Osuor correu testa abaixo e parou dentro dos olhos, e Zémambembe não conseguiu evitá-lo. O tempo não lhe era favorável.
Nhééé-crac, nhééé-crac!
O que a Vírgula era capaz de fazer à Frase? disse Zémambembe acusado de demência por Simplicidade.
Nhééé-crac, nhééé-crac!
Tudo é microrganismo, Frase. Sem exceção, Frase, somos filhos, não do amoníaco, mas dos microrganismos.
Nhééé-crac, nhééé-crac!
Mas Simplicidade só se satisfazia se pisasse na Frase; e a bombardeasse com a Vírgula. Quantas vidas sacrificadas, Simplicidade! Ela não se preocupava com ninguém, alertou-me em vão a Vovó Velha.
“Vamos comer gente!” isso é a cara dela, que sai por aí tratando a Vírgula sem parcimônia nem respeito à Sintaxe, que é a senhora mais exigente que foi criada e recriada. Simplicidade não diz “Vamos comer, gente!” Ela não sabe que a Vírgula dita o ritmo do coração?
Não sofra e – não, sofra – riu Zémambembe, são diferentes, Simplicidade. Mas ela não entende a linguagem da Vírgula, que separa ou conecta sentidos.
Simplicidade possui o hábito de separar o Sujeito do Verbo com a Vírgula. Ela desconecta o que não pode ser desconectado.
E, da mesma maneira, Simplicidade aaama ver o Verbo sempre separado do Complemento pela Vírgula. Verbo e Complemento, pra ela, devem se separar sempre. Talvez por isso odiasse tanto.
Como poderia esquecer! Simplicidade, eu me lembro, chegou aos portões do longevo casarão da Baronesa Kuaanddussiphoddenn. Vovó Velha olhou por cima dos óculos:
Quem é, Zémambembe?
Era Simplicidade. Estendeu o braço fino através das grades com o cartão entre os dedos esqueléticos. Quê! Simplicidade, ocê é baixa. Quê! Simplicidade, cê é seca. Ela andava no bairro oferecendo um curso de desenho e pintura. Foi assim que Simplicidade me enredou. Caí na lábia dela, que usava batom roxo e tinta em Body Art.
Nhééé-crac, nhééé-crac!
No estúdio de fundos de quintal, Simplicidade lambuzou o meu corpo. Eu gostei. Vovó Velha desaprovou. Lutei, armado de argumentos, com toda a força pra convencer Baronesa Kuaanddussiphoddenn. Vovó Velha jamais aceitou ter Simplicidade dividindo o quarto comigo no longevo casarão da baronesa. Mas a vida é assim: um balanço: um sobe, outro desce. Vovó Velha desceu. Antes que o corpo da Baronesa Kuaanddussiphoddenn esfriasse, Simplicidade começou a se desfazer de tudo.
Por que, Simplicidade?
Tudo velharia!
Percebi, em uma manhã, que coincidiu com outra e se repetiu com a tarde, que foi engolida pela noite de lua cheia, Simplicidade com um caso extraconjugal com o Verbo, um dos vizinhos. Achei estranho. Quando lhe perguntei, disse-me tratar-se da crise do Complemento. Imagina se eu poderia acreditar nisso! Óbvio. Não acreditei. Mas ela jurou pela morte da Baronesa Kuaanddussiphoddenn. Acreditei. Éramos recém-casados. Eu saía pra trabalhar, o Verbo entrava no longevo casarão da baronesa.
Frase, mulher do Verbo, surpreendeu Simplicidade e ele fritando bolinhos. Frase não gostou. Veio me contar. Fique tranquila, Frase. Eles queriam salvar o Complemento, que perdeu o emprego federal por vender informações sensíveis.
Vi Frase puxar o fôlego. Ela era asmática? Correu desenfreada.
Volte, Frase. Volte aqui, por favor!
Ela não correu duas braças. Tropeçou no fluxo de consciência. Reclamou da grama alta, que não era cuidada pelo marido:
Verbo não faz nada além de ser verme!
Corri atrás dela. Frase trancou-se. Havia um vácuo de silêncio, bem sei. Pensei que pudesse ajudar Frase com um abraço, um beijo em cima, um aperto embaixo. O vácuo de Frase me emocionava. Antes de consentir que a ideia fosse adiante, vi que ela possuía o poder de erguer muros maiores se comparados a todos de cada longevo casarão.
