OLHO D’ÁGUA DOS LÍRIOS
CONTOSMarcello Ricardo Almeida 18/05/2026 - 10h 31min
Personagens, Bagatela, guiavam o mundo.
Que está lendo, tio?
“O Mundo dos Murídeos.”
Por São Gabriel, como alguém consegue ler uma coisa assim!
Com a ponta dos dedos ou a força dos pelos que crescem nas bordas dos olhos, sobrinha.
Esse calhamaço mostra o quê, meu tio?
Como botar o guizo no gato.
Os gigantes olhos de Bagatela eram violetas. Ela tão vaidosa com o seu cabelo batavo.
JOÇA: Isso é hora de veia tá dorminu...
DONA BAGATELA: Cala-te boca!
JOÇA: Vou fazer o seu chazinho de cravo-da-índia.
DONA BAGATELA: Não me lembro de ter...
E, naquela noite, Bagatela dispensou Polímato quando a programação da TV foi substituída por um enxame de abelhas. Passava da meia-noite: a TV saiu do ar.
Era hora de sair do longevo casarão. Polímato, superlativo e aumentativo, escondia de Bagatela a calça molhada. Ele já planejava o breve retorno ao sofá na sala de TV, já esgueirar-se entre as rosas, os galhos de limoeiro, galhos de caquizeiro, atravessar a alameda das mangueiras e dos cajueiros. No céu, a lua era um filete de unha, entre as árvores brilhavam no escuro os olhos dos gatos.
Na cozinha, Zémambembe distraía-se em torno de um bule de café 100% arábico. Contava os palitos em uma caixa de fósforos; tirava-os da caixa, contava um por um antes de guardá-los e tornar a abri-la e conferi-los.
Naquele sábado, a TV reprisou “King Kong” de 1933. Polímato comentava com Bagatela sobre a técnica de stop motion, enquanto deslizava os seus dedos sobre a boneca de pano de Bagatela. Eles falaram sobre a direção de Merian C. Cooper, e combinaram em se encontrar na primeira missa de domingo.
Até amanhã, Ba.
Até, Poli.
Bagatela foi atraída pela luz que vinha da cozinha e invadiu o corredor. E se fosse a tia Simplicidade? Evitaria. Ela vivia com os azeites. Mas se fosse o tio Zémambembe, que dormia pouco, não se importava com o azeite às canecas.
Resolveu tomar rumo à cozinha cuja porta parecia a abertura da caverna de Platão. Correu um rato. Bagatela jurou cobrar dos serviços do Sr. Gato.
O corredor parecia elástico. Por mais que caminhasse, ela distanciava-se.
E a sombra da prateleira projetou na lajota o desenho feio e misterioso de uma Ilha da Caveira. Atravessou a porta da cozinha uma sombra alta que a fez fugir do Empire State Building.
Tio...! murmurou. Por que o tio está acordado?
Porque tenho medo de sonhar.
Medo de sonhar, tio?
Medo de dormir. E você o que faz aqui?
Vim beber água.
E a quartinha em seu quarto?
Esqueci, tio.
É tarde.
É.
Se fecho os olhos, sobrinha, vejo bocas com todo o tipo de nojo, enormes bocas, sinto esgotos fétidos, imundos, que se abrem sob as minhas pernas e me ameaçam devorar.
Oxe! surpreendeu-se.
Simplicidade obriga que eu durma. Não consigo.
Por que não reza?
Porque perdi a fé.
Não deixe... disse Bagatela olhando se havia mais alguém acordado. Tio, não deixe a tia saber.
Sonhei que fui ao açougue. Simplicidade disse-me que trouxesse a manta da carne mais cara. O marchante carregava a machadinha com esforço, puxava uma perna com dificuldade, acompanhado por moscas. Brilhava uma lâmina de peixeira em sua mão. Havia cabeça de porcos presas a ganchos, quartos de boi, um carneiro ou um bode cortado ao meio. Vi no balcão com filetes de ossos, uns dentes, umas nesgas de carne, braços e pernas de gente, a metade de um rosto, sobrinha Bagatela.
DONA BAGATELA: Joça, minha espevitada, me traga logo o suco de laranja.
JOÇA: Aqui está, Dona Bagatela.
DONA BAGATELA: Mas isso não é laranja, Joça!
