificar os elementos na notícia de
água no Panema como fato jornalístico-midiático.
Em breve o rio cheio com águas por cima, correndo feito o
vento sobre estacas, cercas; nada rio; quanto aviso; não fica
terra ou ilha. Volta Panema a ser isto: água de peixes e alegria.
Nossa parte no Panema, essa parte que pertence a Santana
cheia de luar. As águas enferrujadas ocupando a sua terra, suas
ilhas, suas pedras; o barulho feito guerra acorda Santana. Festa.
Ronco desce das serras; ronca o velho Panema no Serrote do
Cruzeiro.
Não é tão só adotar ensino doméstico e deste esperar
resultados exitosos; as teorias pedagógicas são amplas e
complexas. Fundamental ao sucesso da aprendizagem e do
ensino são os meios pedagógicos; e são muitas as mudanças
que ocorrem periodicamente. O trabalho docente, ao se
aproximar dessas linguagens, enriquece sobremaneira quer o
ensino, quer a aprendizagem; sobretudo se trabalhado
interdisciplinarmente.
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 59
Marcello Ricardo Almeida
A barreira que dificulta o binômio ensino-aprendizagem é
a ausência de didática de quem se propõe a ensinar que não
alcança a quem pretende aprender. Ao se falar em fruição na
crônica, por exemplo, está se falando no papel do intertexto; este
do qual se fala associado à imaginação de quem lê, aos afetos
e aos sentidos de quem lê.
Santana essa hora da tarde feliz o Serrote do Cruzeiro; mói
e não é caldo de cana esse caldo grosso e ligeiro; sobre as terras
de Santana, a garapa aquosa feito lama, grossa água amarelada
corta à tarde em Santana, limpando o rio Ipanema, carregando
a bagaceira: orelhas-de-burro margeiam; são vistas do alto do
Cruzeiro. Vai rio Ipanema despejando; e não tarda sua calha
cheia. Muito peixe nessa hora; correm as águas velozes: Mucha
agua y peces em desabalada carreira Mucha agua y peces
abastecendo as mesas Agua y muchos peces tornando vivo o
que vive. Essas águas, essa força, essa energia imensa trazem
guardada em sua vida tantas vidas que alimentam: agua y
muchos peces a Santana sob as estrelas.
O rio é quem constrói e alimenta as cidades como a poesia
e a crônica constroem as escolas. Qualquer construção
oracional é uma unidade sintática que se caracteriza pela
presença de um verbo; e os adjuntos (ad + junto = o que está ao
lado) juntam-se a um nome ou a um verbo para precisar-lhe o
significado; mesmo que tragam algo novo à oração, não são eles
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 60
Marcello Ricardo Almeida
indispensáveis ao entendimento do enunciado. E o objeto direto
é o complemento de um verbo transitivo direto.
Sabe-se que as orações subordinadas adjetivas qualificam
ou especificam algum termo da oração principal, funcionando,
pois, como adjetivos. O complemento de um verbo transitivo
indireto é o complemento que se liga ao verbo por meio de
preposição. Feito o súbito roncar das águas.
Uma carrapateira assiste ao espetáculo das águas
atirando-se na Barragem: as águas se espalhando; vai roncando
o seu ronco, velho roncar impetuoso. Revive o Panema rápido
em sua mudança lógica; sua areia revivendo sedenta; de
repente, cria vida e corre. Jorro d’água sobre as pedras nessa
ponte da Barragem; Santana testemunho de sol, águas
barrentas descendo em direção às outras águas.
Água no Panema! o povo alude em sua intertextualidade
de povo. Imagine o Panema cheio, com água correndo assim,
com peixes à vontade, desde a piaba em cardume aos gigantes
surubins. Imagine o Panema cheio, com água correndo assim,
nesse mundaréu d’água: vê um começo sem fim. O Panema
gordo, imenso. Pescadores voltam à pesca, braços, tarrafas,
mergulhos; tantos peixes à quaresma em águas-panema turvas.
Aluno é o resultado da linguagem na escola. Tudo no
ambiente escolar acontece quão à calha que, em lugar das
águas, recebe a influência das linguagens. Quer linguagem
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 61
Marcello Ricardo Almeida
consciente, quer inconsciente; às vezes, uma supera a outra
qual fluxo d’água em períodos de cheias no riacho Camoxinga,
no rio Ipanema. O discurso, durante o percurso das águas,
transforma a terra.
Cidade vocacionada à poesia e à crônica reconhece a
importância da linguística no processo pedagógico. Como se
encontra a linguística presente na antropolinguística, na
linguística computacional, na geolinguística, na sociolinguística,
na neurolinguística, na psicolinguística, encontra-se a linguística
presente na educação formal sistematizada feito água em
corredeiras.
Águas em corredeiras! o povo alude em sua
intertextualidade de povo. Viva o Panema! está vivo no milagre
da Quaresma. As águas descem velozes em corredeiras nas
pedras; tantos peixes pulando alto numa grande e viva alegria.
Desce o rio em velocidade indo forte ao São Francisco.
Ribeirinhos felizes. Feliz Santana. Fazem festas, soltam fogos.
Tantos peixes pulando fora, vão ao prato na larga mesa Panema.
Crônica transita em crônica jornalística, filosófica, poética,
narrativodescritiva (narrativa ou descritiva) e ainda humorística,
histórica, lírica e também dissertativa. Conotação em Santana,
um tipo de intertextualidade entre tantos outros, segue a corrida
nas águas do Panema de característica sazonal e breve.
Observa-se em Santana o que há de subjetivo na cidade, o que
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Marcello Ricardo Almeida
há em suas escolas no exercício das atividades pedagógicas
salutares e edificantes.
Santana é uma cidade literária. Na forma e na expressão,
a cidade faz-se por tessituras literárias. Águas salobras no rio
Ipanema, de leito areento e grosso, carregam, com a fome
própria da água, as pedras. Metafórica realidade visitada nas
histórias, em Santana. As águas no rio entre as pedras; o
Panema passa em poços breves; há entre paredões, tantas
eternidades; mesmas águas de sono, mesmas águas de vida;
as águas dormindo, dormindo, dormindo... e a água correndo à
vontade.
Um dia, foram ossos e urubus; e, hoje, esse caldo grosso
descendo vai espumando vai, e a água correndo à vontade
sobre as pedras com fome, e com tanta sede d’água, indo
viagem d’água ave; volumosos caixões d’água descendo velha
Barragem, passando famosos lugares; onde feita pesca de
piaba em litro de vinho e farinha, feita pesca com os anzóis,
tarrafas nas águas grossas descendo ao São Francisco
(reencontro à Praia do Peba) Panema renasce da lama.
Estrondosas margens em Santana de nuvens; povo vai ver
água chegar, vendo o Panema encher em sua viagem de vidas,
em seu milagre das águas.