Meu Deus, como Frase era linda quando jovem!
Vi, errado, óbvio, uma fresta na porta de Frase. Esperei em vão, óbvio, a voz dela soprar entre os espaços apertados. Ainda lhe espero uma confissão.
Frase ainda é linda qual um sopro divino.
Demorada e melodiosamente o carro gemia. Propagava-se o gemido pela Vila de São Gabriel. Ocupava as casas, as cozinhas, as ruas, as praças onde as crianças arremessavam piões, os serrotes, as serras tomadas pelo gemido.
O conto é o encontro, disse Zémambembe, conduzido à contragosto, da Vila de São Gabriel a Olho D’Água dos Lírios. O conto é o reencontro da surpresa com o espanto.
Aboiava Zémambembe amarrado sobre a mesa do carro de boi:
Vai, Tufão,
Deus dos martírios.
Toma o teu destino
Acaba o riso.
Faz com que a morte
Não toque os vivos.

Qual brisa à tarde,
Ei-los que vivem
Rindo à vontade.
Interrompeu Zémambembe a sua toada, quando a engrenagem no relógio da igreja balançou os sinos, e os ponteiros, quietos, se moveram. O martelo bateu 12 vezes na cabeça dele.
O silêncio do caminho morre sob o estalo de gravetos secos.
O sol castiga.
Um peso invisível circula o longevo casarão que se afasta do carro de boi.
As últimas e largas folhas do maracujazeiro, cujas flores são chamarizes de mangangás, roçam à cabeça de Zémambembe, amarrado. Uma dupla dessas criaturas irascíveis do inferno circula a minha cabeça, o prisioneiro reclama. Ele teme receber ferroadas na nuca a qualquer momento. Anuncia, pede ajuda, grita ao carreiro, que o ignora.
Nhééé-crac, nhééé-crac!
Zémambembe põe-se a resmungar com a frase e o poder de alteração do uso da vírgula:
Um peso invisível circula o casarão, que se afasta.
O carreiro é seco. Descalço. As pernas da calça, enroladas, chegam aos joelhos. Ele anda na frente dos bois. A vara de ferrão às costas. Na boca, pende um cigarro de palha. Segue-o um cão.
O calor parece derreter o que há na cabeça de Zémambembe, que fecha os olhos como se pudesse evitar o suor que escorre da testa. Percebo, disse, o líquido inodoro nascido das glândulas sudoríparas correr como uma fonte quente diretamente para dentro dos meus olhos, mesmo fechados.
Um peso invisível circula o casarão que se afasta.
A água misturada à ureia e a proteínas cai dentro dos meus olhos. A testa não para de suar.
Um peso invisível circula o casarão, que se afasta. É oração subordinada adjetiva explicativa.
A termorregulação tenta resfriar em vão a minha cabeça. Isso só hidrata os meus olhos com cloreto de sódio. O suplício do sal permanece nos olhos.
Um peso invisível circula o casarão que se afasta. É oração subordinada adjetiva restritiva.
Um peso invisível circula o casarão, que se afasta. Porque vejo o longevo casarão da Baronesa Kuaanddussiphoddenn. Ele fica, eu me afasto amarrado a cordas na mesa desse carro de boi. A vírgula mexe comigo, toca em mim e faz ameaças iguaizinhas aos mangangás. Até a vírgula adiciona a explicação sobre o longevo casarão da Baronesa Kuaanddussiphoddenn. Toda a vida eu vivi de me afastar. A vírgula deixa esquecer: ela sempre traz uma extra característica.
Um peso invisível circula o casarão que se afasta. No meio desses tantos casarões, na Vila de São Gabriel, o peso invisível circula especificamente sobre o que se afasta. Eu sou aquele longevo casarão. A minha infância foi nele com a Baronesa Kuaanddussiphoddenn. Já a conheci velhinha, quase cega. E ainda sinto as suas mãos de veludo sobre a minha pele, sobre a minha cabeça. O seu sorriso sem dentes. O seu hálito de maracujá. O seu rosto, em sua juventude, e está numa moldura do tamanho da parede, foi uma flor de maracujá. A ausência da vírgula restringe, limita o longevo casarão. Tudo é apenas o que se afasta, e não o que está parado.