JOÇA: E o que é, dona?
DONA BAGATELA: Limão, sua louca! E o pior: sem açúcar.
JOÇA: Pra que açúcar, Dona Bagatela, se a vida já é uma rapadura!
DONA BAGATELA: Não me desafie, Bocadomundo... Não me desafie!
E a professora Abantesma entrou na sala de aula com as mãos para trás. Sorriu. Conferiu a turma por cima dos óculos, e disse:
Na semana que passou, e as senhoritas bem estão lembradas... Bem. A aluna Bagatela leu um conto. Bem. Sabemos, bem, pela análise linguística, bem, ou estilística, bem, ou como queiram as senhoritas, bem, semântica, que a atmosfera do conto é cheia de contraste: há uma oposição espacial e sensorial entre o lado de fora (vasto, escuro e ameaçador) e o lado de dentro (doméstico, reduzido e solitário). Bem. As senhoritas bem observaram, bem, a personificação. Bem. E aquela “noite”, bem, recebe o adjetivo, bem, “impenetrável”, bem. Bem. Isto à linguística, bem, atribui à noite características de um agente ativo, bem, quase, bem, como eu poderia dizer, bem, quase uma entidade, bem, uma personificação, eu posso dizer-lhes. Bem. No conto, esta personificação aumenta o peso do suspense. É. Bem. O efeito de solidão e vulnerabilidade, bem, ficou bem evidente. Bem. Plac! bateu a sua palmatória na palma da própria mão. A escolha do sintagma. Bem. A escolha do sintagma “apenas uma criança de dez anos” utiliza o numeral, bem, o numeral e a indicação de idade mínima para ressaltar a fragilidade, bem, essa fragilidade perante o cenário imponente descrito na referida frase. Bem. E cada uma das senhoritas nesta sala de aula sabe muito bem. Bem. Afinal, senhoritas, a progressão textual o que nos diz? Bem. Nos diz que o texto cria um cenário... um cenário, bem, de isolamento temporal e espacial clássico em narrativas de... de... de mistério e terror. Delimitando, Amália, o tempo morto da madrugada.
Sim, professora.
Vamos ao campo morfológico do conto lido na semana passada.
Sim, senhora.
Morfologicamente, Amália, “lá fora” é o quê?
Bagatela murmurou: “advérbio de lugar.”
Amália!
Senhora?
“A noite impenetrável dominava” é o quê?
Bagatela murmurou: “a” é um artigo definido, feminino singular. E “noite” é um substantivo comum, concreto, feminino singular. E “impenetrável” é um adjetivo, ele caracteriza a noite de maneira uniforme. “Dominava” está na cara que é o verbo pretérito imperfeito do indicativo na primeira conjugação.
Eu exijo... Plac! logo bateu e repetiu com aquela palmatória, e atingiu a mesa escolar com a força do braço da professora Abantesma de olhos fixos no cartaz afixado ao quadro com as classes gramaticais. Ploc! repetiu. Hoje, agora, cada uma das senhoritas diga-me a análise sintática do texto lido no conto da última aula. Amália!
Sim, senhora.
Professora!
Professora.
Professora Abantesma!
Professora Abantesma.
O texto lido por Bagatela é composto por quantos períodos simples?
Senhora?
Senhora Professora Abantesma!
Senhora professora Abantesma.
O texto totaliza quantas orações, Amália?
Senhora?
O sujeito simples, Amália, é “a noite impenetrável” e o núcleo é a palavra “noite.” Não é, Ismália? Se não sabe pergunte à Ismênia. E o adjunto adnominal, Amália, irmã de Amélia, o “a” e “impenetrável.”
Senhora?
O predicado verbal qual é, Anacleta?
O predicativo, professora?
“Dominava.”
Dominava quem, professora?
E o adjunto adverbial de lugar, professora Abantesma, gritou Bagatela, é “Lá fora.”
Muito bem, Bagatela. Bem. Na oração “Já passava da meia-noite” qual é o adjunto adverbial de tempo?
Já.
DONA BAGATELA: Vejo que a madorna se aproxima.
JOÇA: Não vejo nada, Dona Bagatela.
DONA BAGATELA: Hoje expulso essa legião de demônios que atravanca...