E, assim, em qualquer cidade anoitece; à noite, o
acendedor de lampiões volta a alumiar essa prática cotidiana
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 63
Marcello Ricardo Almeida
nessa caminhada na qual se exercita fruição em poesia e
crônica. Na aprendizagem se reconhece literariedade no gênero
textual. Aprendizagem associada à lembrança e à compreensão,
conforme se aprende com a Taxonomia de Bloom; lembrança e
compreensão levam à aplicação e à análise, avalia-se o
percurso, e a criação é a última etapa da aprendizagem.
Na escola, o laboratório de informática era um papagaio
em sala de aula; quais águas que serviam aos rios, o papagaio
servia à escola feito o riso; e o homem já dessabia se era
máquina ou se a máquina ainda não era homem. O aluno era
uma espécie de ave, não uma ave segura de si; se quisesse
deixar a escola. Aonde ir?
O professor era uma máquina repetindo se amanhã ia
chover, se o sol da manhã acordaria os girassóis. Na escola, o
laboratório de informática ficou cheio de jogos e memes, como
se revivesse a mimésis aristotélica. E o professor marcou prova.
Quando, professor? Na próxima segunda-feira, ele
respondeu. Os prazos eram apertados, professor. E daí! Vamos
sacudir a cidade com a festa do reencontro. Cada encontro vale
a vida, cada vida vale o canto.
É por isto que eu canto: Viva, viva o reencontro.
Glosadores à vontade, sendo o seu mote a folia, festejando à
vontade neste frevo de alegria. E é por isto que eu canto: Viva,
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 64
Marcello Ricardo Almeida
viva o reencontro. Cidade sem festa não vive, a festa é a alma
da cidade: o sintagma nominal caso se diga troveja quando se
diz chove logo se ouvem trovões na trova que se deseja tire os
ossos da língua permita à carne macia livre o corpo da palavra
experimente a alquimia.
O Panema botou água, e roncou na madrugada, e saiu aos
borbotões; ele enfrentou seus invasores: paredes feitas de
pedras, locas vazias existenciais, e ganhou mais velocidade.
Formosas quedas d'água de repente redesenharam a sua
paisagem. Novos ares nos sertões fizeram amanhecer o dia rio
despertando Santana. Rio ri. Riu larga água – ponte, peixes,
ronco, enche, calha cheia; e logo inunda ruas, casas.
E ferozes roncam as águas passam em Santana partida a
roncar Panema outra vez é indomável esta fera ferida a renovarse
a trocar de pele e revive Panema novelho rio reveja o Panema
feito noivono leito nupcial de sua calha eila sua noiva as
cachoeiras vem nas espumas das águas voa o véu da noiva
dançando lembra velho ritmo das naus vão-se os peixes em
cardume barulhento cortejo das águas. Cidade sem festa não
vive, a festa é a alma da cidade: um sintagma nominal pode ser
dito no verso se antes do verbo signo sintagma verbal já vive.
Cidade sem festa não vive, a festa é a alma da cidade: numa
estrutura sintática sintagma preposicional e se liga por
preposição feito verso nos sertões.
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Marcello Ricardo Almeida
Cidade sem festa não vive, a festa é a alma da cidade: Lá
vem o sol, lá vem o som no velho ritmo do borogodó. E aonde
vai, água-panema? passa em Santana tão veloz se vai para em
algumas ruas como quem logo evapora-se. E aonde vai em sua
pressa? Sem sequer ser fotografada e atravessa ligeira a cidade,
corre desaparece corre deixa rastro no céu os rios possuem
asas.
Não troque o príncipe de Antoine pelo príncipe do filósofo
Nicolau sabe-se este veio para governar dizem trocando fins
pelos meios aquele outro príncipe era um piá e como não há por
que negociar Quixote de Miguel de Cervantes pelo Quixote de
Pierre Menard. Na Biblioteca de Babel, outro dia, reencontro
Jorge Luis Borges, Trön, Uqbar, Orbis, Tertius e Pierre Menard,
autor do Quixote, próximos à livraria El Ateneo, lugar onde
revisito Paulo Freire e a sua Pedagogia do Oprimido.
Lá vem o sol, lá vem o som no velho ritmo do borogodó.
Neonarrativa sertaneja: Segue o vaqueiro à roça carro à estrada
de chão agricultor e a agricultura ao som do carro de bois ricas
lavouras no sertão o carro de boi cantando Os Sertões do
sertanejo além do velho Euclides escrito naquele seu livro sobre
o scelestus homo por tantas penas narradas nem Troia nem
Esparta nem Peloponeso sertão história da humanidade nas
terras do semiárido.
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 66
Marcello Ricardo Almeida
Vendia alguém loteria Babilônia; e os livros formavam
revoltosas ruínas circulares, feito oceanos; e a galinha dos ovos
de ouro jazia depenada pelo sistema: decorava televisão-decachorro.
Crônica, como se sabe, efêmera; efêmero realismo
não é mágico. Lá fora, na rua, em Buenos Aires, jardins de
veredas bifurcavam-se no milagre secreto desta festa em
Santana lugar de todas as vozes.
Palavra cheia de verbos, as palavras numa oração: o
tempo errado do verbo, na crônica sobre ser tão o sábado de
feira vindo ao som de carro de bois, o tempo do verbo errado,
não por outro e por isto, há impositivo categórico: moral associa
um a dois. Há hipotética categórica desde Kant, o iluminista, e
tempo errado de verbo; vai, tropeça entre as ruas, entre as ruas
vai tropeça o tempo errado do verbo, a frase, oração, o período.
Lá vem o sol, lá vem o som no velho ritmo do borogodó.
Vamos sacudir a cidade com a festa do reencontro. Cada
encontro vale a vida, cada vida vale o canto. É por isto que eu
canto: Viva, viva o reencontro. Glosadores à vontade, sendo o
seu mote a folia, festejando à vontade neste frevo de alegria. E
é por isto que eu canto: Viva, viva o reencontro.
Hiperônimo é o que a escola faz ao encher um quadro,
outro quadro, exigindo do aluno mais do que é possível exigir,
obrigando-o ir aonde ainda não consegue chegar. A
desgramática, porém, não se importa; a palavra é reivindicada
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 67
Marcello Ricardo Almeida
pela transgramática de um acendedor de lampiões, na Av. Na.
Sra. de Fátima.
E, na avenida, os devotos de Santana, todos os filhos de
Maria, louvam a santa semana; o povo ora nas ruas de Santana
a caminho da matriz; ora o sertanejo feliz em Santana. Salve a
cidade de esquecimentos, a cidade não pode ser condenada;
jamais esquecidos os seus nomes, os seus prédios, as suas
memórias; aqui, Casas Lima; ali, a Maringá; reencontremo-nos
no Bar Comercial, e o Jornal do Sertão lá na Rua Nova. Naquela
praça, a peça “Debaixo da Ponte”, naquela rua, a música “A
Valsa Maria Júlia”, naquela avenida, as amizades, o sol.
Eis a cidade: Santana. Santana fotografada. Anoitece em
Santana como anoitece em tudo; anoitecem suas praças, quais
praças anoitecem quando a noite reaparece nas praças em
Santana; anoitece em suas aves dormindo nas árvores, nas
praças em Santana; anoitece na vegetação e nas casas
anoitece, como anoitece nas ruas, anoitece na Rua do Sebo,
anoitece na Av. Na. Sra. de Fátima.