Os pés descalços do carreiro passam sobre a terra seca, pedras soltas e espinhos-de-roseta. A sua boca é uma chaminé. Um sopro sem rosto que traz o cheiro de arruda e terra antiga. A baforada luta contra um ar lúgubre e se apaga, deixando apenas o rastro de pavio queimado.
Os bois, que puxavam o carro com o prisioneiro, passaram na frente do casarão abandonado onde o sangue de um amor traído manchou o chão. Hoje, o interior das paredes grossas, sem janelas, abrigava rasga-mortalhas e morcegos.
Murmúrio arrastado de um Pai-nosso. Zémambembe livrou-se da nuvem de mangangás. O som da oração flutua.
Você me culpa, Simplicidade, porque eu não fui ao velório da minha sogra. Não fui, Sim, pois, se tivesse ido, eu teria rezado sobre o corpo dela e a sua mãe seria ressuscitada.
É mentira. Tudo mentira. Seu mentiroso. E não sabe ser outra coisa senão acreditar nas próprias mentiras. Você é uma mentira ambulante. Nunca conheci uma pessoa tão afeiçoada à mentira. Anda com ela debaixo do braço. Há sempre uma pronta para ser contada, e substituída por outra. Sem-vergonha. Facínora. Covarde. Não se importa com ninguém. Isso é uma doença, Zémambembe? Foi na infância, que foi contagiado. Está na cara. Seu imprestável. Você poderia ser facilmente comparado a esgoto, esgoto fedido, que traz das profundezas o que não deve sair dos abismos mais abjetos. Monstro. Monstruoso. Não há nada de bom moço em você, Zémambembe.
Não me acuse, Simplicidade, de charlatanismo ou do que o valha.
É mentira? Tudo mentira. Seu mentiroso filho da...!
Espere, Sim...
Vive chafurdando na mentira, seu desgraçado. Ensinando Bagatela a não fazer outra coisa senão mentir, seu imprestável. E tudo o que toca vira mentira, seu canalha. Não sabe fazer outra coisa a não ser mentir, seu vagabundo.
Mas Sim...
A comida fede a lavagem por sua culpa, seu imundo. Come feito um bicho, seu coisa-ruim. O feijão dormido nadando no caldo azedo, a linguiça coberta por uma camada grossa de sebo, o macarrão é um nojo naquele pote de plástico. E me vem falar que “teria rezado sobre o corpo dela” e a ressuscitaria?
Nasci com poderes especiais, Sim. Criança ainda, fui levado à casa dos príncipes da metafísica, Sim; todos comprovaram haver esse fenômeno em mim, nasci com ele. Ontem, não consegui dormir; hoje, acordei sabendo que não sou mais eu, sou agora Alexandre.
O Grande?
Não me ofenda com perguntas tolas.
Vai Zémambembe, amarrado, na mesa do carro de boi. Transportado da Vila de São Gabriel a Olho D'Água dos Lírios. O rio baixo, essa época do ano. A loucura existe ou não existe? Para mim, não há loucura nem sanidade; o que teima em existir é a espécie da qual somos gerados.
Cantou em redondilha menor:
Infeliz de quem 
Não ama a idade;
Pragueja todos dias.
Lembra o passado 
Em grande tristeza. 
Desgoza o instante,
E o viver vive à toa.
Despreza a alegria 
Em lamúrias tolas.
Logo perde a vida
Igual a um aboio.
Zémanbembe seguiu o canto pentassílabo:
Infeliz de quem 
Não ama a idade;
Pragueja todos dias.
Lembra o passado 
Em grande tristeza. 
Desgoza o instante,
E o viver vive à toa.
Despreza a alegria 
Em lamúrias tolas.
Logo perde a vida.
E o que vem depois da verdade? Zémambembe dilacerou a própria carne com um berro: Por que eu não fui carreiro? Entupa-se, Simplicidade. Entupa-se!
Ele olha; dar de ombros. O carreiro, com o rosto sulcado pelo tempo, volta-se aos gemidos do passageiro a caminho de Olho D’Água dos Lírios.
Que é? segue viagem.
O carreiro, colecionador de curtas palavras curtidas sob o sol da Vila de São Gabriel. Um murmúrio, uma pitada na palha do fumo de corda. Rouca, íntima a voz espremida entre os dentes tingidos e estragados.