JOÇA: Atravanca o quê, Dona Bagatela? Dona Bagatela se sai com cada uma! Onde Dona Bagatela encontra tantas palavra? Isso nem existe: atrabanca!
DONA BAGATELA: Oxi!
JOÇA: A veia mal falô e já pegô no sonu. Cravo-da-índia obra milagres!
AFÁVEL: Quem obra milagres, Joça, em nossa Vila é São Gabriel.
JOÇA: Nada não, senhora Dra. Afável.
AFÁVEL: Não, não faça barulho, Joça. Vá cuidar o que fazer. Deixe a mãe dormir o seu justo sono na cadeira de palhinha.
O tio de Bagatela a levava pela mão à escola todas as manhãs. Ia buscá-la ao meio-dia. Voltava com ela após o almoço, cujo retorno era ao final da tarde.
Vila de São Gabriel iniciou o que se conhece como educação integral. Com Simplicidade e Abantesma, o ensino se expandiu com essa modalidade.
Abantesma exigia ter na ponta da língua não apenas a análise sintática e a morfológica, mas que prevalecesse a bidocência da língua com a matemática. Metodologia presente nas aulas das professoras Simplicidade e Abantesma.
Bagatela saía do quarto abraçada aos livros, cadernos. Os lápis, borracha e duas tranças que lhe davam o aspecto de uma sacerdotisa egípcia. Séria. Ria, apesar do olhar da tia Simplicidade pesado feito mil torpedos sobre Bagatela.
Os ares de Simplicidade carregavam a época pré-1888. O mundo não era outro em seu domínio sobre Zémambembe e em volta do longevo casarão. Ela pregava aos quatro ventos que em breve governaria a Vila de São Gabriel. Olho D’Água dos Lírios admiravam o exemplo de Simplicidade.
DONA BAGATELA: O que me traz nesse copo, Joça?
JOÇA: Seu chá de cravo-da-índia, Dona Bagatela. Senhora não dorme sem ele.
Mocinha ainda, a jovem Bagatela mantinha os pretendentes sob cabresto curto. Era uma aluna aplicada da tia Simplicidade. Jogava-se aos pés, atraída pelos gigantes olhos violetas, toda a juventude da Vila de São Gabriel e de Olho D’Água dos Lírios.
Bagatela, pele e osso se converteu a carne de pescoço, quando se tratava do músculo que bate dentro do peito. Polímato Polymathēs, filho de pai imigrante grego cuja grande família veio há muito saciar-se da salobra água do rio entre a Vila de São Gabriel e Olho D’Água dos Lírios, foi “o sortudo”, disse na escola, “a cruzar os infindáveis degraus no longevo casarão e tocar o cálice de Bagatela.” Na parte em que o rio se estreitava entre Olho e a Vila, impostos dos moradores pavimentaram as margens, arborizaram, ergueram calçadas; nelas, Bagatela e Polímato caminhavam de mãos dadas, dividiam algodão-doce.
DONA BAGATELA: Joça, sua tirana, você nunca perde a oportunidade de fazer um escândalo na Rua dos Quebraqueixos.
JOÇA: Eu, Dona Bagatela? Que coisa feia de se dizer, patroa.
DONA BAGATELA: “Pega ladrão!” você gritava. “Pega. Ladrão!” você botava os bofes pela boca. “Pega, ladrão!” Havia uma semana passada que Escaravelho e Cipó saíram daqui algemados, Joça, e você ainda gritava: “Pega ladrão! Pega. Ladrão! Pega... ladrão!”
Quem é o narrador-personagem, tio, nesse pesado livro?
É um tal de Carmundongus, que narra o mundo dos murídeos na primeira pessoa, como se vivesse os fatos capítulo por capítulo.
Não há um narrador-observador?
Uma ratazana aparece às vezes e narra na terceira pessoa apenas o que vê e o que ouve durante as desventuras desse mundo Robin Hood às avessas.
O tio encontrou algum narrador-onisciente, tio?
Um roedor que aparece e desaparece, com várias frentes de atuação, que compra influência e conhece o íntimo dos personagens, até os seus mais íntimos pensamentos.
E como é o enredo, tio, nesse pesado livro?
Ainda não cheguei lá, Bagatela. Estou conhecendo os personagens ainda, nas situações iniciais.