Cidade, em cada município brasileiro, caleidoscópio de
lembranças. Santana, lugar literário por meio de tipos
intertextuais, na área de Linguagens, a saber, no componente
curricular Língua Portuguesa, ou melhor, conforme o aluno
apreende nas escolas santanenses, no Currículo Base da
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 68
Marcello Ricardo Almeida
Educação Infantil e do Ensino Fundamental, por exemplo,
segundo orientações legais da
Base Nacional Comum Curricular. Santana faz o caminho
da escola com a colaboração na preservação da memória. Não
há gênero textual sem a colaboração de outros gêneros textuais,
como não deve haver rua sem praça.
Ao final deste percurso demonstrado é possível concluir
que pensar em Santana, no sertão, equivale a refletir. Cidade
literária vocacionada à poesia e à crônica.
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 69
Marcello Ricardo Almeida
L1 & L2 como uma chave
do tamanho nas palavras-chave
Vamos falar sobre livros? Nas escolas, em Santana, há
crianças surdas, e não é diferente em outros lugares mundo
afora. Há o modus vivendi surdo na alfabetização e letramento.
A criança surda usa outro sistema em lugar da fala, este é a
Língua de Sinais onde o sistema gesto-visual prevalece sobre o
oral-auditivo.
O termo fala é utilizado tanto na modalidade oral quanto na
sinalizada. Quem sinaliza também fala, porém de outra forma.
Os livros povoam a imaginação quais as pás de moinhos
movidas pelo vento.
Pedagogicamente, a criança surda carece apreender L1 e
L2 no processo de alfabetização e letramento. L1 é a sua língua
natural; L2, na modalidade escrita, é a chave do tamanho com a
qual a criança surda interage no mundo letrado. Língua
Portuguesa escrita não é natural à criança surda, porque a sua
língua materna é a Língua de Sinais.
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 70
Marcello Ricardo Almeida
A criança surda aprende a ler por meio de representações
(palavras, cores, imagens e outros recursos pedagógicos)
mediados por seu professor que lhe ensina, simultaneamente,
em Libras (L1) e (L2) Língua Portuguesa escrita. Esta segunda
língua (L2) ocorre pela apreensão visual para a criança surda no
processo de alfabetização e letramento.
Há uma viagem de 20.000 léguas submarinas, quando o
assunto é livro. Português, como modalidade escrita, é a
alfabetização da língua escrita, e a Libras, por ser visual,
garante-lhe aquisição mais fácil se comparada à Língua
Portuguesa, segunda língua para a criança surda cuja
modalidade é associada a diferenças fonéticas e
morfossintáticas.
Línguas orais carecem dos articuladores laringe, garganta,
língua, dentes, lábios, por exemplo; enquanto os articuladores,
nas línguas de sinais, são os braços, as mãos, o corpo, o rosto,
por exemplo. Línguas de sinais também apresentam níveis de
conhecimento gramatical fonológico (isto com a mudança da
sinalização), morfológico (modo, tamanho, plural, gênero),
semântico (significado), sintático (estrutura, organização) e
pragmático (visto, implicitamente, no contexto comunicativo).
Livro, comparado à amizade, é um por todos e todos
cabem no livro. A forma e orientação das mãos são
representações na escrita de sinais, além de movimento que
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 71
Marcello Ricardo Almeida
indica, gesto que orienta. Para a criança surda, aprendendo a
ler, o pensamento se elabora a partir da Língua de Sinais
(visoespacial) que ela usa. A linguagem desenvolve-se por meio
da interação com a criança surda, igualmente a aprendizagem
por meio da mediação do professor.
Há recurso didático digital como meio pedagógico ao
professor que não fala Língua de Sinais e tem na aula uma
criança surda para ensiná-la a ler. Cabe ao professore fazer as
adaptações pedagógicas de acordo com cada nível de
entendimento do processo de ensino-aprendizagem. Com a
inteligência artificial por meio desta ferramenta, virtual, a criança
ouvinte, aprendendo a ler na mesma turma da criança surda,
consegue se comunicar com a criança surda, interagindo com
ela em seu processo de aprendizagem, considerando a teoria de
Vygotsky para o qual a aprendizagem ocorre pela interação
históricossocial.
Me pergunto por que todos não leem? Durante o processo
de alfabetização e letramento da criança surda são
considerados os classificadores da Língua de Sinais no trabalho
pedagógico do professor.
Enquanto o classificador descritivo descreve a sala de
aula, por exemplo, descreve a imagem da escola, os
especificadores são necessários para descrições em detalhes
(textura, forma etc.); e outro classificador que se usa durante o
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 72
Marcello Ricardo Almeida
processo de alfabetização e letramento é o plural nas
configurações de sinais, configurações de mãos com as quais
se descrevem repetidas vezes – transmitindo o classificador
plural.
Há um classificador instrumental, usado na aprendizagem
da criança surda, que representa certo instrumento. Outro
classificador descreve a ação por meio corpofacial de seres
agindo em seu habitat (um peixe; um pássaro ao usar o bico
descascando uma vagem de feijão-de-corda) etc. Vidas tornamse
secas quando não se descobrem vidas nos livros.
Sabe-se que a criança surda aprendendo a ler, ela está
formando o seu léxico, isto acontece no processo de
aprendizagem de uma criança ouvinte. Na Educação Básica, a
criança surda matriculada para aprender a ler, dificilmente tem
domínio da Língua de Sinais, isto porque ela é, em geral, filha
de pais ouvintes; e nem sempre a Educação Básica, por
exemplo, oferece matrículas em escolas bilíngues.
Há mais de quatorze mil sinais existentes na Libras para
se comunicar. Esta é uma disciplina obrigatória, na universidade,
na formação fonoaudióloga ou de professores; e,
historicamente, o curso de Letras Libras, no Brasil, iniciasse na
UFSC.
Não há tradução exata da Língua Portuguesa à Libras,
como não há outra língua oral para a Língua de Sinais; além da
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 73
Marcello Ricardo Almeida
presença das variações diatópicas – em cada lugar há sinais
diferentes, regionalizam o contexto comunicativo da cultura
surda. Esta possui o jeito surdo de ser, de perceber, de sentir, de
vivenciar, de comunicar e de transformar o mundo escolar em
Santana e em outros lugares mundo afora.