Passa uma cerca, passa outra. Um pasto, outro. Ergue a crina um cavalo chucro. O relincho metálico preenche o tempo. Os bois caminham lentos.
O ar de repente vibra, de repente a vibração desaparece. Zémambembe devorado pelo mormaço. As narinas dos bois logo se dilatam.
As patas do chucro arrancam tufos de grama. Segue o vaqueiro, lento; ri da infância, que poderia ter tido e não teve. O cão late ao cavalo, que o responde jogando terra seca.
Nhééé-crac, nhééé-crac!
Uma noite, Simplicidade sussurrou ao meu ouvido: “Eu venho de um reino distante e sem nenhum encantamento. Onde um rei sem alma mima o seu único filho, um jovem tão mal-acostumado quanto o pai. E o mal não fazia outra coisa, durante o dia, a não ser aterrorizar toda a vassalagem. Sonhei com a felicidade, e fui traída. As minhas pinturas foram a única tábua de salvação. Atravessei o rio que separa Olho D'Água dos Lírios da Vila de São Gabriel. Com custo, cheguei aos portões do casarão da Baronesa Kuaanddussiphoddenn. Aqui, fui alimentada e aquecida nos invernos das lembranças mais geladas. Vi o quarto, Zémambembe, a cama sua, que também agora é minha. E só nos restam filhos.”
Gemido do eixo trava por alguns segundos. Mas, em seguida, nhééé-crac, nhééé-crac!
Não, Sim; amanhã receberemos uma criança recém-nascida. Bagatela! cuspiu Simplicidade, como se não acreditasse em minhas palavras. Sim nunca me levou a sério, esta é a verdade.
Nhééééé-crac, nhééé-crac! Nhééé-crac, nhééé-crac! Nhééé-crac, nhééé-crac! Nhééé-crac, nhééé-crac! Nhééé-crac, nhééé-crac!
Os alegres latidos do cão, que acompanha o carreiro, morrem num sopro engasgado e o raquítico animalzinho recua às esguias sombras entre as pedras enormes que ladeiam o caminho. São raras pedras pré-históricas com desenhos cuneiformes que registram a passagem dos sumerianos há 8.000 anos antes de Zémambembe. A areia solta, fina e volumosa faz o carro de boi reclamar nhééé-crac, nhééé-crac! As pedras foram as tábuas das primeiras letras que forjaram linguagens, dos números que encurtavam distâncias.
O cão do carreiro mantém a pata dianteira suspensa sobre o sulco quente, na areia. As narinas dilatadas em um silêncio absoluto.
Em lugar de algum som de pássaro, o monótono nhééé-crac, nhééé-crac!
A sombra do carreiro se alonga, alonga-se a sombra do carro de boi com Zémambembe preso à mesa do carro. A imagem de Simplicidade era a sombra que cobria a areia solta, fina e volumosa, que forrava aquelas pedras tábuas das primeiras letras que forjaram linguagens, números que encurtavam distâncias. Uma sombra de 8.000 anos.
Simplicidade atravessa os dias polindo a mesa do prefeito. Vive de mesa em mesa. Mistura-se à rinha da esquina, anuncia ao mundo que apazigua brigas. Mentira. Uma verdadeira mestra em distribuir socos. Bate na porta de quem não a quer. Não é, Simplicidade? Cobiça o que está fora de alcance, enquanto corre de um lado para o outro com a orelha quente. Não é, Simplicidade? Sussurra o que ouviu ao ouvido próximo. Estende o tapete vermelho com a própria língua e limpa uma mancha invisível no terno da autoridade com um sorriso servil. Vi isso tarde demais. O prefeito é o meu contraparente; o bisavô dele disse à bisavó dos meus tios, que eram parentes; já o seu avô proclamava na Vila de São Gabriel que éramos aparentados.
Nhééé-crac, nhééé-crac!
Zémambembe amarrado à mesa do carro de boi. O sol transforma o metal em brasa viva. O suor lhe vincou a testa, penetra nos olhos que se fecham com a presença do sal. Os lábios secos. As moscas ocupam a mesa. Ele é impedido de levar as mãos ao rosto e afugentar as moscas.
Nhééé-crac, nhééé-crac! no demorado choro das rodas sobre a areia fofa, volumosa, solta. Nhééé-crac, nhééé-crac! não muda ao chegar ao leito úmido do rio. Mesmo na lama permanece nhééé-crac, nhééé-crac!