Livro com tantas folhas, tio, deve haver a mesma quantidade de conflitos.
Tô, Bagatela, correndo pra chegar ao ápice da tensão, quando habitantes desse mundo dos murídeos recebem a visita do gato que ganhou deles o guiso.
E esse será o desfecho, tio, nesse pesado livro?
DONA BAGATELA: Joça, venha cá.
JOÇA: Senhora?
DONA BAGATELA: Tire as meias dos meus pés. Elas estão me matando.
Polímato Polymathēs tremia quando as grandes violetas de Bagatela lhe cercavam. Os olhos dela sempre impiedosos e sedutores.
Por onde você andou, Poli?
Amor...
Não me traga mais flores furtadas do meu jardim.
Polímato tocou no encosto de uma das cadeiras de ferro próxima à mesa na sala de TV. Baixou a cabeça. A mão escorregou na calça de tergal. Acendeu o cigarro. As violetas fuzilaram-no. Bagatela jogou as flores no sofá.
“A Feiticeira” na TV; ele comentou que preferia “Perdidos no Espaço”; ela não lhe respondeu que se divertia mais com “Jeannie é um Gênio”, conforme os seus comentários semanas atrás. A mudez permaneceu no ambiente, quebrada apenas pela TV.
Não gosta mais de flores, querida?
Vou ficar sem falar com você até saber por onde andou e o que fez antes de chegar aqui.
Braços cruzados, cara amarrada. Bagatela parecia abduzida pela TV.
Ele ajoelhou-se aos pés dela.
Assim ficou melhor! ela comentou, mas não descruzou os braços nem as grandes violetas abandonaram as imagens que corriam na TV.
Ao menos finja que me ama, Bagatela.
Morra aí! ela sentenciou. Morra igual a uma barata esmagada. E não ouse tirar os joelhos do chão.
A custo, Polímato Polymathēs ergueu as pálpebras. No rosto de Bagatela brilhava a máscara da realeza egípcia publicada em preto e branco nas páginas dos livros de história.
Naquela noite, Bagatela foi à cama mais tarde; resistiu o quanto pôde. Ela ao deitar-se reclamou da conversa melada de Polímato, que se derretia quão as caldas de sobremesa de Simplicidade: lentamente enjoativa.
Ofereceu todas as opções possíveis e impossíveis ao corpo na cama, as conhecidas e as desconhecidas, as comuns e as incomuns. Concluiu-as com as mãos sepultadas entre as coxas. Levou uma mão à cabeça, deixou a outra entre as pernas.
Tocou à flor, como lhe sussurrou Polímato àquela noite. Gemeu.
A respiração acelerou. Ofegante. O ritmo cardíaco descompassado. Viu a imagem de Polímato no quarto. Não havia ninguém, além dela e aquela boneca de pano ao seu lado.
Bagatela tocou o cálice. E ele lhe molhou o indicador, o médio e o polegar.
Curta e rápida, a respiração de Bagatela disparou. As mãos não achavam lugar. A cama ficou pequena. O oxigênio bruscamente reduzido no quarto. E ela foi tomada por um súbito e inesperado calor.
Os grandes olhos violetas de Bagatela atravessaram o rio e alcançaram Olho D’Água dos Lírios. Beócio e outros com a mesma idade logo foram atraídos à Vila de São Gabriel. O rival de Polímato era Beócio, que pagava qualquer preço ao Cálice de Kriptonitum se afastasse o seu oponente de Bagatela.
Dispneia. Súbitas reações pulmonares e cardíacas, baixa oxigenação no sangue. A respiração cada vez mais acelerada, cada vez mais rápida, cada vez mais, mais, mais... mais... Uma mão enterrada no calor, outra sob o nariz onde procurava o resto do cheiro de Polímato. A respiração cada vez mais acelerada, cada vez mais rápida, cada vez mais, mais, mais... mais... Bagatela soltou ais.
DONA BAGATELA: Vejo TV o dia todo e sou informada.
AFÁVEL: O passatempo preferido da televisão é a mentira, mamãe. Eu poderia adotar certo senso crítico pra falar sobre a vida, mas prefiro o senso comum, este, mamãe, é mais poético. Em quase todos os lugares, a criança é obrigada a ir à creche pros pais trabalharem. E quando elas crescem vão às escolas; mais tarde, elas vão ao trabalho. Há casamentos, novas crianças, contas, velhice. Por fim, mamãe, quando há sorte, restam-lhes a Casa dos Lírios, que é para onde a mamãe vai ser levada.