Falar sobre livros é uma fala que percorre grande sertão:
veredas. O grilo na palha falou, quando Jesus nasceu, O povo
crucifica até Deus. A coruja que habita o interior da mulher é
calma e simples como a lua. Crocita a coruja noite escorre da
serra taramela a arara. Olho-de-boneca orvalho de abril molha
breve raio de sol. As rosas de maio alimentam o beija-flor no
silêncio das asas. Solo rachado recado da natureza desenho
poético. Alagadiças ruas abrigam em palafitas sonhos de muitas
rãs. Pescador pesca sol, pesca sonho, tempestade, quando
Iemanjá quer. Velho poço d’água mergulha um balde vazio
enche a lembrança. Observe o trabalhador ...No shopping
preocupado com salário e as férias atrasadas são as últimas a
fecharem ...as portas suas mãos de plástico e ferro promovem o
trabalho depois que escurece a Lua, e tudo é silêncio no
mercado, na escola, na igreja e nas praças os vazios olham-se
de soslaio ...as cadeiras, as mesas ...descansam doutra diária
suor corre na ruga na folha do calendário passando dia a dia,
seu nome de batismo é Haicai, casado com a Natureza Sábia.
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 74
Marcello Ricardo Almeida
Na velha floresta, pé de vento na árvore; e o folhear, aí,
cai. Na casa do Haicai, mergulham no balde d'água os pés
cansados. E Natureza e Haicai conversam, e ele cochila ouvindo
a voz dela. E essa hora, em minha casa, na janela da sala o sol
acorda a praia: desce um bando de maçarico-do-banhado; no
jardim de casa: hortaliças tomadas pelo sopro do vento sul; no
quintal, a jabuticaba.
Disse Haicai à Natureza: Vejo emoldurada na velha porta
de madeira a sombra da primavera. 1...2...3...4...5... Lavadeiras
pulam no rio a e i o u. O frio do inverno abriga-se nas rochas
fogem os morcegos. A casa das formigas naquela tarde de chuva
o açucareiro. Mãe-d'água na pedra; banho de sol no cabelo só
bebe saquê. A velha calçada atravessa a tarde quente um
caramujo. Para de bater o coração da árvore por causa dos
jornais.
Frente al mar – Un corazón de mujer frente al mar puede
transmitir la geografia del oceano la cena a luz de velas em El
mar El barco navega lento em uma noche clara en Viña del Mar.
Will you come up to limerick? – 1 – Loose Noose Tie Lie Loose.
– 2 – At the death’s door A silver coin poor From head to foot In
a bad fix, in a mess root At the death’s door.
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 75
Marcello Ricardo Almeida
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 76
Marcello Ricardo Almeida
Dez minutos de alegria:
o papel de quem lê
e escreve na escola vi mais longe
Professora Julia leciona Língua Portuguesa, na escola
pública. É dela os fins e os meios pedagógicos dos dez minutos
de alegria.
Como surgem estes dez minutos de alegria ao final da
aula? No Ensino Fundamental, as salas estão cheias.
O fenômeno político do aparelho celular, com acesso à
internet em salas de aula, ressignifica, subjetivamente, a vida na
escola. Os dez minutos de alegria da professora Julia
ressignificam o vínculo afetivo entre quem se propõe a ensinar e
quem se propõe a aprender.
Cabe ao mundo escolar a prática da protoafetividade.
Pedagogicamente, a professora Julia conquista em seu ofício as
salas de aula. Julia, vindo à aula, vê-la, vence-a. Ela percebe o
outro pelas qualidades dos afetos conscientes.
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 77
Marcello Ricardo Almeida
E o que é protoafetividade exercida por Julia neste
universo das aulas de português? O interruptor da
protoafetividade – encontra-se no artigo “Expectativa de
aprendizagem refletida no mito de ensino” – não acende
palavras amorosas ou gestos carinhosos, porém lança o foco de
luz sobre emoções e sentimento em relação aos conteúdos entre
o ensinar e o aprender. Tais conteúdos passam a fazer sentido
(por causa da emoção e sentimento envolvidos nas relações
cognitivas), não apenas para quem ensina, mas também para
quem aprende.
Com esses dez minutos de alegria, a professora Julia
proporciona ao aluno reviver afetos de alegrias. Estes afetos
neutralizam o estereótipo de associar os estudos de português
com angústias e repressões.
Cada afeto pertence a cada um, isto difere do aspecto
coletivo do sentimento. A professora Julia, em sua experiência
coletiva, desperta nas aulas o exercício da partilha dos
conteúdos presentes no componente curricular da Língua
Portuguesa. Isto acontece graças a sua sensibilidade
pedagógica, e anula a emoção negativa que possa haver
durante o estudo de português.
Há mais de duas décadas, vou à mesma barbearia aqui
perto de casa. E, ontem, Souza quis saber por que as pessoas
têm tanta aversão ao livro. Talvez, esta aversão se inicie na
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 78
Marcello Ricardo Almeida
escola. Não nas aulas de português quando há o exercício da
protoafetividade.
Com essa liberdade pedagógica dos dez minutos de
alegria, a aula rompe com o tradicionalismo colonialista da
pedagogia tradicional. Contesta o sistema do castigo à
indisciplina, desliga-se do escravismo à punição e reconhece a
sala de aula como espaço político.
Pedagogia dialógica reconhece a sala de aula como
espaço político. É no espaço político democrático onde se
estabelece quaisquer diálogos no exercício das ensinências e
aprendências.
Dez minutos de alegria, uma expressão metafórica que
simboliza as aulas democráticas, expressa a vontade de querer
levar a escola pública mais longe. Livrá-la do abandono, da
carência, do castigo, da reprovação.
Porque indisciplina em sala de aula leva ao castigo, este à
reprovação, ao abandono. Perde-se a aura que existe nas
relações de afeto. E o ensino tropeça na indiferença e prejudica
a aprendizagem.
Até quando a escola que se conhece existirá? Esta é a
pergunta dia após dia pela inteligência artificial generativa. O
acendedor de lampiões, de Jorge de Lima, substituído pela
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 79
Marcello Ricardo Almeida
cachoeira de Paulo Afonso no mundo de microplásticos e metais
pesados.
Classes gramaticais de novo? As aulas de português não
são tão só classes de palavras. Convive-se com aprendizado
supervisionado, não supervisionado, semissupervisionado e por
reforço.
O que, inapropriadamente, se diz inteligência artificial faz
autocorreção de texto digitado. Quantos empregos irão
sobreviver até a próxima década?
Como é se sentir livre da pressão, na escola? Os dez
minutos de alegria permitem ao aluno exercitar o diálogo,
fortalecer as amizades, circular livremente na sala.
Biblioteca! ocupe a sala principal, o espaço que recepciona
quem chega à escola, terra entre rios que sobrevive desde os
povos mesopotâmicos. Há um acordo tácito entre a professora
Julia e os alunos, no Ensino Fundamental, que estabelece esse
aprender-biblioteca.
Afinal, o mundo é construído por bibliotecas; Borges fala
sobre isto em La biblioteca de Babel. Na arquitetura escolar, o
espaço da biblioteca não é apenas mais um setor pedagógico;
nela, aluno e professor estabelecem parcerias. Estes dez
minutos de alegria implantados no Ensino Fundamental é uma
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 80
Marcello Ricardo Almeida
parceria entre a professora Julia, alunas e alunos com efeitos
humanizatórios.
Como é no fim, é no princípio, e o princípio da
aprendizagem colaborativa no ensino age na integração entre os
envolvidos no processo educacional. Nisto ressurgem
inferências, sem elas não se deduz resultados nem
interpretação das informações recebidas na escola.