A luz na água parada, rasa. Os peixes mortos sob a mortalha de moscas. O vento traz a Zémambembe o cheiro do mundo. Mordem-lhe as cordas os seus braços e as suas pernas cobertas por moscas. As cordas ásperas tingidas de sangue das feridas lhe dão uma vaga lembrança das pedras do caminho de areia fina, volumosa, solta. A opressão das cordas eram a fiel companheira de viagem.
Nhééé-crac, nhééé-crac!
Não, não é isso. Não viemos do pó e a ele voltaremos, Simplicidade. Mas viemos dos microrganismos e a estes retornaremos. Aprendemos, Sim, com as referências. Anafórica leva a gente ao que éramos, Catafórica nos antecipa. Simplicidade nunca quis perceber isso.
Nhééé-crac, nhééé-crac!
As rodas de madeira mordiam o eixo seco. A Vila de São Gabriel fechava os ouvidos com as mãos.
Um estridor que obrigava Zémambembe a contorcer-se na mesa do carro de boi. O sol despeja-se sobre ele com toda a sua ferocidade.
A vila era rasgada pelo lamento do atrito das rodas de madeira presas ao eixo do carro. Os bois, mansos, seguiam o carreiro. Ele aboiava dolente sobre a perda da mãe ainda jovem pelo ciúme do pai.
Nhééé-crac, nhééé-crac! tingindo o mundo de ruídos.
A secura da madeira fazia as rodas gemerem. O lamento percorreu as ruas da Vila de São Gabriel.
Eram lentos os passos bovinos, que seguiam o aboio sem reclamar jamais refletir. Nhééé-crac, nhééé-crac! espalhava o denso som que agitava o intestino de Zémambembe.
Era tarde. O carreiro, acompanhado pelo cão, guiava os bois à passagem segura. Próximo à travessia do rio entre a Vila de São Gabriel e Olho D'água dos Lírios, Zémambembe desatou:
Ela tira a minha paz, carreiro, e me deixa tenso o tempo todo. Eu fico com os nervos à flor dos cactos. Simplicidade, carreiro, implantou em mim um medo cósmico. Não sei se quando eu cochilava numa sesta, naquela cesta comprada na sexta. Senti. Simplicidade me dominava pelo pavor. A voz dela, carreiro, paralisava o meu trato digestivo. Simplicidade queria me convencer de que surgiu em minha vida pra que eu tivesse liberdade. Simplicidade disse que era a minha salvadora, carreiro. Ela implantou em mim o horror que sinto quando ouço o portão ranger e os passos dela se aproximarem de mim. Ela vem, carreiro, pra me libertar? Quando eu era criança e ia à escola, disse Zémambembe ao carreiro que nunca foi à escola nem foi criança, a professora contava a fábula do porco que odiava a sujeira. Ele falava e era ouvido. Alardeava com fervor combater tudo o que fosse lambança. Se um porco enlameasse outro, ele atacava e despejava a culpa esperança que nunca passou de utopia dos tolos. Trocava os conceitos das classes gramaticais com discursos de que verbo era substantivo e este interjeição. Lá na frente, esse porco começou a comer verbas, mulheres dos verbos. A pocilga ficou atenta, quando soube e foi ver de perto pra oferecer-lhe certificado. A porcada tirou a cara da lavagem por alguns instantes com a grande descoberta. Alguns porcos já sabiam que isso daquele porco não ia longe. Como de fato não foi. O sol mostrou. O que o porco queria mesmo era ser visto pela imundície, que o abraçou como reconhecimento ao porco dessa história por se desmascarar e mostrar a cara suja do mais nojento dos porcos. Vixe! disse o carreiro. Pro mode quê? Como do porco a princípio as suas oreia, os pé levo pro sistema, da cabeça faço belo caldo, da panceta pururuca, Seu Zémambembe. Fui criado sem pai e sem mãe, carreiro. Acredita? Eles se foram num circo, onde, soube, muitos anos depois, viviam de amores, gargalhadas e viagens ao centro das aventuras sem compromisso. Vamo ino, Seu Zé, pruque a noite é escura. Simplicidade era mãe da confusão mental; jurou ser mãe do desregramento. E a mentira está no auge, carreiro. Minha nossa! Quem não mente, não se salva.