DONA BAGATELA: O rio é a antevéspera do cemitério. Não atravesso o rio hoje nem amanhã de manhã.
AFÁVEL: É assim a roda da fortuna nesse rio que nos divide, mãe Bagatela.
DONA BAGATELA: Vou me rebelar contra essa roda da fortuna.
AFÁVEL: Ninguém é contra.
DONA BAGATELA: Sou contra. Absolutamente contra. Nascemos livres e, mal nos entendemos de gente, temos que pagar um preço altíssimo para...
AFÁVEL: Paaaara, mãe. Você sabe que ninguém nasce livre. Coisa de televisão!
DONA BAGATELA: Não fale mal da televisão. A televisão é minha amiga.
AFÁVEL: Sou a favor da liberdade. Qualquer um pode dizer o que quiser. Mas, não é bem assim: assassínio, nascer livre, engodo, balela, falácia; não é assim.
DONA BAGATELA: Não fale de esgoto, de baleia, de farmácia.
AFÁVEL: Engodo, balela, falácia.
DONA BAGATELA: Quer me confundir com sua retórica de sala de aula?
AFÁVEL: Isso parece uma guerra.
DONA BAGATELA: Eu atravessei meus olhos em todas as paredes desses livros à sua frente. Anote, aí, Afável, em seu senso comum. Sempre entre a língua e a ponta dos dedos. Na primeira, eu era ainda criança; mesmo assim vi Capitalismo, Nacionalismo, Imperialismo levarem o mundo em 14; e brigou até 18. Em 17, eu acompanhei aquela uma... e 39 aquela outra. Anotou aí em seu senso comum, Afável? Anote. Anotou?
AFÁVEL: Mamãe, eu só queria dar um pouco mais de poesia ao mundo.
DONA BAGATELA: Chega!
VITORIOSO: Afável, ó Afável, a hora chegou.
DONA BAGATELA: Chegou o quê?
AFÁVEL: Venha aqui, Vitorioso.
VITORIOSO: Conforme combinamos levar a lacerdista.
AFÁVEL: Fala baixo.
DONA BAGATELA: Levar a lacerdista? Por que não leva a tua?
AFÁVEL: Não olhe pro Vitorioso como se ele fosse um carrasco.
VITORIOSO: Sem histórias nem dramalhões circenses, né, sogrinha?
DONA BAGATELA: Olhe a língua.
AFÁVEL: Que é isso, mamãe!
DONA BAGATELA: Afinal, Afável, só se maltratam os indefesos.
VITORIOSO: A velhusca acaba de descobrir o portal entre dois mundos.
DONA BAGATELA: Por favor, filha, não, não vá na conversa desse interesseiro, desse materialista feladaputa.
AFÁVEL: Não o acuse sem provas, mamãe.
VITORIOSO: Fela de quê! Nunca fui feladaputa. Afável, contenha essa tua mãe. Amor, ponha limite em minha sogra. Alguém que chegou onde cheguei, Afável, jamais pode ser chamado desse nome.
DONA BAGATELA: Que nome, seu feladaputa!
VITORIOSO: Meu idealismo foi a minha ruína. A inadimplência acabou comigo. Os juros me deixaram de esmola. Quem só comia em restaurantes finos, passou a tomar café da manhã em biroscas.
DONA BAGATELA: Seu fela...!
VITORIOSO: Ela continua, Afável. Não dou dois anos, e o mundo se acaba.
DONA BAGATELA: Olhe a cara do ladrão.
VITORIOSO: Não, não, não podemos esperar mais, querida. Vamos nos atrasar. Aprece essa Djoça, Afável. Vamos, Djoça! Vamos, Djoça! Vamos, Djoça!
JOÇA: Por quê, Dona Afável, o Dr. Vitorioso passou a me chamar de Djoça?
AFÁVEL: Pergunte a ele, Joça.
JOÇA: Ó Dr. Vitorioso, ó seu Dr. Vitorioso...!
VITORIOSO: Que foi, Djoça?