São parcerias na escola que a permitem ir mais longe. O
papel de quem lê e escreve na escola vai mais longe.
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 81
Marcello Ricardo Almeida
Oficina de crônica
Aos devotados a Cronos, hoje, inauguro a Oficina de
Crônica. Na primeira seção, ei-lo verbo, e este se faz crônica. O
que é crônica, de que se faz, em que se divide e do que se
alimenta? Meras narrativas literárias ou especulações em jornal
(em plataformas digitais).
Inaugurada a Oficina de Crônica. E, cada dia existe e
resiste, dia após dia, não por causa da crônica, graças a esta
capacidade do povo em alimentar mitologias. E na rua onde
moro há exemplo.
Diegese é a realidade ficcionalizada na criação narrativa;
e um texto transmite a sua mensagem com a qual se comunica;
na oração há a presença do verbo na unidade sintática com
ajuda do predicado; a cada palavra formasse frases. No dizer de
narrações autodiegéticas, move-se o mundo pela potência das
imagens e a crônica faz-se com 1001 noites.
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 82
Marcello Ricardo Almeida
Crônica casa com cronista feito o texto fruto de
observações. E, assim, textualiza-se; tão textualmente vivos,
Cornificando realidades qual louco fingimento, A realidade que
escapa por dedos que de fato é crônica viva. Uma parente
daquela Autopsicografia fingida e fugidia, Crônica (as e os que
as escrevem não diferem das/dos que leem), não exatamente
nesta ordem ou desordem e, assim, transbordam, seguindo
segundo a cultura ora de quem as escreve. E, por fim, nas linhas,
nos nós e por entre breves parágrafos moles, As ideias, as
inferências e tão fugazes fruições, neste parque de diversões,
míticas e temporais seguem carrosséis a festa que se faz
pedindo mais diversões.
O que move o mundo? As significações. Na segunda
seção: Estratégia do universo. De que universo se fala? Do
universo do cronista que cornifica a sua casa. Aqui, o público
alvo convive com a linguagem, com o objetivo para delimitar os
dados fugazes da realidade. Sabe-se: cronista é poeta que
escreve prosa.
E os eixos de aprendizagem, processos criativos,
mediação, intervenção sociocultural? Deixe tudo à crônica, a
crônica possui um estômago do tamanho do mundo. A crônica
como gênero cujo texto é coletado sempre da realidade e esta é
analisada jornalística ou literariamente por cronistas.
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 83
Marcello Ricardo Almeida
Crônica e conto têm diferenças sutis. Falta à crônica enredo e
conflito.
Por que se diz crônica? Não sabe que é pela devoção ao
tempo, chronica a Khrónos devotada. Dela é o tacho onde giram
os ventos e fazem derramar as nuvens. Na oficina, você sequer
imagina o interesse; isto sem falar na frequência dos alunos, nas
perguntas, nos diálogos, nas mensagens.
Gênero crônica, às vezes com o olhar de Betty
representada por Lauren em “Uma Aventura na Martinica”, e
outros veem Feathers por Angie em “Onde Começa o Inferno”,
as peripécias de Arlequina por Margot. Crônica desde os tempos
dos folhetinistas. Nela um quê de Capitu provocando ciúmes a
Bentinho, ou Gabriela no telhado ao lhe escalar Sônia; Rosa, por
Yoná em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, talvez o cronista
celebrado contista, poeta que se notabiliza com “O Corvo”, que
trata do feminicídio com mote à morte de uma amante, nas
palavras de Edgar, “despojado de seu amor.”
Ávida vida é transportada no carro das ciências
imaginárias e a leitura o contrato de adesão estabelecido entre
quem escreve e quem lê. Na terceira seção, na oficina, ouve-se
com frequência falar que o futebol é invenção inglesa
e a crônica uma invenção francesa; e, na quitanda, aqui perto de
casa, ninguém acredita não ter sido a crônica literária invenção
carioca. A tal quitanda lembra aquele comércio no início do
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 84
Marcello Ricardo Almeida
século passado onde Don Corleone é baleado ao comprar
laranjas.
Na quarta aula, a semana vai alta, as características ao
gosto da midiosfera na comunicação impressa em papel ou
publicada nesta territorialidade virtual. Textos, palavras, ei-las
orações em parágrafos – sobre situações comuns – nas criações
em cujos elementos (tempo e espaço) transitam personagens
onde vive e revive o gênero textual narrativo transfigurando
fatos, crônica a observar os acontecimentos “invisíveis” a
maioria do povo. Há fato e este, aparentemente banal,
transmuda-se na crônica sobre o cotidiano.
Cabe à crônica coerência, coesão (estratégia da
textualidade). É a crônica dando sentido à realidade, gênero
coerente por natureza em sua recriação. Crônica é coesa ao se
transfigurar no fato do qual se alimenta usando as veredas
gramaticais. Crônica faz-se crônica ao ser de trânsito fácil na
mobilidade urbana.
Crônica diz por escrito o que se diz no bate-papo do dia a
dia. E o que fala a crônica amplia-se de sentidos e objetividades,
mesmo quando é lida carregada de dizeres que lhe
ressignificam.
E, nesta primeira semana, a oficina de crônica consolidase.
A oficina estável igual a quitanda próxima à casa onde moro.
Ela torna-se alimento desde à matrícula, fortalecendo as fruições
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 85
Marcello Ricardo Almeida
e inferências como se imagina o sentido dos afetos nas relações
humanizatórias.
Com a metodologia dialética na oficina, onde uma opinião
ouve uma segunda opinião e chega-se à terceira, o
conhecimento prévio é discutido dialogicamente. Diálogo
prevalece na oficina. Este é o seu desfecho apoiado na reescrita
e sumarização (resume-se e constrói-se mentalmente o texto) e
se estabelece expectativas em múltiplos universos temáticos.
Na segunda semana, alunos usando os seus próprios
recursos expressam-se cronificando múltiplos universos
temáticos. Até alguns em textos multissemióticos que navegam
nas ondas da concordância nominal e verbal. Nas unidades de
sentido, as naus em mares nunca antes guiadas por normas
gráficas em sintonia com o gênero textual narrativo; agora,
releem, revisam crônicas produzidas, com interação do
professor.
Ao cabo de um mês, o aluno é capaz de escrever uma
crônica por si, sem o nível de desenvolvimento potencial. Em um
mês, na oficina de crônica, o aluno encontra-se no nível de
desenvolvimento real porque a escreve sozinho. O nível de
desenvolvimento proximal distancia-se do aluno a cada seção.
Relendo e revisando a própria crônica, o aluno não depende
mais do nível de desenvolvimento potencial, pois consegue
escrever a crônica sem ajuda do professor. Com domínio, ele
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 86
Marcello Ricardo Almeida
desenvolve as competências e habilidades, domina os
conhecimentos necessários ao pleno desenvolvimento das
competências mobilizando diferentes habilidades. Por si mesmo
faz cortes, faz acréscimos, reformulações, pontuação, correções
de ortografia, dá função social à crônica.