Disse Dona Narrativa:
Toque o bumbo e o pandeiro.
A cortina de fumaça sai da boca do carreiro, que fuma fumo de rolo, bebe pinga em copo de vidro grosso, arremessa uma cusparada entre os dentes, e vai à feira, volta à tarde com uma embira presa a uma manta de carne de segunda. Isso é melhor do que a fila do osso. Lá em casa, Seu Zémambembe, prefiro pé de galinha.
Súbita tempestade de areia ergueu uma parede e rapidamente invade os olhos de Zémambembe. Ele os mantém fechados por uma eternidade.
A mentira tá no auge, carreiro. Mas quem não mente, Seu Zémambembe, não se salva. Olhe o Cara-Morta, não deixe o Cara-Morta fingir. Ele é o carreiro contratado por Simplicidade para fazer parafernália. Esse aí nunca se arrepende; segue em silêncio e planeja maldades.
O desejo do carreiro é transferir ao inimigo tudo o que ele quer fazer, e faz. Desconfie do carreiro, que fuma, que bebe, que faz farra.
Carreiro, carreiro. Mente como descarado, é contratado para mentir. Leva o prisioneiro na mesa do carro. Lá vai, o carreiro vai dar com os burros n'água.
A principal função da tristeza é corroer a alma. Mostre e não diga que uma das funções da tristeza não é ser outra coisa senão ter desejos em perfurar, logo destruir com precisão. Tocava longe um chocalho. Ouvia-se o balir do bode. As rodas de madeira, pacientemente, moíam as pedras do caminho sobre a aflição dos órfãos pedregulhos que, demoradamente, gemiam agudos ais.
Nhééé-crac, nhééé-crac!
Fez bico com os lábios e, quando soprou o ar dos pulmões, Zémambembe cantou:
Hai fala no ritmo tônico.
Seguia o feromônio 
Fonética, verso tonto.

Ai, ai, ai, como é triste 
A paixão de apaixonar.
O coração logo acelera, 
O cidadão se desespera,
O aperreio se vira em fera,
O cidadão se põe a cantar.
Ai, ai, ai, como é triste 
A paixão de apaixonar.
Zémambembe levava à risca a filosofia do canto na esperança de se ver longe do pranto sobre a mesa do carro de boi. E retomava o ponto:
Hai fala no ritmo tônico.
Seguia o feromônio 
Fonética, verso pronto.
Você sabia, carreiro? Nasci numa manhã, no dia 19 de março; no dia 27, mamãe Mambembe e papai Mambembe se foram.
Carreiro, carreiro! Velha herança do trabalho compulsório que oprime, que machuca, que humilha a vítima da patroa. O que fezes, carreiro, em nome da tua patroa Simplicidade? Ela que me machuca, que me humilha, que me oprime. Como fui tolo, São Gabriel!  Quando acreditei que seria feliz? A felicidade nunca me favoreceu. Se há uma parte vil e sem conserto, é essa parte que fede a pocilga. Adulador da patroa que lhe trata a pontapés e gritos. Acaso ela reduz o horário do seu trabalho à frente dos bois? Não. Acaso ela lhe aumenta mês a mês o salário? Impossível. Ela prefere gritar a plenos pulmões que isso quebra as suas parcas economias. Carreiro, carreiro! Ela prefere queimar o registro das suas horas trabalhadas, carreiro, fazê-lo de xeleléu. Grande imbecil. Não olha o dia de amanhã. Não tem olhos para ver que as aves dos céus não amontoam em celeiros. Víbora. Ao menos afrouxe as cordas nos meus pulsos, nas minhas pernas, que estão acabando comigo. Carreiro, carreiro! Miserável. Misericórdia, carreiro, misericórdia. Diga-me o teu preço, desgraçado. Não seja maluvido. Não faça ouvidos de mercador. Inferno! Vou mandar todos os demônios atrás de ti, infeliz das costas ocas.
Aboiou:
Turba, turba. A tuba dentro do gato,
O gato dentro da tuba. Turba, turba.
Que labafero importante uma trova.
Isso só acontece ao som da rumba.
E o carro de boi se foi rio adentro. Zémambembe aboiava, o carreiro pitava e o cão seguia os bois. Vila de São Gabriel ficava para trás, aproximava-se Olho D’Água dos Lírios.