JOÇA: Eu me chamo Joça, e não Djoça.
VITORIOSO: Sim, sim, eu sei, Djoça. Eu não sou buro, Djoça. Agora, ó você solte já essa peste dessa vassoura e me ajude aqui, Djoça. Os compradores da casa vão chegar aqui, logo depois que eu a levar ao asilo. O tempo do taxímetro tá correndo. Vendemos o casarão ou eu não sei o que acontecerá.
AFÁVEL: Maldita noite em que passei a procuração pra você.
VITORIOSO: Isso a gente recupera.
DONA BAGATELA: Agora pego vocês aos cochichos.
AFÁVEL: Vamos trocar a fralda, mãe.
DONA BAGATELA: Já falaram com o dono? Agora é só me levar.
VITORIOSO: Não se demore, sogrinha do meu coração. Tu sabes, mamãe, que moras nesse coração, que só apanha, sem gastar com aluguel, condomínio, gás, luz, água, IPTU...
DONA BAGATELA: Quanto Satanás tá cobrando um quartinho no inferno, filha?
VITORIOSO: Se as condições me favorecessem, Afável, eu mandaria essa tua mãe à Patagônia, aos quintos. Assim, não teria notícias dessa cara feia. Apressa, apressa, Afável; agora, já não dá mais. O luxo do tempo acabou. Olhe o relógio, olhe; ele não espera. Isso é culpa do pêndulo.
DONA BAGATELA: Que é que tá acontecendo aí?
TIA SIMPLICIDADE: Que é que tá acontecendo?
DONA BAGATELA: Que é que tá acontecendo?
TIA SIMPLICIDADE: Que é que tá acontecendo aí?
BAGATELA: Nada, tia Simplicidade. Nada.
TIA SIMPLICIDADE: Você vai apanhar, Bagatela.
BAGATELA: Apanhar não!
TIA SIMPLICIDADE: Traga o rabo do tatu.
BAGATELA: Da última vez não pude ir à escola com manchas no corpo.
TIA SIMPLICIDADE: O rabo do tatu, Bagatela! Não argumente.
BAGATELA: Não faça isso de novo, tia Simplicidade.
TIA SIMPLICIDADE: Desobediente. Estou preenchendo a ausência da tua mãe. Se a tua mãe, aquela sem-vergonha, feladaputa, estivesse em meu lugar faria o mesmo. Bagatela, a senhorita nunca vai ser nada na vida, não vai ser gente, sua orelhuda. Uns contra vapores, um tanjo de carroceria... Só umas coisas assim, Bagatela, sua maluvida do inferno, lhe podem consertar. Destrambelhada. Inútil. Tem uma coisa muito séria dentro de você. Mas o rabo do tatu vai consertar-lhe. Você é um pedaço de gente, e quando baixa o santo ninguém lhe segura. Não sei por que estou conversando duas horas. Cadê o rabo do tatu? Traga o rabo do tatu! És uma coisinha sem valor. Pedaço de gente desprezível. Por que a tua mãe não te abortou, desgraça?
BAGATELA: Que significa “te abortou?”
TIA SIMPLICIDADE: Vou explicar-lhe com o rabo do tatu.
BAGATELA: Ti...a!
TIA SIMPLICIDADE: Vai chorar? Fica me olhando com essa cara de deboche, esse bico, fecha os olhos, os deixa apertados e começa a derramar essas suas lágrimas de crocodilo. Sabe que isso me comove pra cachorro. Pare de chorar. Vem dá um abraço, aqui, em sua tia-mãe, vem, vem querida. Você é igual a mim, queridinha. E nós só precisamos de amor, de comida e casa.
BAGATELA: Isso me deixa confusa.
TIA SIMPLICIDADE: Sua boba. Vá lavar a louça; vá. A pancada lhe doeu?
BAGATELA: Doeu, sim, senhora.
TIA SIMPLICIDADE: A pancada lhe serviu?
BAGATELA: Serviu, sim, senhora.