Na oficina de crônica, o aluno faz o caminho ao caminhar.
Apto a analisar situações no dia a dia da própria vida ou da vida
alheia. Problematizando o que se chama de estilo de vida.
Sabendo o valor de se respeitar às diferenças e às liberdades
individuais. Olhando o céu à espera de discos-voadores e
navegando nas redes. Sem se afastar dos valores sociais,
culturais e humanos, aprendendo a ser cronista, não do tempo
caduco, não como fuga no passado, cronista de seu tempo.
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 87
Marcello Ricardo Almeida
A alma de Santana
é literomultipluritransdiciplinar
A crônica possui uma fala que percorre grande sertão:
veredas. É a crônica a oferecer à cidade o oxigênio necessário:
sangue à vida dos animais, seiva à vida dos vegetais. A
divindade mítica do tempo em Santana em gênero literário
transfigurado. É a crônica, filha de Cronos, a trazer a proposição
presente em sua alma.
Alma existe realmente? Existe. Se existe a alma, o que é
a alma? É a festa do homo festivissimus.
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 88
Marcello Ricardo Almeida
O que se festeja, festeja-se motivado pela provocação
psyché? Processos comuns nas relações humanas que motivam
as festas cabem a quem conduz as atitudes controlar a direção
à qual se destina; como se diz no mito do cocheiro sobre a força
da alma, cabe a quem conduz a direção da festa aceitar ou não
a provocação psyché.
É a história que demonstra a provocação psyché. Se a
alma de Santana é a Festa de Santana, a gênese está no gene
autóctone Fulni-Ô, e se encontra a gênese da protofesta em um
tempo que surge no tempo de 1787 quando as águas do São
Francisco trazem o padre nascido em Penedo à Ribeira em sua
viagem ao sertão. Francisco Correia com nome de rio e o rio com
bom nome de santo.
Padre Francisco Correia quais corredeiras em alusão é
Francisco trazido pelas águas do rio pra construir sobre a pedra
a primeira capela. Padre Francisco devoto de Nossa Senhora
Sant’Anna.
O rio que corta como faca com sua água e corta o rio com
a sua água escura de lâmina escrevendo páginas na história de
Santana. Padre Francisco Correia substitui as suas cores de
Penedo pelo semiárido sertanejo vencendo aroeira-do-sertão,
caatingueira, baraúna, imburana-de-cheiro. E no ano de 1812, o
padre chega pra morar na velha Ribeira o caboclo e o vaqueiro
o amarelo e o mentiroso e o criador de cavalos e o tangedor de
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 89
Marcello Ricardo Almeida
burros e o domador de gados colecionador de urros a mulher pia
e os filhos o encantador de vento o monarca e o escravo as
abelhinhas e o favo o trabalho e a preguiça a liberdade e o látego
ouvem as rezas do padre. Padre Francisco faz amizade com
povos Fulni-Ô em sua metafísica catequiza em sua catequese
esculpe e prega aos habitantes ribeirinhos do médio rio Ipanema
Funi-Ô, Kariri, Cajaú, Carijó, Iatê. Em 1838, o Padre Francisco
Correia pacificou os sebastianistas conhecidos revoltosos da
Pedra do Reino Encantado de Dom Sebastião. Em 1937 o
interventor Osman Loureiro decreta chamar uma escola em
Santana de Grupo Escolar Padre Francisco Correia; no grupo
estudam nomes que honram quaisquer lugares na história do
Brasil. Acauã acorda a manhã, e é festa em Santana.
Faz-se a cidade pela festa e a festa faz-se na luz. A alma
de Santana é a sua história preservada por seu povo, filhos
adotados, legítimos, visitantes, vizinhos.
Lendo Santo Agostinho, encontra-se em Santo Agostinho
que a alma é quem governa o corpo. E a festa na cidade é uma
espécie de consciência: age com a força que governa as
atitudes.
Sentidos físicos e metafísicos são manifestos na festa de
Santana nesse período de festa, na cidade. Porque durante as
festas afloram as emoções e as decisões que surgem
inevitavelmente nos exercícios de criatividade festiva.
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 90
Marcello Ricardo Almeida
A alma da cidade é o que Anaxímenes refere-se ao falar
sobre arché. É o princípio na cidade do qual tudo se origina.
Sem alma a cidade não se sustenta. Alma está associada
ao pensamento, à sensibilidade, ao que afeta as relações; como
se diz, manifestam-se as relações mais facilmente nas festas.
E o que é a alma de Santana? É a festa de Santana. É a
característica principal do homo festivissimus. Não há alma se
não houver homo festivissimus.
A história dramatizada de Santana no método Teatro-
Feijão-Com-Arroz é a alma de Santana? Nas personagens:
Transeunte; Morador; Ator I; Ator II; Teresinha; Francisquinho;
Padre Escultor; os Fulni-Ô; Dom Perdigão; Padre Francisco
Correia; Cantores. Período – Ação passa-se em Santana.
Quando alguém lhe pede informações sobre o nicho na Casa da
Memória Afetiva, na cidade.
Situação um - Fase A – (No palco) em uma rua de Santana.
Transeunte: Acaso sabe onde fica o Grupo Escolar Padre
Francisco Correia? Morador: Sei. Mas, não é mais grupo escolar.
Transeunte: Não? E onde fica? Morador: Fica no Monumento.
Mas, agora, é Escola Estadual Padre Francisco Correia.
Transeunte: Escola Estadual Padre Francisco Correia. É aqui
perto? Morador: Suba a ladeira. Transeunte: E depois? Morador:
Passe à Prefeitura, desse lado, e depois uma praça do outro.
Transeunte: Uma praça e...?
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 91
Marcello Ricardo Almeida
Na Fase B – Na plateia do Teatro-Feijão-Com-Arroz. ATOR I:
Houve um tempo no tempo de 1757. Como em 1757 outros
nasceram. Na pequena Penedo daquele tempo. Quieto às
margens do São Francisco. ATOR II: No silêncio do velho canto
Saboeiro. Em outro tempo era o ano de 1787. E as águas do
São Francisco trouxeram. O padre nascido em Penedo à
Ribeira. ATOR I: Em sua viagem de Penedo ao Sertão. Francisco
Correia com nome de rio. Com rio com nome de santo.
Francisco. Correia como as corredeiras em alusão. ATOR II:
Padre Francisco trazido pelas corredeiras. Para construir na
pedra a primeira capela. Padre Francisco um devoto de Santa
Ana. ATOR I: O rio que corta como faca com sua água. Corta rio
com sua água escura de lâmina. Escrevendo páginas na história
de Santana. ATOR II: Padre Francisco Correia troca as cores.
De sua Penedo pelo semiárido sertanejo. Venceu Padre
Francisco aroeira-dosertão. Caatingueira baraúna imburana-decheiro.
ATOR I: Qual Rio São Francisco também vencera. Na
grande seca de 1807 muitas histórias. De fome e tantas foram
histórias de sede. ATOR II: E a morte levou Padre Francisco
Correia. Em 1848 escultor em peças de madeira. Sabe que
pássaro é aquele? não é uma ave? É acauã! acauã? que vem
acordar a manhã. ATOR I: E veio à história a história doutra
história. E educou o sertanejo. Na cartilha do Grupo Padre
Francisco Correia.
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 92
Marcello Ricardo Almeida
Situação dois – Fase A – No palco, a infância de Francisquinho.
Teresinha: Ó Francisquinho! Francisquinho: Que, mãe!
Teresinha: Sai de cima dessa pedra, Francisquinho!
Francisquinho: Que, mãe! Teresinha: Tu vais te afoitar, o rio São
Francisco te pega, Francisquinho! Francisquinho: Eu vou pescar,
senhora minha mãe. Teresinha: Pescar, Francisquinho! E os
estudos
para ser padre, Francisquinho? Francisquinho: Vamos ter peixe
ao almoço, Dona Teresinha! Jesus ensinou a Pedro onde jogar
a rede. Aqui, não tem peixe? O que importa é a fé, Dona
Teresinha, minha mãe. Teresinha: Ainda te vejo estudando
Direito Canônico, na Universidade de Coimbra, Francisquinho.
Fase B – Na plateia do Teatro-Feijão-Com-Arroz. ATOR II: E a
vida levou Padre Francisco Correia. Padre-rio que corta quão
faca com sua fala. Corta rio com sua água escura de lâmina.
Escrevendo páginas na história de Santana. ATOR I: E há 200
anos veio à história a história doutra história ida. Na cartilha do
Padre Francisco José Correia de Albuquerque. Que bem ali na
Ribeira do Ipanema soprou o barro e fez vida. ATOR II: Era o ano
de 1812. E Francisquinho Chegou para ficar. Na velha Ribeira.
ATOR I: O caboclo e o vaqueiro. O amarelo e o mentiroso. E o
criador de cavalos. E o tangedor de burros. E o domador de
gados. Colecionador de urros. A mulher pia e os filhos. O
encantador de vento. O monarca e o escravo. As abelhinhas e o
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 93
Marcello Ricardo Almeida
favo. O trabalho e a preguiça. A liberdade e o látego. Ouviam as
rezas do padre. ATOR I: Padre Francisco fez amizade com
povos Fulni-Ô. Em terras de gado dos irmãos Martins e Pedro
Vieira. ATOR II: E nas terras sertanejas ditas terras de ninguém.
Sesmarias espalhadas do litoral ao sertão. De bravatas de brigas
de viajantes aventureiros. O Padre Francisco Correia em todo o
Sertão viajaria. Com nome de rio que viajava em leito de pedra.
Francisco foi seu pai e franciscana a congregação. ATOR I:
Enquanto trabalha na porta da capela. Senta-se o Padre
Francisco Correia. Com Fulni-Ô e esculpe em madeira. Compõe
padre seus hinos de louvor.
Situação três – fase A – No palco, a oficina de escultura do
padre. Padre escultor: Sabe o que vai sair desta madeira, meu
irmão? Fulni-Ô: O que, senhor padre? Padre escultor: Um
crucifixo. Fulni-Ô: Crucifixo? Padre escultor: Esperem! Fulni-Ô:
Isso? Padre escultor: Estou compondo. Vem, vem pecador.
Onde é que te escondes? Teu Senhor te chama. E tu não
respondes? Responde a Jesus. Que já é tempo. Não confie na
vida. Que é transitória. Da morte à lembrança. Trazer na
memória. E te chama desta cruz. Quem chama é Jesus. FulniÔ:
Jesus? Padre escultor: No princípio, Deus criou o céu e a
Terra. A Terra estava sem forma e vazia; as trevas cobriam o
abismo e um vento impetuoso soprava sobre as águas. Deus
disse: “Que exista luz!” E a luz começou a existir. Deus viu que
a luz era boa. E Deus separou a luz das trevas: a luz Deus
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 94
Marcello Ricardo Almeida
chamou “dia”, e às trevas chamou “noite”. Houve uma tarde e
uma manhã: foi o primeiro dia. Fulni-Ô: Quem vai ficar preso a
este madeiro? Padre escultor: Jesus, o filho de Deus. Fulni-Ô: E
o que ele fez pra merecer este castigo?
Fase B – Na plateia do Teatro-Feijão-Com-Arroz. ATOR I: À porta
da capela, a enxó batia na madeira e o padre com os Fulni-Ô.
Em sua metafísica catequizava em sua catequese esculpia e
pregava. ATOR II: Aos habitantes ribeirinhos do médio rio
Ipanema. Funi-Ô! Kariri! Cajaú! Carnijó! Iatê! Carijó! Todos juntos
ao padre eram parte de um povo só. ATOR I: Dos povos
indígenas eram as árvores as aves. As pedras as águas e tudo
o que a terra produz. ATOR II: Este mesmo crucifixo do escultor.
Que conversa com povos Fulni-Ô. Encontrase no altar-mor da
igreja. Matriz da Paróquia N. Sra. Santana. ATOR I: Outros
crucifixos e peças sacras. Foram esculpidos em madeira. Pelo
Padre Francisco Correia. ATOR II: Um fato do padre milagroso.
No tempo das Santas Missões. O missionário franciscano. De
nome Francisco Correia. Como Francisco foi seu pai. E
Francisco o rio em Penedo. Antiga e nativa terra franciscana.
ATOR I: O Brasil do tempo do Padre Francisco Correia. Vivia o
tempo da escravização do semelhante. E Aninha filha de
escravizados na Vila de Propriá. Criança ainda propriedade do
Sr. José Sutero de Góes. ATOR II: Os castigos do tempo de
escravização. Cantados por Castro Alves o tronco. O látego o
pelourinho e o acoite. Aninha recebera a missão de sua ama. De
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 95
Marcello Ricardo Almeida
levar ao padre nas Santas Missões. Uma terrina de louça
coberta num pano. ATOR I: Correu e tropeçou a criança
escravizada. Porque havia um buraco em seu caminho. A terrina
escapou de suas mãos de menina. ATOR II: Quais castigos não
receberia a pobre Aninha? Chibatadas lhe esperavam na casa
de sua ama. ATOR I: Senzalas e casarões alusões aos castelos
medievais. A aristocracia burguesa como uma nobreza tardia.
ATOR II: Trêmula de medo a menina Aninha corre e tropeça.
Contando por certo ser castigada na casa grande. ATOR I: Padre
Francisco Correia de Albuquerque. Como alguns registraram os
seus milagres. Sabendo do ocorrido com Aninha escrava. Ana
avó de Jesus Ana de sua devoção. Ana a santa que daria nome
à Ribeira. de Ribeira para Sant'Ana do Ipanema. ATOR II: Disse
o Padre Francisco Correia. Aninha junte os cacos da vasilha.
Una uns aos outros e cubra-os. Novamente com a toalha de
louça. ATOR I: A fé de Aninha foi tanta e a alegria. Como tantos
outros casos ocorridos. Que Aninha ao chegar à casa grande.