TIA SIMPLICIDADE: Ande rápido. Vamos preparar a festa de Natal. Quero ajuda para montar a árvore. Mas, se quebrar uma bola, apanha. Na escola, aquelas crias me fazem arrancar cabelo; em casa, Bagatela que deixa louça suja, quarto desarrumado, banheiro sem asseio, criação sem comida. Bagatela, eu a quero ver qualquer dia no borralho. Não confunda essas minhas mudanças de humor. Seu tio Zémambembe é ser sem beabá, e teve o que teve. E estou sentido cheiro dele em casa, aquele cheirinho inconfundível.
BAGATELA: Não, tia.
TIA SIMPLICIDADE: Não minta para mim, Bagatela. Não minta. Vou bater com a sua cabeça na parede, Bagatela, como fiz com Zémambembe.
BAGATELA: Ti...a!
TIA SIMPLICIDADE: Bagatela, ó está sofrendo? Pobrezinha. Óóóó! Rogue ajuda à baronesa. Quem sabe, ela lhe escuta na Corte Imperial ao lado da nobreza e das memórias dos Pedros. As louças te esperam. Vai lavar e secar e guardar. Engula o choro. Engula. Entupa-se! Com banana e bolo enganam-se os tolos. Bagatela, a senhorita veio pra cá para comer feijão comigo e, quem come feijão comigo, sabe como é: leva do meu cinturão. Se você começar a me incomodar muito, eu vou levar você para conhecer Piaçabuçu.
BAGATELA: Onde fica Piaçabuçu?
TIA SIMPLICIDADE: Mostre o que está escondendo, aí, atrás. Ou quer mais castigos? Você teve uma pequena amostra grátis. Deixo você ajoelhada nas pedras com um pote d’água na cabeça até escurecer. E não tem Natal. Cadê o rabo do tatu? Eu mesma vou procurar o rabo do tatu e lhe dar uma boa sova.
BAGATELA: Ti...a.
TIA SIMPLICIDADE: Menina cretina. Vai chorar de novo? Entupa-se!
BAGATELA: O que tem aqui atrás é leite.
TIA SIMPLICIDADE: Leite?! Pra que leite? Leite é caro.
BAGATELA: Eu tenho um...
TIA SIMPLICIDADE: Passe logo, logo para cá este copo de leite. Quente? Ainda por cima quente, menina Bagatela? E não gagueje, porque a senhorita... Deixe, deixe de conversa fiada, sua malandrona! Aonde ia levar o leite?
BAGATELA: Pro gatinho, ti...a.
Zémambembe reescreve os versos de outra poesia de cordel. O romance tratava da mãe de Abantesma, que foi chamada ao céu ainda jovem. Se o viúvo ficou desconsolado, não demorou até reencontrar Maria Bala. O ganha-pão dele era o magistério; alimentava-se das línguas mortas. A finada, que era devota de São Gabriel e ao filho recém-nascido de uma das suas irmãs, foi à Mangabeira, em Maceió, visitá-lo pela primeira vez sem saber que ele havia falecido e não foi sepultado; a sua irmã se recusava aceitar a morte, acreditava que a criança vivia sobretudo à noite: abraçava-o e amamentava o rebento com olhos esbugalhados e aprovava as repetidas sucções violentas nos seios túmidos quais uns pães quentes, longos, arredondados. As irmãs pias e apaixonadas se reencontraram sem saber que alimentavam um morto-vivo.
A juventude em Olho D’Água dos Lírios atravessava a nado a divisa com a Vila de São Gabriel, atraída pelas grandes violetas de Bagatela. E a juventude competia quais gladiadores por Bagatela, que a recepcionava com pedras, gritos e palavrões, palavras, palavrinhas, vassouradas de Simplicidade, latidos e cães, exceto quando se tratava de Polímato Polymathēs, filho de uma das 13 irmãs de Abantesma.
Tio, disse Bagatela, a professora Abantesma me cobrou os elementos da narrativa. O tio sabe quais são, tio?
O tio Zémambembe divisou o sol. E viu o protagonista, que manipulava o enredo, atacado pelos antagonistas, que perseguiam o primeiro e, apurou bem a vista, enxergou com dificuldade os secundários, que atravessavam o rio a nado entre Olho D'água dos Lírios e a Vila de São Gabriel. Eram estes os últimos que moviam a engrenagem desta história, minha filha. E disse o tio à sobrinha, que não soltava a boneca de pano cheia de remendos até nos olhos:
Vamos iniciar pelos personagens, Bagatela.