Onde crime e castigo lhe seriam atribuídos. Pôs sobre a mesa a
terrina sob a toalha. E a descobriu e estava inteira quanto era.
ATOR II: Padre Francisco Correia abriu muitas Santas Missões.
Devotos viajavam léguas para ouvir as prédicas. ATOR I: Brejo
Grande conheceu o missionário Francisco Correia. E também
Girau do Ponciano e a Barra do Ipanema. E Palmeira dos Índios
e Águas Belas e Recife e Olinda. E Pacatuba e Propriá e Porto
da Folha e São Brás e Quebrangulo. E Ribeira do Ipanema e
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 96
Marcello Ricardo Almeida
Penedo e Papacaça e Junqueiro. E Poço das Trincheiras e
Anadia e Flores e Bezerros e Ingazeira. E Baixa Verde e Serra
Talhada. Muitos povos e muitas terras... ATOR II: Foi no ano de
1838 que o Padre Francisco Correia. Pacificou os sebastianistas
conhecidos revoltosos. Da Pedra do Reino Encantado de Dom
Sebastião.
Situação quatro – FASE A – No palco, na igreja de Dom
Perdigão. Dom Perdigão: Padre Francisco Correia, neste ano de
1835, a Paróquia de Flores o terá como vigário. Padre Francisco
Correia: Dom João Marques Perdigão, aqui, eu ouvi falar no
profeta João Ferreira. Dom Perdigão: Aquele chefe de seita fez
morrer, aqui em Pernambuco, mais de 50 fanáticos em terrível
sacrifício.
Fase B – Na plateia do Teatro-Feijão-Com-Arroz. ATOR I:
Contam os biógrafos do padre. Que Dom João Marques
Perdigão. Com ajuda de chefes políticos locais. Confiou ao
Padre Francisco Correia. O rebanho da paróquia de Flores. E foi
o Padre Francisco Correia. Quem pacificou a região zangada.
Pondo fim à seita de João Ferreira. ATOR II: Lutou o padre a boa
luta. Lutou Francisco Correia. Contra muitos adversários. De El-
Rei o Dom João VI. ATOR I: Outro ano o Padre Francisco José
Correia de Albuquerque foi eleito. Membro do Conselho Geral do
Governo da Província. ATOR II: Padre Francisco José Correia
de Albuquerque. Deputado Geral apresentou projeto. Criava a
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 97
Marcello Ricardo Almeida
Freguesia de Santana da Ribeira do Ipanema. ATOR I: Pintor e
arquiteto Padre Francisco Correia, o construtor. Erguera capela
em Limoeiro de Anadia e também em outras vilas. Foi dele a
primeira capela de Santana que hoje é a Igreja Matriz. ATOR II:
O padre falecido em 1848. Foi sepultado na Capela de Nossa
Senhora do Rosário. Em Bezerros Pernambuco. E muitos foram
os prodígios do Padre Francisco Correia. ATOR I: No fim dos
tempos idos de 1937. O interventor Osman Loureiro decretou.
Chamar uma escola de Grupo Escolar Padre Francisco Correia.
Situação derradeira – Fase única – No palco, na mesma rua do
princípio em Santana. Morador: Sempre foi descortês ao
visitante que visita o município quando, na cidade, pergunta-se
sobre um tal lugar e ninguém sabe onde o tal lugar se encontra.
Entendeu onde está o velho Grupo Escolar Padre Francisco
Correia? Transeunte: Não só entendi, como sei boa parte de sua
história. Morador: Tudo não possui uma história? Transeunte: É
o que se diz. Sempre é mais fácil, quando se conhece a História.
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 98
Marcello Ricardo Almeida
Feira no sábado
E se a feira no sábado em Santana torna-se patrimônio
cultural? Talvez, assim, passe a compor o calendário dos
eventos estaduais; quem sabe, haja lucros e beneficiados, a
exemplo do comércio e do turismo, na cidade.
As lideranças santanenses hoje acordam com um novo
propósito histórico. É a crônica quem registra que o colorido na
feira no sábado em Santana une-se a outros elementos e torna
a feira no sábado patrimônio imaterial; seus elementos, nos
livros e decerto no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Cultural (IPHAN), encontram-se na tradição da feira.
Feiras em qualquer parte do planeta é um fenômeno
extremamente rico; as cores proporcionadas pelas feiras, as
vozes que se escutam em feiras, vendilhões apregoando os
seus produtos, a tradição da pechincha que é sociocultural
porque em toda parte se acha. Os produtos vendidos sob o sol
nas ruas.
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 99
Marcello Ricardo Almeida
Na mitologia grega, como se sabe, Cronos devora os
filhos. Na crônica, a feira no sábado em Santana já é patrimônio
imaterial antes que a pressa do tempo devore a feira no sábado,
devore os costumes da feira em Santana, devore as expressões
da feira, os saberes, os elementos culturais intangíveis. Esta é a
crônica que, talvez, torne possível a feira no sábado em Santana
como patrimônio imaterial.
As civilizações antigas, centenas de anos antes de Cristo,
criam o comércio nas ruas, ao lado das casas, dos casarões,
dos casarios e, assim, está criada a feira. Tudo, ou quase,
encontra-se nas feiras. Sapatos, comemorações, laranjas,
poesia de cordel, farinha, móveis, batedores de carteira,
abacaxis, aves, beijos roubados, chapéus, roupas, flores,
utensílios, carne verde, comida, gaiolas, livros, fotografias,
repentistas, acordos, música, quadros, vacas, galinhas, porcos,
facas, artesanatos, cereais, couro, legumes, vegetais
encontram-se nas feiras livres.
Há um acordo tácito em retornarem às mesmas pessoas
em determinados dias na semana e participarem todas do
comércio de rua. Voltasse hoje à mesma tecla: a feira no sábado
em Santana, a tradição da feira no sábado em Santana de
geração a geração. Feira no sábado em Santana como
patrimônio imaterial na proposição que reivindica à maternal
A CRÔNICA FILHA DE CRONOS 100
Marcello Ricardo Almeida Santana o reconhecimento em se salvaguardar a sua feira no
sábado como patrimônio cultural intangível.
Os próprios dias da semana ganham sobrenome de feira,
exceto sábado e domingo; mas no sábado, a feira estende-se
por toda parte. A feira vem desde a antiguidade, desde a
etimologia da palavra feira com a palavra feriado, com o termo
dia santo. A feira livre em Santana trata o freguês no sentido em
que o dicionário etimológico reserva aos filhos.
O espaço público destinado à feira livre em Santana é um
verdadeiro exercício cultural. Santanenses seguem a motivação
em tornar a feira no sábado em Santana em patrimônio imaterial.
Em Santana, as toldas tomam as ruas; e é tão bonito de se ver;
comadres e compadres vão-se reencontrando na feira no
sábado em Santana, a tapioca na mão, o mercado de carne, ô
saudade. E, essa hora, o povo na feira desde cedo, desde
ontem.




